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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 13 de SETEMBRO DE 2007

Voar Não é Só Com os Pássaros!

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir. Sentir tudo de todas as maneiras   – Álvaro Campos 


Vez em quando esqueço os meus amigos, os meus discos, os meus livros e nada mais, e saio por aí mudando os móveis da sala do corpo. Semana passada, depois de um bom tempo, fiz tudo isso aí.  Não tinha como meta aquela que o goleiro, segundo o Gilberto Gil, busca quando quer jogar na seleção. A perfeição.  Lá no fundo, porém, bem no fundo onde os olhos não vêem e o pensamento faz a curva, só tinha uma certeza: depois de vinte e dois anos, como bem lembrara a minha doce sobrinha, voltaria ao Norte do país.

Passaria, também, como sempre passei nessas vezes do vez em quando, pela sem cheiro cidade de Brasília. Pausa. Acho Brasília, cara do Darcy Ribeiro, tão insossa quanto as músicas, qualquer uma, cantada pelo Orlando Morais, aquele que pensa que canta. Se eu dissesse que Brasília, além de insossa, também não tem cheiro, estaria mentindo.   Ou melhor: Brasília, com as desculpas dos poucos colegas que nela moram, como se diz por aqui, fede. Há fedor em toda parte. Seu ar e ares são poluídos. Decisivamente, não gosto de Brasília.

Tudo começou por aqui. Tomei o avião no Recife e, pelo que senti durante toda a viagem, desconfio que ele não desceu garganta abaixo. Ainda está aqui.  Ficou como aquele comprimido que o sujeito toma no seco e permanece com ele por todo o dia, pedra no caminho do estômago, por mais litros de água que se arvore a beber. Talvez o medo de avião, talvez. Falta de freio ou excesso de velocidade. Voar, depois que um desses pássaros de aço vomitou todas aquelas pessoas em Congonhas, parece mesmo ser apenas um dom dos pássaros.

Mas, se no parágrafo aí de cima eu disse tomei o avião, foi simplesmente porque se dissesse tomei a "aeronave", como eles dizem e tomam por lá, estaria sendo mais piloto que passageiro. Sendo falso no escrever, ser e estar.  Por aqui é "peguei" mesmo. E assim, durante as três horas marcadas no relógio da mente e ratificadas pelo o do pulso, se tomei o avião na partida, comi o pão que o diabo amassou até a sua chegada, no aeroporto de Brasília.

Não levei nada no bolso ou nas mãos. Ou melhor, no bolso, apenas a carteira de identidade para lembrar que não sou apenas um número.  Dentro da mala, entre poucas roupas e menos ainda ilusões, que depois de marcada e remarcada e amassada foi atirada na barriga do pássaro, um livro, apenas um, Flores do Mal, do Baudelaire.

Haja preguiça. Por pura preguiça, o pensamento na viagem, confesso que nem uma vez, contrariando o que sempre faço, passei a vista por ele. A cabeça, literalmente, estava nas nuvens.  Tinha mais. Sempre gostei de viajar nas asas da imaginação. E, agora, voando de verdade, não queria perder um só pouquinho da história desse vôo.

O vôo, diferente das armadilhas desse olhar cheio de nuvens, parecia cego. De uma coisa, porém, tinha certeza: se não houvesse excesso de velocidade e, na hora exata, a falta de freio, como ocorreu com aquele outro pássaro que pousou no ninho de Congonhas, em três horas, como de fato ocorreu, estaria em Brasília, essa que o Ednardo, mais inspirado que o Alceu Valença que repete exaustivamente que dela vai morrer de saudade, homenageou com a sua bela "Serenata pra Brazilha".  Assim mesmo, com o bem pensado "z" no lugar devido – e pago – do subserviente "s".

Enquanto o pássaro de aço, movido a turbina, engole ar e fura nuvens com seu bico brilhante, penso na viagem.  Penso em Deus. E, enquanto isso, o meu olhar, agora encompridado, passa pelos bancos de nuvens. Continuo pensando.  Ele deve morar por aqui. Tudo no céu deve ser assim.  Bancos de nuvens e pedras de fumaça. Brinco. Deve ser uma maravilha viver por aqui. A casa Dele, realmente, tem muitas moradas. Imagino a minha. Que tal naquela nuvem?!  Nesse momento, um riso cínico rasga-me o canto da boca e quase digo que o meu mundo não é feito de terra, fogo, água e ar. De nuvens, talvez, de nuvens.

Na telinha tamanho de caixa de sapato de bebê, solta pela comandante da nave, ou melhor, da aeronave, ou melhor ainda, do avião, televisor sem graça, pílula colorida para os nervos, assisto a um velho capítulo das Expedições da Paula Saldanha. O "paraíso tropical" de Fernando de Noronha enche-me o saco e esvazia-me a alma.    E o Inferno na Torre? A lembrança do 11 de setembro? Nem pensar!  E o Jornal Nacional com o Bonner empostando ainda mais a voz e anunciando que a culpa pelo acidente de Congonhas, uma vez que não encontraram nenhum mordomo entre os mortos, foi o piloto? Vade retro!

O vôo, segundo sou informado por uma voz que parece sair de dentro de uma lata, não tem nada de cego. Em poucos minutos, segundo a mesma voz "latal", estaremos na cidade de Brasília, “Cidade-Avião, Aero-Planta do Alti-Plano do chão, Cidade-Planeta, desaguar de viajantes, Espaço-Porto, e Cosmo-Visão".

Depois, a cabeça cheia de nuvens – belo pensamento! – vai se espalhar pelas águas do Urupá e Machado, rios que banham a cidade de Ji-Paraná, onde estão os meus e, onde ainda, um dos meus voltou ao pó.

Brasília está a poucos minutos. Notícia melhor não esperava. Brasília está - brinco - onde sempre esteve, no planalto central de um país que, por viver na ponta, nunca vai ser produto do meio em que vivo.  Olhares cúmplices se encontram no balançar do avião. Ele, agora, parece um cavalo xucro, carro velho subindo ladeira mais furada que tábua de pirulitos. A poesia me foge e, sem querer, numa viagem que parece não ter mais fim, lembro dos meus poetas.

O Mário Quintana, menino de aquário, costumava dizer que viajar era mudar o cenário da nossa solidão. Estaria acontecendo comigo?! Não acho. Divido a minha solidão, como divido o meu silêncio.

Não me sinto solitário.  Não me sinto assim nesse momento. Lembro que o Anatole France, insistentemente, perguntava se viajar era “mudar de lugar”, para, logo, concluir em seguida: ”viajar é mudar de ilusões e conceitos.”

Não mudei nada. Estamos em Brasília. Eu sou o mesmo. E, agora, pés no chão, descubro que mudar nunca hei de.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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