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1bertodealmeida1@gmail.com

» JOÃO PESSOA, 10 de janeiro DE 2008

Vital Farias: A Volta do Canta a Dor das Matas e Rios

Nunca escondi que sempre achei o compositor e cantor – esqueçam esse segundo – Vital Farias um dos maiores melodistas da nossa Música Popular. E gosto tanto do seu trabalho que sou capaz de ouvir por duas vezes seguidas – uma coisa rara acontecer com outros compositores/cantores - a sua Saga da Amazônia ou Caso VocêsCase, duas das suas mais conhecidas cantigas, como ele gosta que chamem as suas composições, no intervalo de duas ou três cervejinhas de rótulos virados, considerando o fato de que ando mais abstêmio do que nunca.

Lembro que anos atrás, mais ou menos uns 15 anos, como vocês verão nos próximos parágrafos, em uma de suas poucas apresentações na terra do Compadre Heráclito e Dona Chiquinha, demonstrando a condição de fã que aleguei no parágrafo primeiro, escrevi, se a memória não me falha, em um dos mais lido jornais desta bela cidade banhada de sol e mar, muito sol e muito mar, hoje lidando muito mal com ele, um panfleto, um artigo sobre esse cantador que intitulei de "A Cantoria é Vital".

Lembro ainda que nele, uma vez que sempre achei que "matéria de jornal" não era escrita para ser guardada, mas comida para saborear ainda quente, falava da minha admiração e conclamava o público leitor para esquecer, por enquanto, Elomar Figueira de Melo, outro menestrel que somente se apresentaria dias depois, e mergulhar na cantoria desse taperoense. O público prestigiou, Vital cantou, e depois, sem nem um motivo plausível, pelo menos para este escriba, pendurou a viola e a voz por longos 15 anos.

Sempre confessei em minhas mal-traçadas e nos costumeiros papos com amigos, poetas, seresteiros e namoradas, essas,  hoje casadas e com filhos que não são os meus, que nunca fui de ter ídolos ou coisa parecida. Todos eles, cansei de dizer, têm os pés de barro e os cus de hemorróidas. E não  é preciso sequer olhar os ditos cujos de perto, para saber que "não são normais". Ídolo, todo ele, traz esses defeitos escondidos em seus sapatos de ilusões e calças coloridas.

Por estas plagas, assim como hoje é o catoláico Chico César, Vital Farias sempre foi uma das melhores referências da boa música que se faz por aqui. Uma Parahyba pequenina, como é tratada carinhosamente, mas grande em talentos como esse  do "caba véio" e melodista maior da nossa MPB. Mas, por outro lado, o lado do político e cidadão, infelizmente, Vital tem sido dispensável. Uma pena. Tem falado muito e dito, como todos percebem, muito pouco. Sabe o suficiente para discutir sobre a fase, a triste fase pela qual passa a nossa música popular, mas, por exemplo, usa toda uma entrevista para assegurar que não colocaria em uma composição sua besteira como "Deus estava namorando na beira do mar". Por quê? É um homem temente a Deus, e nada mais. Ou melhor: mais uma besteira.

Mas foi compreendendo o cantador, que passei a gostar mais ainda de suas coisas musicais. O fato está fresquinho, fresquinho. Depois de relutar, usando como desculpas a velha história de que "Santo de Casa" não obra milagre, e mesmo que obrasse ninguém iria acreditar que o santo voltaria com a bunda tão limpa quanto antes, Vital sucumbiu. A força da grana que destrói mais do que ergue coisas belas, apesar do já famoso "Minha música não é mercadoria para que fique pensando em vender, eu penso em progredir cada vez mais, e por isso não tenho essa necessidade de ficar lançando um disco atrás do outro", para a nossa alegria,  trouxe o cantador até a praça onde o povo o esperava há longos 15 anos de silêncio e, segundo o  próprio, decepção.

Se ele está errado? Certíssimo! Mesmo que insista nessa besteira – vocês acreditam mesmo que Vital não deseja vender o fruto do seu trabalho? - em continuar dizendo que "não deseja nem quer" ver o seu trabalho colocado no mercado como uma mercadoria qualquer. A  minha arte não é um "produto comercial", por isso, repete exaustivamente, "não pode ser comercializado". O artista não tem nada de ir – vender, leia-se no caso – aonde o povo está, mostrar o seu produto, esse que ele costuma dizer que vem tão-somente dele, e oferecer a preço de mercado. Fim de papo.

Sobre a sua a ausência "breve aposentadoria", ao ser perguntando sobre os motivos que o levaram a pendurar a viola e a cantoria por tantos anos, respondeu que no princípio era o medo feladaputa que sentia do computador. Não podia ver ninguém mexendo nessa máquina complicada e cheia de mistérios, que se apavorava. Achava-a um bicho perigoso e estranho. Sentiram? Isso mesmo. Vital Farias também gosta de fazer esse tipo matuto de falar arrastado e "carecedor" de informações sobre essa nossa última e inculta e puta de bonita flor do Lácio.

Mas, afinal, insistiu o entrevistado, por que tanto tempo longe desse povo que gosta do seu cantador? Não respondeu. Falou sobre o estúdio que montou em casa; das dificuldades em mexer com as "coisas da tecnologia"; do seu difícil aprendizado e da alegria por ter aprendido a arte da gravação e mixagem, graças ao esforço próprio, e, claro, ao seu afastamento da mídia e do povo pessoense. Falou, falou e... mesmo que continuasse falando, nada diria sobre o que lhe fora perguntado. Vital Farias, além de excelente compositor, também é um craque, assim como o Caetano Veloso, na arte matutar sobre várias coisas e não dizer coisa alguma.

Sobre os 100 mil votos que recebeu como candidato do PSOL na última eleição para o Senado, Vital Farias não gosta de lembrar que essa votação ocorreu pela falta de opção dos paraibanos. Os seus outros dois concorrentes, Ney Suassuna e Cícero Lucena, esse, o eleito, foram acusados de corrupção passiva e ativa. A verdade é que o político Vital Farias está muito distante do artista que, se não tem nada de gênio, como compositor tem feito coisas quase geniais. Decepcionado com o Governo Lula, Pulou com saco e viola para o Psol de Heloísa Helena. Mas não disse uma só vez que "grande" decepção foi essa. Esperava um partido de mudanças? Muito pouco para tão grande decepção.

Mas, afinal, negar que o nosso Vital Farias é um grande menestrel, como ele também gosta de ser chamado, ninguém há de. Um artista que compõe Sete Cantigas Para Voar", "Saga da Amazônia", "Caso Você Case", "Veja (Margarida)"  e "Ai Que Saudade de Ocê",  tem direito a quase tudo, inclusive, como ora acontece com  outros grandes cantadores, de passar 15 anos sem mostrar – ele está empenhando em terminar  Vital Farias ao Vivo e aos Mortos Vivos ou..., Epopéia Negra (obra sinfônica - poética - teatral) e Missa dos Agricultores do Sertão do Cariri Parahybano  - as coisa boas que poderia ter feito.

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Humberto de Almeida é escritor


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