Gilberto e Gil: O Nascimento de Um Artista!
Nesses meus muitos anos de estrada, caminhos e poucos atalhos, amigos de muitos e mais amigo ainda deste escriba que sabe como poucos onde se encontra a fonte de palavras para matar a sua sede de escrita, conheci muita gente e - sem nenhuma modéstia - por muitos fui reconhecido como um bom sujeito. Dessa vez, porém, entre os sujeitos que conheci, músicos, escritores, poetas e artistas mil, plásticos e de carne e osso, abro este espaço para Gilberto José do Nascimento, o agora Gil de Rosa, filho de Dona Rosa e Seu Antonio, mais um paraibano que por necessidade foi morar em São Paulo, e lá continua trabalhado e fazendo música.
Lembro que conheci o Gilberto Nascimento – e Marta, também Nascimento, excelente cantora e boa compositora, hoje, esposa e parceira – ainda muito jovem, tanto quanto este escriba na época e anos antes do Gil de Rosa, esse ótimo nome artístico, poético, escolhido pelo mesmo para lançar o seu primeiro Cd solo, Puramente Misturado, por sugestão do saudoso compositor paraibano, Livardo Alves, autor da imortal Marcha da Cueca, para quem vai o mesmo dedicado.
Livardo Alves, o nosso João do Vale, autor da imortal – isso mesmo, IMORTAL! - Marcha da Cueca, aquela do "eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato", sempre lhe cobrara um nome artístico, e menos "terno e gravata". A cobrança considera ainda, segundo o meu – e dele - amigo compositor que foi morar em outra cidade há um bom tempo, que o Rosa da mãe era por excelência um belo jardim de poesia. E assim, depois de lançar dois Cds com a excelente Tribo Terra, banda composta pelo próprio, Marta, Carlão, Américo Ereno e Edinho, os Cds Do Jeito da Vida e Eu Plural, eis que o Gil de Rosa aparece (toca bem por aqui) com o seu "bem feito em casa" Puramente Misturado. Vale – e como vale! – ouvir uma vez e, para ouvir melhor, ouvir de novo.
Foi no Puramente Misturado que o poeta e cantor e músico de harmonizações bem construídas finalmente apareceu de corpo inteiro".

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Mas, somente depois dos cds gravados por Gilberto Nascimento, acompanhado – e bem – pela Tribo Terra, onde todos mostraram que na verdade formam uma banda, única, inteira (um banda um?), foi no Puramente Misturado que o poeta e cantor e músico de harmonizações bem construídas, voz no ponto certo, finalmente apareceu (ceram) de corpo inteiro. Lembro ainda que naquela época, nestas plagas nordestinas, entre um Anjo Branco, composição dele de do parceiro Dida Fialho – "vagando no espaço entre as estrelas/um anjo branco emergindo sobre mim" - e Pedaços da Minha Voz – "lá vem ela, a menina dos meus olhos, vem um pouco descontente/trazendo preso nos dentes/pedaços da minha voz" - a primeira, maior dos hits do extinto grupo Ave-Viola, se o poeta amadurecia, o músico engatinhava.
Em companhia de outros músicos e colegas do mesmo bairro, o da Torre, Carlinhos, hoje, professor de musica e inglês; Firmino, percussionista das grandes estrelas, entre as quais Alceu Valença, Ney Matogrosso, MPB 4, Lenine e outros, e o parceiro Dida Fialho, em plena atividade por estas terras, Gil, ou Gil de Rosa, como sempre fora conhecido, ainda estudante de engenharia, profissão, hoje, exercida em toda a sua plenitude, era apenas mais um garoto que gostava de cantar os Beatles, Alceu Valença, Ednardo, Zé Ramalho, pouco os Rolling Stones, e nada de "por incrível que pareça", o Roberto Carlos.
Gilberto Nascimento vai tangendo a vida e fazendo música".
A música, como sempre dissera, era – e ainda continua – sendo o alimento que lhe fortalece o corpo para, com os seus cálculos e competente forma de administrar usinas de álcool e musical, sobreviver para fazer música. Ou o contrário: sobreviver para fazer música. Antes mesmo do Ave-Viola, grupo que pegava carona nas harmonias e ritmos e letras – até elas! – do Pessoal do Ceará, aquele mesmo do Ednardo, Belchior, Fagner, e estourar como seu show Concerto em Dor Maior – Fuga Para Metrocantópolis (cidade do canto maior), em 1976, Gilberto Nascimento já era considerado a alma musical e poética do grupo. Isto mesmo. Guardados os limites, era o que representava Ney Matogrosso para os Secos e Molhados; Lennon (apesar da genialidade do Paul) para os Beatles, e Mick Jagger para os Rolling Stones.
Nos poucos dias que ficou em cartaz, apenas dois, Concerto em Dor Maior serviu para mostrar que a performance artística do filho de Seu Antonio e Dona Rosa – era, como todos em cena, mais andarilho em busca dd uma terra a ser conquistada, nunca prometida - seguiria com o engenheiro mecânico, recém formado pela Universidade federal da Paraíba, em sua mala cheia de ilusões, com destino à Paulicéia Desvairada. O show apresentava músicas como a indefectível Anjo Branco, na voz de Marta Nascimento, convidada especial, voz que já se anunciava como uma da mais bonitas da nossa MPB; Menino da Beira-Rio, Minha Viola, Pedaços da Minha Voz e outras que, segundo o próprio, merecem novas leituras em um Cd somente delas.
Hoje, morando e trabalhando e vivendo em Barra Bonita, interior de São Paulo, acompanhado em todos os sentidos pela esposa Martha Nascimento (lançou, recentemente, Tom Cigano, Cd solo, enquanto prepara a Terra para a tribo), os filhos Purunga (percussionista e artista plástico) e Andréia (vocalista), Gilberto Nascimento vai tangendo a vida e fazendo música. Algumas vezes, só, violão afinado e flauta (doce) no descanso, mostrando toda sua versatilidade em harmonias bem elaboradas e letras essencialmente poéticas, focadas em temas atuais e históricos; outras, em companhia da Tribo Terra, banda formada em 1989, com a qual vem se apresentando em teatros, centros, bares e lugares outros onde todo o artista deve se apresentar.
Em quase três décadas de São Paulo, Gilberto Nascimento, Gil de Rosa faz questão de lembrar que, se nunca esqueceu a profissão de engenheiro, hoje, ocupando como tal um cargo (Usina da Barra) que exige quase todo o seu tempo, também não esqueceu de fazer da música. Já classificou e defendeu várias de suas músicas em importantes festivais de música nesse Brasil de mães pretas que pais joãos. Cita, como exemplo, Xoteblue pra Desmaterializar (Gilberto Nascimento e Américo Ereno); inspirada na Bienal da Arte (A Desmaterialização da Arte no Final do Milênio); Campo de Girassóis (Gilberto Nascimento e Américo Ereno), finalista do Mapa Cultural Paulista de 1998; Fogueira (Gilberto Nascimento e Américo Ereno), dedicada ao índio pataxó Galdino, aquele que virou churrasco de branco, em Brasília, classificada no Festival de Música Ecológica de Santa Bárbara do Oeste; O Vaqueiro e o Violeiro (Gilberto Nascimento e Américo Ereno), classificada no Festival de Música Brasileira da TV Globo de 2000, entre outras.
P.S: vale a pena, via Internet ou pedindo pela mesma o cd, ouvir o trabalho do Gil de Rosa (Gilberto) e Nascimento. Simples: acessem o Gilberto Nascimento – Palco MP3, ou, triboterra.com. O bom gosto agradece.
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*Humberto de Almeida é escritor.
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