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1bertodealmeida1@gmail.com

» JOÃO PESSOA, 14 DE FEVEREIRO DE 2008

Uma Cápsula do Tempo Made In PB

Arte: Francci Lunguinho

A Ponta do Seixas é um dos mais conhecidos e talvez o mais bonito dos pontos turísticos da capital parahybana. Uma ponta do dedo da natureza, apontando para o mar. Hoje, porém, lembrando aquela boa sacada do compositor baiano sobre a força da grana que ergue e destrói coisas belas, com a construção da chamada Estação Ciência Cultura e Artes, um monte de ferro e concreto que nunca poderá ser comparado a beleza da visão azulada das ondas do mar beijando a secular barreira dessa ponta, projeto do quase imorrível - nada a ver com os imortais e quase mortos da nossa ABL - Oscar Niemayer, esse dedo muito em breve poderá ser decepado. Pois bem. Esse seria o locai ideal para enterrar a minha Cápsula do Tempo, uma cápsula genuinamente parahybana.

Foi isso que pensei num domingo desses, passeando por ali, bermuda e sandálias franciscanas, muitas vezes sozinho, mas, dessa vez, bem acompanhado da Morena. Pensando assim numa dessas manhãs ensolaradas de domingo, comecei a imaginar o que este escriba guardaria nessa cápsula que somente seria aberta - fiz os cálculos com os meus botões, hoje, mais carne que osso - um século depois. Isto mesmo, um século, pois, acredito que essa bomba-relógio em que se transformou a terra da banda de Bush Louco e seus Acólitos Enlouquecidos não vai demorar mais do que isso para explodir. E um século, para quem não costuma contar com o ovo no cu da galinha, é uma eternidade! Uma cápsula do tempo... Fiquei a imaginar.   

A cápsula, como os meus dois leitores devem saber, é aquele recipiente metálico, geralmente com o formato de uma daquelas bombas da Segunda Guerra Mundial, assim descrita por todos os que imaginam as suas cápsulas, em que diversas coisas que representam uma época, relíquias que os homens vomitando uma importância maior os seus dez por cento animal, acham que devem ser guardadas para a posteridade. Essa idéia de Cápsula do Tempo, como vocês podem perceber, é uma coisa de americano. Tanto assim que eles, prevendo uma explosão futura - sempre estão pensando em explodir alguma coisa -, ao invés de batizar a sua invenção de "time cápsula" e registrar a patente, deixaram no ar a louca idéia de que a deles poderia ser chamada mesmo de "time bomb". Ou seja, de bomba-relógio.

Assim, depois de escolhido o local, pergunto aqueles meus botões dos quais falei no parágrafo anterior: afinal, o que merecia ser guardado dentro dessa cápsula que representasse a época do Ariano Suassuna (Taperoá) da Pedra do Reino e José Da Penha (João Pessoa) do Tudo X-Caçarola, e que os nossos futuros patrícios merecessem ver/saber/ler/ouvir? Mas, para não contrariar futuros construtores de outras cápsulas, ressalto que a escolha seria tão-somente deste escriba. Sei que muitos terão as suas relíquias. E tendo-as como relíquias suas não aceitarão as relíquias escolhidas por este escriba, nem que as suas sejam preteridas. Mas, para começar, não sendo incoerente e ratificando que não acredito que essa coisa continue a mesma depois de cem anos nem esteja a merda que está, vai estar mil vezes pior, claro, mandaria fazer um foto tamanho do campo José Américo de Almeida - nossa principal praça de esportes - da nossa ainda bela Ponta do Seixas, e botaria lá dentro.

Assim como já ocorreu com outras cápsulas americanas, principalmente com as deles, esses que posam de xerifes de um mundo onde os bandidos só usam balas de festim e seus cavalos são todos mancos, decidindo ainda que morre no final, talvez a minha cápsula não seja descoberta daqui a um século. E se digo só um século, é porque a modéstia verde e amarela me impede, por  exemplo, de sonhar com os 50 séculos daquela outra cápsula famosa, enterrada na feira Mundial de Nova York, em 1939. Parece brincadeira, mas é verdade. A abertura dessa cápsula secular está programada - americano tem essa doença de pensar que vai viver eternamente e sua história, daqui a milhares de anos, vai ser um exemplo – para ser aberta em no ano de 6.939. Isto se algum descendente da raça humana conseguir chegar a essa data inimaginável.

Mas, afinal, o que este escriba guardaria de tão importante assim para a posteridade dos habitantes desta nau catarineta parahybana? Bem, antes de entrar nos finalmentes, volto a lembrar que seria uma cápsula só de coisas nossas, da terra de Heráclito de Almeida (João Pessoa), esse que com certeza teria a sua Clarineta e a sua história um lugar assegurado, e de José Américo de Almeida (Areia), que, com certeza também, teria um exemplar do seu A Bagaceira. O porquê da escolha? O primeiro, por ter sido essa clarineta uma fiel companheira do meu velho e exemplar pai que há bom tempo pagou a conta do bar e foi se embriagar, como saiu desta sem beber, com água de nuvens; e o segundo pela sua importância histórica, referência literária e política da terra de Livardo Alves (João Pessoa), compositor da Marcha da Cueca, outro presente, que foi pular em outros carnavais. Se a linguagem de A Bagaceira do nosso José Américo é uma mistura de broto de cacto recheado com tempero moderno, por outro lado, o seu prefácio, entre tantos que li por aí, embora não seja um leitor de prefácios, somente por ele, teria a sua entrada franca. Vamos adiante.

Pescaria a imagem  pescada pela famigerada Rede Globo do nosso Mazinho (Santa Rita) embalando um bebê imaginário ao lado de Romário e Bebeto, depois daquele gol com o qual Bebeto, pai do imaginário bebê, abriu o caminho para a conquista de mais uma Copa do Mundo. E sairia em minha peregrinação. Ah, a arte, esse  encanto que consome! E os meus discos, meus livros e nada mais? A Casa no Campo, por sua vez, deixaria onde ela sempre esteve: em meus sonhos. Do Chico César (Catolé do Rocha), esse que conheci ainda nos tempos de Cesinha colando cartazes pelas ruas e apelando para encontrar dez ou quinze pessoas no Teatro Santa Roza, quando fosse cantar a sua intragável e desconhecida "a raposa do rei não gosta de mim", colocaria o seu Aos Vivos, o primeiro e melhor dos seus trabalhos. E, por coincidência, no mesmo embalo do os primeiros filhos, principalmente do pessoal daqui, continuam os melhores, o Avô-Hai do Ramalho (Belém do Brejo do Cruz) e o Do Meu Jeito Natural (Taperoá) do Vital Farias.

De forma nenhuma poderia esquecer a importância do Herbert Viana (João Pessoa) e o seu disco Selvagem! Esse, com certeza, estaria lá dentro! E para não dizer que esqueci dele, dias antes de enterrar a minha cápsula, Das Terras do Benvirá do Geraldo Vandré (João Pessoa), já teria o seu lugar reservado. De Elba Ramalho (Conceição de Piancó), velha gralha, levaria o seu Ave de Prata na condição de que a parte ela gravasse um CD, que também seguiria junto, com as músicas de Cátia de França (João Pessoa), um artista completa, mas infelizmente desconhecida por aí, incluindo as suas excelentes Kukukaia, Ponta do Seixas e Panorama.

Enquanto arrumava o meu legado, eis que a memória, essa que um dia ainda há de me matar de tantas lembranças, lembrou: e o Genival Cassiano dos Santos (Campina Grande), o Cassiano, um dos nossos precursores da chamada soul music brasileira, autor de clássicos como Primavera e a Lua e Eu? Um disco seu não poderia faltar na minha cápsula! E, pecado dos pecados, como esquecer o "cabelo de milho" de Severino Dias de Oliveira (Itabaiana)? Mesmo daqui a um século, aberta a cápsula, muitos perguntariam pelo Sivuca. Para compensar tamanha ausência, colocariam para tocar num aparelho só imaginação a bela e inocente João e Maria, parceria sua com o Chico Buarque, esse, infelizmente, carioca. E se o choro nessa época ainda existir, a falta que o Enfim Solo, um dos melhores trabalhos do parceiro de Humberto Teixeira,  com quem compôs a imortal Adeus, Maria Fulô e deu um show de jazz em cima dela (no bom sentido), chorarão cachoeiras de lágrimas, únicas lembranças dos rios que um dia banharam o nosso planeta.

E José Siqueira (Conceição de Piancó), o filho de um mestre de banda que regeu orquestras como a Sinfônica de Filadélfia, Detroit, Rochester, fundou a Orquestra Sinfônica Brasileira e, proibido de fazer o que sabia como ninguém por um regime onde sacavam o revólver todas às vezes que se falava em democracia, foi para a União Soviética reger a Filarmônica de Moscou e ser jurado de concursos musicais de todo o mundo? Queira-se ou não se queira, esse Zé da Parahyba, o Siqueira, não iria ficar de fora!

Em Tempo:  Fico por aqui, mas mantenho a minha cápsula aberta até a próxima quinta-feira. Nas próximas mal-traçadas, um a um, num jogo que não tem empate, vai o resto dos meus teréns. Por enquanto, imeios  para agaba@bol.com.br

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Humberto de Almeida é escritor


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Crônicas Cariocas® - 2006 / 2008
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