Um Vandré Vindo e Bem-Vindo das Terras do Benvirá
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Se a memória não me falha o encontro foi em um fim de semana. Um daqueles iguais a tantos outros na minha província. Tudo estava parando ou quase parado no ar. A mesma monotonia de rotina de elevador. No ar, junto ao grito, a pobre ilusão de que os notívagos carregam de que estão "vivendo a vida" em toda a sua plenitude. Era mais um fim de semana, e um bar somente nosso. De repente, assim como eis de repente do poema do Vinícius, a porta abriu e ele chegou com aquele seu jeito nunca diferente de sempre chegar. O andar nervoso e o olhar desconfiado. Os movimentos bruscos, tensos. Muito tenso, super tenso. Hipertenso? Talvez. Sentar? Nem pensar. Beber? Menos ainda.
A mesa era uma das menos freqüentadas. Um compositor paraibano, agora em lugar incerto e não sabido, acabava de lançar um disco (o nome? Ah, memória!), um poeta de cordel, hoje, também no mesmo lugar incerto e não sabido do velho compositor, e uma companheira dos saudosos tempos de universidade que andava comigo como uma tatuagem. Enquanto isso, este escriba, vestido de branco, como sempre, copo de cerveja super gelada sobre a mesa, ensaiava os primeiros goles da noite.
O senhor nervoso e com muitas rugas residindo em seu rosto grave, marcando o seu rosto, não parava um só minuto num mesmo lugar. Era uma pressa somente justificável àqueles que andam pela vida em busca do tempo perdido. Na frente da camisa branca que vestia, lembro-me bem, encardida, pelo visível tempo de uso, lia-se uma frase que para muitos não tinha qualquer sentido: Das Terras do Benvirá. Ali, no “La Cave”, barzinho muito freqüentado por intelectuais, bêbedos e equilibristas da noite, naquela sexta-feira, agora não mais comum, estava o cidadão Geraldo Pedrosa de Araújo Dias trazendo de longe, de muito longe, o compositor e o cantor paraibano Geraldo Vandré.
Passados alguns anos que a memória mais uma vez não me deixa precisar, ouvindo nesse final de semana sem graça, o LP (isso mesmo, um LP!) que Geraldo Vandré insistia em carregar o nome estampado no peito, a lembrança chamada reponde presente. E de repente lá estava este escriba, outra vez, juntando os pedaços da imagem do filho do Dr. Vandrégisilo, primeiro otorrinolaringologista da Parahyba, e de dona Dona Maria Eugênia, uma boa estudante de música que chegou até – por aqui todos sabem de cor a história – o quinto ano de piano clássico. E junto a essas lembranças o fato de que naquele mesmo mês de setembro, Vandré estaria fazendo mais um ano de vida. Sem nenhum dúvida, por tudo que fez pela Música Popular Brasileira, a melhor em uma de suas melhores fases, bem que ele merecia uma justa homenagem – este ano, por aqui, segundo ouvi dizer, Vandré terá um busto em praça pública e será homenageado (risos) pelo carnaval Folia de Rua da capital - e maior respeito.
Parece até que foi ontem, pensei. Lembrei então do Vandré no programa de César Alencar, representando a Parahyba, e usando o nome artístico de Carlos Dias. Naqueles tempos, como tempos atrás também aconteceu com o nosso Chico César que sonhava ser e cantar como o Caetano Veloso – triste fado! –, Vandré imitava o Orlando Silva e, quando esquecia o Orlando, lembrava do Francisco Alves. Queria porque queria ser cantor de rádio. E tanto insistiu nesse querer que terminou ganhando da mãe um disquinho de vinil, um compacto, e saiu pelas emissoras, sem pagar jabá, pois não tinha, pedindo para que tocassem o seu pequeno. Mas é o LP Das Terras do Benvirá que interessa nesse momento em que, todo meu, escuto no meu quarto.
As lembranças chegam mais fortes com o disco na vitrola. O nome cai bem: vitrola, pois, afinal, é um LP. O mais triste é que chegam com os gritos e, não segurando a barra, com o choro incontido do artista. Um sofrimento. Vandré abre as comportas do peito e deixa jorrar, quase de uma só vez, toda a angústia que há muito trazia – e ainda traz, comprovei na última vez que o vi – guardado lá dentro. Um disco apenas e tanto sofrimento; tanta dor; tantos gritos desesperados.
Vou à capa do LP e constato: é um disco de apenas 8 faixas. O tempo que se gasta – ou seria "se ganha"? – para ouvir o dito cujo é de apenas 42 minutos. E para não dizer que esqueci de lembrar que este é um texto de lembranças, lembro que o disco foi gravado e lançado em primeira mão no ano de 1970, em Paris. Todos que acompanham a "saga vandreniana" devem saber. Ou deveriam. Por aqui, como todos sabem, somente chegou anos depois. Mais que um disco, um grito desesperado do artista. Por quê? As músicas não são cantadas, atentem, são gritadas, arrastadas como pesadas correntes nos sótãos da ditadura. Geraldo Vandré parece mesmo é querer chamar a nossa atenção para aquele exílio forçado, para suas andanças por terras estranhas e o quanto ainda guarda da angústia que levou naquela distante e triste partida. Cada grito é um desespero, uma vontade louca de voltar, mesmo estando impedido, naquele ano, pelo medo de ser obrigado a partir da mesma maneira.
A atmosfera do disco é quase irrespirável. Pesada. Os poucos acordes de suas músicas, uma de suas marcas, parecem guardar um espaço maior que o necessário entre um e outro. Grita-se o primeiro verso, e os ouvidos ficam a esperar o som do violão. Outra característica marcante é a expectativa que impregnava todo o ambiente no final de cada faixa. E os aplausos? Une-se a pergunta a expectativa. O disco traz o clima dos discos gravados ao vivo (em festivais). O estúdio, imagina-se, é somente tensão. De quando em vez a voz de Vandré parece perder-se nos confins do mundo. É um aboio. Um soluço contido na marra. Um grito parado no ar. Em quase todas as faixas estão presentes a desconfiança, o medo e – ela continua, sim – a expectativa. O que estaria ocorrendo, estaria desagradando a alguém? Quais as conseqüências daquele canto? Está dizendo o que pretende dizer? Está sendo entendido?
Hoje, mesmo negando a sua criação - "Vandré morreu!" -, ele parece querer que resgatemos a sua história. Em Vem Vem, música onde ele mais se parece com o Vandré da Canção Primeira (a canção primeira/como derradeira não vai te negar) fica o grito "eu brigo a briga/porque sou forte e tenho razão). No entanto e apesar de tudo, mesmo com todo esse cantar seguro, ele parece em alguns momentos não está muito certo de haver brigado justamente: "eu tomo a vida que está na morte/se a morte às vezes é a solução". E, finalmente, outro lamento em Maria Memória da Minha Canção: "eu peço hoje a memória/pro canto da salvação" .
A canção enche os meus ouvidos e me deixa interiormente vazio. "As vezes a morte é a solução". Ainda a sua Maria Memória... Ele parece querer apagar – atentem que antes era um pedido de resgate – da história a sua brilhante passagem pela Música Popular Brasileira, assinar uma Certidão de Óbito. Mas de ouvidos atentos e coração aberto, descobre-se que existe muito mais angústia nos sulcos de cada faixa. O choro, quase que compulsivo, é apenas um sinal. Existem mais, muito mais a dizer nas entrelinhas de cada acorde. Talvez ainda tente alguma coisa de impacto – e em alguns momentos bem que consegue – como aquela queixada de jumento que permitiu ao baterista Ayrton (ex-Sambalanço Trio) colocar em sua (e do Theo de Barros) Disparada, ou, como poucos sabem, Moda Para Viola e Laço, seu subtítulo. Impacto mesmo, assim como aquele buzina dissonante que ele fez questão de usar em sua vaiada e desclassificada Ventania ou De Como um Homem Perdeu Seu Cavalo e Continuou Andando.
O LP segue assim até o final. Respira-se pouco e lamenta-se, com justa razão, a aposentadoria desse "mártir" da Música Popular Brasileira. É quase impossível ouvir uma das faixas sem ficar comovido. Todos os que ouvem e delas falam ou escrevem, repetem a mesma coisa. E quando acaba fica no ar aquele desejo concretizado musicalmente por ele e o baiano Fernando Lona: "olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim/desce o teu rancho cantando essa tua alegria sem fim".
As lembranças que chegam das distantes Terras do Benvirá não se apagam com o retirar do disco da vitrola. No ar – sim, ainda nele – permanece aquela certeza de que aquele senhor de cabelos grisalhos e já com tantas rugas no rosto grave, caminhos abertos pelos anos de estrada, desconfiado e nervoso que adentrou o bar La Cave, naquela noite de sexta-feira, cumpriu o seu papel na história. Soube fazer a sua hora e ainda acenou das mais diferentes formas avisando que o Tempo de Lutar havia chegado. O pior, como diria a essa altura, declamando, o Luiz Vieira, para os olhos do menino amarelado, é que disco continua para o artista mais atual do que nunca. Se Geraldo Vandré entrasse em estúdio nesse momento para gravar, como muitos que ouviram essa raridade também atestaram, o disco que gravaria não seria muito diferente desse Das Terras do Benvirá. Mas queiram Deus que este escriba esteja enganado. E queira Ele, ainda, que vocês também.
A Minha bênção a Geraldo Vandré.
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Humberto de Almeida é escritor
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