Quem Encontrar Uma Memória Perdida, Esqueça!
Ela chegou com aquele ar de quem estava ainda no caminho. Longe, aérea, muito longe, cabeça nas nuvens e pés no azul do céu. De cabeça para baixo. Via tudo ao contrário. Mas ao invés de olhar para fora, era para dentro que os seus olhos olhavam. Vazia de tudo. A beleza interior – continuo até agora desconfiado - recebera uma tinta estranha. Só mais tarde descobriria que pintara o bem querido com uma tinta própria para paredes externas.
Entre muitas, muitas mesmo, uma coisa que gostaria de ver naquele momento era como o seu coração, cheio de razão, a sua própria razão desconhecia. Olhava para dentro e se via vermelha como um pano de toureiro. Via, e ficava por fora. Sofria porque não conseguia se ver no lado de dentro. Sofria. Sentia. O sangue se esforçava para passar mais rápido pelas veias. Vias. Mas, apesar de todo esforço, pedras represavam o seu caminho. Uma pressão que lhe deixava ainda mais aérea.
Muitas vezes perdia a memória, botava nos classificados e esquecia de olhar o jornal. Dessa vez foi precavida: "Quem encontrar por aí uma memória perdida, esqueça". Sempre assim. Dizia uma coisa, comia outra e, quando menos esperava, estava sendo comida. Outro dia, pensando ter comido carne de porco, uma carne que não sei por que ela chamava de "carregada", não dormiu. Tinha medo de amanhecer numa pocilga.
E ficou ali, olhos voltados para dentro, procurando o que esperava não encontrar. Tudo vermelho e sem bolinhas brancas. Pensou. Mas por que essa procura insensata pelas bolinhas brancas? Não sabia. Pensou por pensar. Outro dia, lembrou, lavou o rosto com o pano assim, cheio de bolinhas brancas, mas todo vermelho. Nunca soube o que representavam essas bolinhas. Talvez naftalinas, talvez. O vermelho, somente depois, três dias depois, descobriu - era do boi. Ou melhor, o pano pertencia ao vizinho, que, nas horas vagas, gostava de tourear.
Senti a sua falta quando ela, não por gosto seu, mas da mãe, mudou-se para uma outra cidade. Tudo mudou. As minhas homenagens a Onan, sem aquela saiazinha tamanho de nada com nada debaixo dela, ou melhor, com tudo, livre como o mais belo dos passarinhos, diminuíram. Tinha então que apelar para a memória. Se tudo era original e mais gostoso, às vezes, quando a memória cheia de "pensamentos maus" falhava, socorria-me de velhas páginas da Playboy, que traziam a Cláudia Ohana mostrando o seu amor à natureza. Uma mata atlântica que, até hoje, nunca vi igual. Saudades.
Agora ela estava ali, cabeça nas nuvens, e eu com a minha no céu, cabeças cheias de sonhos e recordações, saboreando o bem que a ausência de uma calcinha traz. Ah, bons tempos aqueles! A saia cobria-lhe todo o rosto, deixando à mostra apenas o caminho de onde todos nós viemos um dia. Tu és pó, e ao pó voltarás. Disse-me um dia. Mas a prova estava ali. Todo o meu desejo era o de entrar por onde saí. Era uma sexta-feira vinte e dois de outubro. Lembram para mim. Se não foi por bem, por mal não foi. Um momento. Alguém bate na minha porta. Aberta, entro, e fecho-a dentro de mim.
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*Humberto de Almeida é escritor.
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