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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 23 DE AGOSTO DE 2007

Dapenha Escreve na Parede da Memória Ji-Paranaense



O poeta Mario Quintana costumava dizer que viajar é mudar o cenário da solidão.   Outro, o José Vasconcelos, modelo de humorista da velha guarda, com piadas, sem exceção, todas com a famosa cara de dèja vu, se não falava em mudança de solidão, dizia que viajar de navio era uma beleza. E vinha com aquela história do joga, joga, joga. No grande finale, como era esperado, dizia que para quem gostava de jogo era um verdadeiro cassino.  

Estou de passagem. Tudo, sem cair naquele lugar comum do motorista e trocador, é passageiro. Nessa viagem, porém, esperando que a vida passe sem que eu passe rapidamente por ela, fui aportar - onde, até agora, me encontro – numa cidadezinha verdinha de dá gosto, apesar de algumas insistentes queimadas, plantada no coração da Amazônia. Uma cidadezinha que tem a forma de coração, Ji-Paraná. Trocando em miúdos: estou na cidade de Ji - machado + Paraná – Rio Grande. Mais trocado? Rio grande cheio de pequenos machados.  

O sol por aqui, como diria a minha mãe Chiquinha, está pela hora da morte. Muitos, talvez, não captem a imagem. Mas conhecendo Dona Chiquinha como eu conhecia, e mesmo depois de ela ter mudado para oura cidade continuo conhecendo, a imagem me pega como uma bola de fogo descendo a mil em direção a minha cabeça. Pois foi nesse sol queimando que faz gosto que encontrei, onde reside há quase 30 anos, o escritor e jornalista e quase músico José Dapenha, ou, como é chamado por todos, Dr. Dapenha.

Dapenha é um advogado que deu certo em Ji-Paraná. Tão certo, que, hoje, trinta anos depois, tão conhecido se tornara, se alguém abrisse uma casa de comércio perto de sua casa, nada mais fácil para o interessado saber onde ficava. Bastava, por exemplo, anunciar que a "casa fica ali, pertinho e fácil de encontrar! Pertinho da casa do Dr. Dapenha!". A casa, com certeza, poucos saberiam. Mas a casa do Dr. Dapenha era tiro e queda!  Referência melhor não encontraria.

Encontro o Dapenha com as suas ações cíveis, criminais e trabalhistas.   Mas, como profissional, também, da palavra escrita, ensaiando um próximo livro sobre coisas e causos e pessoas da terra que ele, sem medo de ser feliz, diz ter adotado e, para sua felicidade, adotado por ela.  Nela, em Ji-Paraná, diz que conquistou o que nunca teria conquistado em sua terra natal, Paraíba, que costuma chamar de madrasta. Se não bastasse a substituta da mãe, nunca esquecer de acrescentar o "ruim". Madrasta ruim, pois, nem toda madrasta faz da sua Gata a Borralheira.  Ji-Paraná, pelo que deixa transparecer, se não é a terra prometida, sem viver de promessas, soube fazer a vida, a boa vida que leva.  Tudo sem abrir mão nem um pouquinho dessa dignidade que trouxe na mala, ao despedir-se da terra dos pais.

Em Ji-paraná escreveu três livros de crônicas, enfocando, como sempre, pessoas e coisas e causos do lugar.  O primeiro, Tudo X-Caçarola, uma expressão sua e que hoje, como um bom apelido, ganhou o mundo, significando "tudo legal"; Recados da Província, uma seqüência do primeiro, e, mais recentemente, Parede Memória, que, para não perder o bonde das histórias ji-parananeses, segue a mesma linha.

Nesse último, Parede de Memória, Dapenha, sem quaisquer pretensões de fazer uma literatura que venha a servir um dia de "leitura para vestibular" faz questão de esclarecer que tem o “hábito – traz esse da terra natal onde trabalhou por um bom tempo, como jornalista, editando, inclusive, o Diário do Agreste (PE) - de “registrar fatos e coisas que envolvem esta doce cidade – a de Ji-paraná -, segue a linha dos anteriores".

Para mostrar ainda mais a sua despretensão de ser chamado de "escritor sério", acrescenta que "tudo é levada ao leitor de forma hilária e descontraída." Encerra, sabendo que nesses registros está contribuindo para a história dessa cidade e fazendo a própria história entrar - pela porta da frente - da história de Ji-Paraná:". Observando-se tão-somente a ordem cronológica dos acontecimentos".

No seu Parede de Memória encontro boas observações musicais e literárias que o escritor, esquecendo um pouco o Rio Machado, esse em que muitas vezes as margens plácidas do dito cujo tangeu para bem longe a solidão, embalado no sonoro violão, apenas uma rima, conseguiu pescar. No Hino Nacional diz ter encontrado – e prova – mais cacófatos que nos famosos forrós de sua terra, compostos com esse propósito, pelo João Gonçalves, o Severina Xique-Xique

"Quando o Joaquim e o Francisco – escreve ele, em crônicas assim, todas "intimas" dos personagens – acharam de compor o seu mais famoso – e único! – sucesso, intitulado de Hino Nacional, nem de longe imaginariam que iriam criar uma das mais ilustres cacofonias musicais. O seu "Dos filhos deste, solo és mãe gentil", parece mais uma homenagem ao Solimões (solo és mãe), afluente da margem esquerda do rio Amazonas". Embora a letra tenha sido do Joaquim, o Francisco também pagou o pato.

As suas crônicas, como faz questão de ressaltar, são escritas no embalo da correnteza macia e sonora dos rios onde costuma passar os fins de semana. Todo dia, diz sorridente, os rios não os mesmos e o escritor, o Dapenha, nem de longe é aquele mesmo que chegou nesta cidade com a mala cheia de ilusões.

Os seus personagens têm vida e um vocabulário somente deles.  Qual, por exemplo, o mortal capaz de entender uma frase como "Contudo, ao perpassar do voluntabro cósmico, as virulências simbólicas e agrades criptas do vulpino vanda lar dos ciciares esléos. E vê-se nas rutilâncias macracocos e aspiraquetas que penetram visceramentos laquesianos. É justo, pois, abo mear o mac orado? Nem um.

Ji-Paraná é apenas uma passagem. Estou passando. Aqui e alhures, mesmo que não procure, vou me encontrando em cada esquina e, como sempre, voltando sozinho à terra, a minha, que me espera. Outros Dapenha, mesmo sem querer, vou encontrar por aí, no coração de outras cidades. Esse, porém, no coração ji-paranaense, cheio de histórias (ainda) para contar, por saber cantar como poucos esse quintal de mato verde, vai sendo por muitos entendidos e, por isso mesmo, universalizando-se. Até a próxima parada.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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