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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 16 DE AGOSTO DE 2007

MeninosTanajuras Numa Sinfonia de Pardais

Depois da chuva veio a tarde com o seu ar de cansaço vespertino (êpa!).   Já era quase noite. O dia se despedia.  Sonolento. Câmara lenta. Lá fora um enorme terreno baldio, com duas imensas castanholas, troncos enormes, fortificados pelos muitos anos de crescimento e de história, emprestam, sem nada pedir, suas sombras aos que chegam por ali. Nos galhos, braços abertos, pardais em sinfonia, todas as tardes, chegam para descansar os seus vôos, sem hora e dia marcados.

As chuvas trazem as tanajuras e, com elas, a alegria de Rafael e Carla.  O menino é o mais velho. Tem sete ou oito anos. Ela, magrinha, dentes recém trocados, tem os cabelos lisos, muito lisos, e muito pretos. Brilham, assim como os de Rafael. Enquanto ele fala pelos cotovelos e joelhos e artelhos, rimas, mas não lhe trazem qualquer solução. Em síntese, se ele fala por todo o corpo, ela quase nada fala.  Não percebem a minha presença. As Tanajuras que sobem e caem em rodopios, aprisionam os seus olhares grávidos de desejo.

Os gritos de "cai, cai, tanajura, que é tempo de gordura!", soam uníssonos.  Eles não cantam, gritam.  Mas essas vozes infantis têm melodia.  Da minha janela, então, percebo que os seus olhos, presos nas formigas voadoras, levam os seus corpos franzinos para o espaço. Nas mãos pequenas e sujas, sujas e pequenas latas, onde guardam os tesouros caídos do céu, estão pela metade.  É "tempo de gordura!", acrescenta Rafael aos seus gritos de "cai, cai, tanajura”, de Carla.

Somente depois de todos esses parágrafos aí de cima, o meu silêncio e o olhar, este, prisioneiro dos seus, percebem a minha presença no seu universo de sonhos de asas.  Os pés, porém, continuam batendo forte de um lado do formigueiro, ali, debaixo da castanhola mais nova, dez anos, mais ou menos, enquanto as tanajuras vão desocupando os seus quartos e salas e terraços, saindo às tontas, e ensaiando um vôo que não conseguem.

Aproximo-me dos "caçadores" e pergunto o motivo de tanta alegria e da brincadeira, com a despedida da chuva e a chegada dos insetos. "Eu gosto!". Responde-me Carla, sem tirar os olhos de uma tanajurinha que passeia, agora, pelo fundo de uma lata de óleo Salada. "Eu brinco com elas e depois como!". Brincar com elas, como? Claro que entendi, mas procurei tirar um pouco mais.  "Eu como! A gente pega e leva pra casa pra comer!"

Somente agora Rafael percebe que Carla está falando comigo. Se disse "falando", é porque para quem nada fala, como é o seu caso, dizer as frases do parágrafo aí de cima é um discurso do Fidel Castro. "Eu também pego pra comer!". Rafael não se faz de rogado, e entra no papo com uma fome voraz de conversa. "A agente pega e leva pra casa! Lá a mãe da gente prepara, e a gente come". E é gostoso? "É...".

O "é" reticente me deixa em dúvidas. Insisto, e pergunto o gosto. Ele responde que "tem gosto de tanajura!". Fico na mesma. Como seria o gosto de tanajura? Penso no perfil de uma delas: "E aí, tanajura, fale-me do seu gosto. De que você gosta?" Brinco.  Volto-me para Rafael, e insisto: "vocês comem o quê da tanajura?" - "A bunda dela!".

E para que não paire no ar nem uma dúvida sobre esse "comer a bunda" aí, peço que mostre como come (gostaram?) a bunda dela (belo cacófato, 1 berto!).  Ele, agora mais falastrão, "olhos professorais", separa do corpo magro do inseto a parte traseira, a comestível, como mostra ao vivo, da parte não comestível, cabeça, tronco e membros, isto considerando que a bunda não faz parte do tronco, e, ato contínuo, atira-a goela adentro.

Cenho cerzido, olhos fechados, engulo seco. É a carne deles, a proteína, a "sustança", como lhe diz a mãe.  "Prefere tanajura ou um filé, Rafael”? E ele, em sua inocência, vira pro meu lado os seus olhos pintados de noite, e reponde com outra pergunta? "O que é filé?”.  "É carne". Me olha, avalia, e, talvez por desconhecer o que venha a ser esta tal de carne, vem mais sucinto do que espero: "Prefiro tanajura!".

Nos braços das castanholas, redes a balançar, os pardais dormem.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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