Vou Sempre Preferir o Ano Velho, Esse Eu já Conheço
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1 – Escuto no iniciar desse ano que para muitos vai ser apenas uma continuação do ano que passou, os mil desejos de felicidades para um ano que começa entrando na história de muitos pelas portas dos fundos. Uma pena. Abro porta do peito e as janelas da alma. E só vejo o sol nascer porque muito vivo não arrisco descansar os olhos. Nada de novo sobre e sob o Sol. O mesmo do ano passado e de todos os anos. E os meus olhos de pescador do dia - embora muitos não percebam - há muito o tem preso nos anzóis de luz daquela manhã que mesmo sabendo não existir nunca desisti de procurar.
B – Sei que muitos dirão que não poderia ser diferente. Mas se houvesse um só pouquinho mais – tudo bem, seria pedir muito? - de criatividade nas cabeças quadradas dos nossos "fazedores de comunicação", bem que poderia sim. Fim de ano é tudo igual em nossa televisão. São centenas de voyeurs olhando o mundo por uma mesma lente filmadora/gravadora. Tudo a conhecida cara dèjá vu. Sem querer - foi isso mesmo, o Velho Guerreiro não tinha idéia de que a sua (?) frase entraria para a "criativa" história da nossa televisão – o Chacrinha foi um puto profético da comunicação: "Na televisão nada se cria, tudo se copia".
E – Nesse primeiro dia do ano de 2008 fiquei por um bom tempo feito um ponteiro louco no relógio da televisão, procurando uma matéria ou mesmo notícia que não tivesse visto/ouvido no ano passado. "O povo foi à praia tirar a ressaca dos festejos da noite passada. Estamos falando daqui, cheio de traumas, do hospital traumático do Dr. Ortho Pedista. O fim de ano foi triste para a família da puta que pariu o primeiro bebê nos primeiros minutos do ano novo, nascido na casa da Mãe Joana". Um saco. E diferente do velhinho chato, sem nada de brinquedo.
R - Se não bastasse, teve mais: "Estamos aqui falando com a socialite Madeleine Frazão Carvalho Burgos em sua Casa do Carvalho". Ela promete que esse ano vai perder os quilinhos a mais que ganhou enquanto a sua empregada Zezé Cacete lavava os seus panos mijados e cuidava de sua cadelinha Kátia Cilene. Toda serelepe - guardando a sua roupa branquinha feito picolé de côco com a qual brincou o reveillon, obra do costureiro Clôvildô Até Sangrar - revela que o maridão, seu Carvalho, vai entrar com tudo nesse ano novo. O Carvalho em questão, acrescenta o repórter, é o Carvalho do vizinho, que há muito ela deseja, sem "v", com o tesão de uma fera no cio.
T – E se não bastasse essa cara de dèja vú que assola as nossas televisões todo fim de ano, ele já vem com as mesmas mazelas do ano que acaba de sair. E um entrar e sair com tal sofreguidão que o povo, mesmo que entre e saia ano carregando nas costas mais de quinhentos parasitas de plantão, esses que inventam um décimo quinto salário só para deixar claro que não prometem mudar no ano que vem, é quem acaba gozando com a masturbação. O nosso povo, apesar de tudo, é um povo alegre, vive na "Hora do Zeca.".
0 - Que os amigos e leitores, principalmente os meus dois, não se enganem. O ano que vem tem a cara de quem acabou de fazer uma plástica para ser – o que convenhamos, é impossível - diferente. Os ídolos, meus amigos, vão continuar com os mesmos pés de barro e os cus de hemorróidas. Não se enganem. É como bem lembrou um dia a Zezé Macedo, a Biscoito para os mais íntimos, o diabo é bonito, engana, tem a cara da Juliana Paes. E quem vê essa cara bonita esquece o belo rabo que ela esconde debaixo da saia. Por tudo isso, vou sempre preferir, mesmo que muitos assim não o desejem, o ano que passou. Esse eu conheço melhor, pois já passei por ele.
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Humberto de Almeida é escritor
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