O Meu Cachorro Roth para Ministro da Cultura!
A morena manda emai-l lá do Recife, perguntando como é que este escriba tem visto as notícias sobre os cães brasileiros – ela insiste no "brasileiros" - e os seus inesperados ataques. Surpresa? Confesso que nem uma. E para que ela não me perguntasse em seguida o porquê dessa minha naturalidade em saber dos ataques dos sujeitos desse quilate, acrescento, lembrando que o meu velho pai sempre me alertara para o fato de ninguém nunca deveria esperar um beijo de um cavalo, mas um coice. Ou, mais bonito, continuava, esperar um coice de um beija-flor.
Lá do Recife, onde se encontra, a Morena pergunta – aprendeu, depois de muitas respostas, a perguntar - como andam as coisas por aqui. E segue em frente. Sem esquecer o ataque da cachorrada aos donos dos mesmos e outros sem um pau sequer para dar nos cachorros e nos seus irresponsáveis donos, pergunta também sobre a vida que leva o meu cachorro Roth, aquele que o Aldo Lopes de Araújo, o maior contista destas plagas e autor do excelente romance O Dia dos Cachorros, emailizou (sic) um dia elogiando o seu bom-humor e perspicácia, nessa minha curta – estamos curtindo – ausência.
Um dia, aqui neste mesmo espaço, se a memória traidora não me prega mais uma das suas, falei que tenho um cachorro batizado de Roth, em homenagem a sua raça (rotwailer), que há muito cultua – assim mesmo – a alegre mania de só assistir ao Jornal Nacional fantasiado de palhaço. Faz um bom tempo que ele descobriu esse outro lazer cada dia mais inculto e feio. E fã declarado do Magri, o ex-imexível, todas às vezes que reclamo dessa sua cachorrada, ele me olha pelo canto do olho e pede respeito: "cachorro também é um ser humano". Dizer – ou latir, vejam lá – o quê?
Ao ouvir aquela musiquinha idiota e alienante que o rato televisivo e sempre mal vestido transformou em atração na TV do Sílvio Santos, atração lá pras ratas dele, Roth deixa de lado os seus livros, discos, amigos e tudo mais, se aboleta no seu estofado preferido, ajeita o nariz de palhaço – tem por ele um cuidado extremo! – e são tantos os risos que parece estar assistindo ao replay das melhores piadas do Casseta & Planeta, dos bons tempos do Bussunda.
A morena insiste na tecla: quer saber a opinião deste escriba sobre a cachorrada que assola o país. Ela, conhecendo-a como a conheço, fala "cachorrada" no mais amplo e verdadeiro dos sentidos. A cachorrada geral. Por aqui mesmo, no caminho e a caminho do Amazonas, o rio, são muitas as notícias pescadas nos jornais, sobre cães que atacam os donos, os donos de outros cães e filhos dos donos. Um Pitbul arranca a cabeça de criança e prova que é o mais forte entre os amigos de raça. Outro cão, encontro a notícia em outro, invade Igreja Universal e pastor manda o tinhoso par o inferno.
Leio as notícias e penso na distância que me separa dos meus e, entre eles, o meu cachorro Roth. Os meus, mais que ele, costumo carregar por essas plagas que ano sim, ano não, os meus pés pisam, mas, como o navio nas águas da minha Tambaú, não deixam marcas.
Roth, embora não seja apenas uma fotografia na parede, vez em quando, sorrindo latindo, responde presente nas aulas da minha solidão. Lembro dele, sem esquecer que o Renan Calheiros, como dizem por aí, principalmente a revista Veja e a Rede Globo, há muito não passa de um "cachorro morto". Então, por que não o Roth para substituí-lo?
Se um dos meus dois leitores acha que é feio pra cachorro uma substituição dessas, lembro - por onde ando, as lembranças andam comigo, sem forçar a barra, instigando-me a não esquecer minha história – que em tempos outros um cavalo foi "eleito indiretamente" para um Senado e deu conta do recado, Mostrou que era melhor do que muitos "seres humanos". A história está aí para não dizer que estou mentindo. Concordo, Incitatus seria um bom nome. Mas na falta de um eqüino tão bom quanto um sujeito desse quilate, isto é, do quilate do meu cachorro Roth, a idéia pega bem.
Quando já arrumava as minhas malas e preparava os pés e o espírito para retornar a caminhada, principalmente com os pés, eis que os meus olhos pescam na revista exposta a um sol de quase quarenta graus que me enche mais de alegria que de preguiça, que o Frank Aguiar, o Cãozinho dos Teclados, é candidato à vaga do dengoso Gilberto Gil. Ele, abusado de conduzir a cultura lulista, vai voltar aos seus berimbaus e afoxes. Se Roth não for um melhor Ministro, eu lato, tu lates, e eles, com certeza, latirão. Haja cachorrada, Morena!
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*Humberto de Almeida é escritor.
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