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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 4 DE outubrO DE 2007

... E O NOSSO MANÉ FOGUETEIRO FOI MORAR NAS ESTRELAS

Ele era o nosso Mané Fogueteiro. Mas um Mané Fogueteiro diferente daquele outro da canção. Não era triste nem a sua história terminou de forma trágica. Porém, como aquele outro da canção, o São João era o seu dia festa, o maior e o mais feliz de todos. Fazia rodinhas. Soltava foguetes. Soltava balões.   E Lá da Vila, que não era a de Três Corações, como na canção, mas a dos Motoristas, onde nasceu este escriba, todos se deliciavam com aquele céu enfeitado. Casado com Dona Jacira, típica mulher sertaneja, destemida, dona da casa e do seu destino, enchera a casa de filhos. Eram cinco. Uma mulher apenas. Uma das mais bonitas da rua.

José Inocêncio de Carvalho, o Mané Fogueteiro de Jaguaribe, o mané de todos os meninos da Rua Senhor dos Passos, uma das poucas do bairro a manter, até hoje, o seu belo e original nome de batismo, era conhecido também por Zé Caretinha, apelido que surgira anos atrás, muitos anos mesmo, de autoria desconhecida, em conseqüência de um tique nervoso que trouxera da infância e que o fazia menear a cabeça para um lado, o direito, fechar os olhos e franzir o cenho, esboçando, sem querer, a mesma e estranha careta.

Nos dias que antecediam a festa de São João era raro encontrá-lo fazendo outra coisa que não fosse a confecção de lanternas em forma de estrelas multicoloridas, de quatro cinco ou seis pontas, para em seguida entregar aos meninos ávidos por uns trocados. Esses tinham destino certo: comprar fogos e, se desse ainda, a "roupa de São João".  Estrelas penduradas em quase todos os dedos das mãos, saíam em grupos, olhos brilhando, mais coloridos que estrelas que levavam, costurando as ruas do bairro.

As estrelas feitas por Seu Zé, para os meninos e toda a vizinhança, e Zé Caretinha para os "inimigos", apelido que para ele era a maior das ofensas, eram verdadeiras peças de arte. Fora um dos primeiros artistas do bairro de Jaguaribe, esse que mais tarde se tornaria uma referência pelos muitos artistas que daria. As suas estrelas beiravam a perfeição. Sabia escolher as cores como ninguém.  Um Volpi que trocou as bandeirinhas por estrelas. As cores básicas – ele nunca precisou experimentar outras -, distribuídas com maestria pelas pontas das estrelas, agradavam no primeiro olhar. O verde, o vermelho e o azul, girando nas pontas das estrelas, lembravam um caleidoscópio.   Era com essas cores que ele dava vida aquelas estrelas com alma de bambu, e enfeitava as nossas vidas.

Além das estrelas que fazia para vender e os fogos que expunha em um pequeno bazar, onde o balcão era feito com muro da casa modesta, ainda em pé, mas caindo de saudades, a fama de Zé Caretinha como "mentiroso e contador de histórias" ia além dos limites do seu bairro, e bairro daquele menino que via na terra as suas estrelas, e toda noite sonhava com elas caindo do céu.  Zé Caretinha tornou-se uma figura lendária como contador de causos. Muitas delas, porém, eram-lhes atribuídas sem que ele sequer tivesse ouvido falar. Era a lenda. E quando a lenda é mais interessante do que o fato, como sempre, publicava-se a lenda.
Entre as muitas histórias, uma que ficou famosa fora a do relógio que ele dissera ter perdido em uma de suas peregrinações à Praia da Penha – marca religiosa dos pessoenses - e somente vinte anos depois, despretensiosamente, mergulhando no Rio Cabelo, antigo e hoje soterrado rio que cruza a estrada que leva àquela praia, encontrou-o em perfeitas condições. Tudo certinho: hora, minuto, segundo, e calendário marcando o dia do feliz encontro com a precisão de um relógio suíço.   Era como se ele nunca tivesse saído do seu braço.

Ah, eram muitas as histórias contadas por Seu Zé, e outras mais ainda creditadas a ele. Histórias ingênuas. Nelas não havia nenhuma intenção de atingir esse ou aquele "inimigo". Ora, Seu Zé não tinha inimigo.  As histórias eram contadas como um bang-bang a que acabara de assistir.  Não perdia um só detalhe.  O cansaço do cavalo, a roupa empoeirada do mocinho, as esporas de prata e o chapéu que nunca caía de sua cabeça. Um narrador capaz de matar de inveja qualquer Orson Welles.

Era do tipo que ao ser flagrado numa mentira, sempre dava um jeitinho de encontrar uma razão à sua existência. Um macaco no alto-mar? Estava numa cerca que o amigo fizera para separar os seus peixes dos peixes do amigo. Um homem andando na lua sem equipamento próprio? Simples: respirava apenas por um pulmão. Tirava o ar de um pulmão e enchia o outro.  E assim, sucessivamente, não deixava de respirar nunca. Galinha botar três ovos por dia?   Não via nada demais, obtemperava,tinha dia que as suas galinhas só faziam descansar. Um ovo só?  Nem que fosse o maior dos desejos de Jacira, barriga de nove meses, as suas galinhas atendiam.

Volta à lembrança o Zé Caretinha das lanternas estreladas. Todas as manhãs, bem cedinho, dezenas de meninos esperavam a hora de pegar as suas. Seu Zé levantava cedo, e, pacientemente, ia atendendo um a um. Ficava tudo anotado.  Nome e a quantidade de estrelas; quantos foram vendidas na semana passada; quantas danificadas; quantas de quatro, cinco ou sei pontas.  E o retorno dos meninos quase sempre se dava à tardinha. Cansados, uns rostos mais alegres que os outros, braços cheios ou vazios, indicavam aqueles que tinham vendido mais ou menos estrelas. 

- Um de cada vez! Sem pressa! Vou atender a todos!  Cuidado com a lanterna! Essa aqui está furada!

O cuidado com a sua arte.  O cuidado com aquelas estrelas belas, belíssimas estrelas, lanternas coloridas que iluminaram o céu de nossas infâncias. Depois que Seu Zé se foi, parece que levou o São João debaixo do braço.  Depois de sua partida o São João do meu bairro nunca mais foi o mesmo. E até as fogueiras, imensas e belas línguas de fogo que engoliam a noite, desapareceram, viraram, antes da hora, cinzas do passado.   Não existem mais. O São João é uma careta do belo rosto que fora um dia.  Uma Caretinha que, sem o seu dono, perdeu a graça.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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