Arte e Fatos de Uma Noite de Verão
Mandei botar grades em todo o meu terraço, mas nem por isso considero-me meu prisioneiro. Tudo bem que os bandidos estão nas ruas, livres, feios e soltos como os palavrões nos livros do Jorge Amado. O pensamento, porém, essa coisa boa que faz com que esse sujeito voe quando começa a pensar, começa a pulsar. E, pensando, ESTOU:
LENDO mais uma vez, O Nome de Deus do Fausto Wolff, e ratificando aquilo que há muito eu já desconfiava: Fausto é um dos poucos jornalistas desse verde-amarelo que sabem como escrever um romance. Uma coisa que o Paulo Francis, um puto jornalista que morreu, foi sepultado, não subiu para lugar algum, e nunca aprendeu.
OUVINDO o "maldito" e recém falecido Itamar Assumpção (Petro Brás), um presente do meu amigo e parceiro Gilberto Nascimento, torrelandense que canta uma porrada e letrista dos mais inspirados. É comovente e belo ouvir "Dor Elegante" na voz do "negão dito". Música dele e letra do poetaço Paulo Leminski. "Ela é tudo que me sobra/ viver vai ser a nossa última obra". E por aí vai...
ESCREVENDO e quase terminando o Estante de Sentimentos, livrosobre as coisas e loi (u) sas e loucos e sãos e fortes e fracos e heróis e bandidos do meu bairro Jaguaribe, onde o meu personagem preferido, Chinelo, um mendigo sui generis, que nunca pediu e nada pediram a ele, conforme me contara outro dia, passeia com a dignidade de um mestre-sala.
ME GUARDANDO para quando o próximo carnaval chegar, fantasia de palhaço pendurada na porta do guarda-roupa, esperando este fatídico ano das eleições.
VISITANDO todos os dias, especialmente pelas manhãs, o meu quintal. Lá, dividindo o prazer com a Morena, plantei acerola, pitanga, abacaxi e coentro. O coentro, senti, destoou. Mas fazer o quê? Se o prazer maior está em plantar, pra mais tarde colher?
ASSITINDO a todos os velhos filmes que um dia assistir eu quis, mas infelizmente não tinha a idade certa para vê-los com esses olhos de voyeur em férias. Talvez, assistindo-os agora, conclua em seguida que eles não me dizem nada. E muitos, confesso que até agora não disseram mesmo.
ESPERANDO que a vida, aquela que sempre sonhei, passe e resolva bater em minha porta, trazendo sementes de novas manhãs para que eu plante ao lado das minhas acerolas (as mais doces) e abacaxis (que doces se tornarão).
SONHANDO com essa manhã que o Taiguara um dia disse desistir de perseguir porque eça não existia. E como ninguém é de ferro, pois se alguém de ferro fosse há muito estaria enferrujado, sonhando também com uma viagem à Cuba do sanguinário Che Guevara e de um Fidel sem nada de Castro. E , se possível ainda, conhecer o Lácio de onde veio essa inculta e bela flor portuguesa.
PULANDO para ver se escapo, como pedira o Noel Rosa, dessa praga de urubu que pegou de jeito o povo brasileiro, escolhendo sempre errado e errando sempre, e trocando um possível acerto por uma cesta básica ou um salário que não dá sequer para manter a cadelinha de Ana Maria Braga com a dignidade que ela acha que a sua cadelinha merece.
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Humberto de Almeida é escritor
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