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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 2 DE AGOSTO DE 2007

Mamãe eu fui à Cuba e não vi o Fidel Castro por lá!

A revolução de Fidel foi a revolução do ódio, da vingança e das vítimas." (Papa João Paulo II)

Editoria de arte

Naquele momento, entre o tanto faz como tanto fez e o deseja ir embora, “boa viagem!”, estava lembrando a “fuga” dos cubanos cheios de medalhas nos bolsos e malas de supérfluos que eles, chegando a ilha cantada em versos e prosas por aqueles que na ilha estiveram apenas de passeio, transformarão em conquistas valiosas do mundo capitalista. Lembrava ainda a frase do bom jogador de vôlei, o Paviel Pimenta, cubano modelo, que disse não ter recebido da Ilha nenhuma ameaça para deixar o Rio de Janeiro, ainda no meio do Pan, para retornar à pátria. Estava era mesmo, segundo o próprio, “morrendo de saudades de Cuba”.

Nessa parte ele chegou.  Ouviu as minhas considerações, breves, mínimas e semínimas, algumas, para ele, confusas, mas nada disse. Falei ainda dos muitos presos políticos existentes na Ilha, que ele diria mais tarde ser “apenas” do Fidel, e que era contra todo e qualquer tipo de ditadura. Ele, numa quase posição de sentido, continuava poste sem a luz da imaginação. Mas depois de um bom tempo, aproveitou o espaço das minhas considerações gerais, e, com aquele ar de quem acampou de ganhar uma maratona, revelou: acabava de chegar da Ilha de Fidel!  Assim mesmo: Ilha de Fidel. Não foi preciso dizer que usou maiúscula na ilha, todos sentiram. E desandou a contar a sua história.

Em nenhum momento insinuou que ir à Cuba e não ver Fidel Castro era a mesma coisa que ir à Roma e não ver o Papa. Mas disse que sempre sonhou em conhecer aquela Ilha antes da morte – não acrescentou “ou da queda” - do Ditador. Uma curiosidade normal. Igual aquela do Chico Buarque, Ferreira Gullar, Frei Betto e Fernando Morais - acrescentou como se ninguém ali soubesse -, aquele mesmo que escreveu um livro que ficou famoso por falar por estas bandas das coisas que poucas pessoas sabiam das bandas de lá. .

Em Cuba, assim como milhares de europeus e latino americanos com um bom dinheiro no bolso, era apenas mais um turista.  E foi como turista que pagou “os olhos da cara” para ver a Ilha nos tempos de Fidel. Uma cerveja por dois dólares e meio; uma apresentação de uma atração local, acrescido de “cena”, como fez questão de confessar entre aspas e vocês estão lendo, palavra que por lá significa “jantar” e ele todo inocente pensava tratar-se de “show”, desembolsou quase cento e vinte e cinco dólares.

Nada falou da chegada no famoso aeroporto José Martí. Nas fotos captadas pelo olhar fotográfico de turista a impressão que ficou, depois daquelas minhas inesquecíveis do Paulo Maluf e do juiz Lalau na ficha policial, foi a de que uma Tsunami acabava de passar por ali. A Ilha parece um amontoado de coisas velhas. Numa das fotos, cubanos mal vestidos e aspectos de quem acabara de chegar de uma guerra de farrapos, disputam espaço em uma barraquinha típica de mercado público, todos em pé, comendo às pressas, por medo talvez de perder o bonde da história.  A escassez de comida não é somente sentida, mas visível. Em Cuba, percebe-se logo na primeira olhada na fotografia do turista, que, se falta muita coisa, sobra dignidade (pra que mentir?).

A seleção de fotos é boa de se ver. Não é um “artista fotográfico”, ressalta. Para provar o que afirma, mostra outras fotos desfocadas e ângulos sem nenhum estudo prévio do que iria captar. A prostituição, ressalta, é vista por toda parte, mesmo dentro das igrejas. Insinuações de belas cubanas oferecendo-se aos turistas que chegam, apesar de discretas, são perceptíveis.

Em nenhum momento lembrou que no meio de todo aquele cenário de “prostitutas, bêbedos e equilibristas”, Cuba, apesar de Fidel et caterva, ainda é um país com os menores índices de analfabetismo e subnutrição do mundo. É estranho, mesmo. A Ilha de Fidel – ele diz que a Ilha nunca foi dele, mas do Partido, o Partidão – produz medicamentos de primeiro mundo e detêm tecnologia própria. E todos sabem – provaram no Pan - que é de Cuba de onde vêm os grandes campões olímpicos.  Isto, com certeza, ele sabe. Mas, como turista, faz questão de continuar mostrando Cuba como os seus “olhos de primeira vez”.

Foi enfático na questão da pobreza. Mendigos? Muitos.  No centro de Havana Velha um velho cubano, pedinte, chamou-o a um canto, olhou para os lados, só desconfiança e medo, e mostrou-lhe a “boca de jacaré” do surrado sapato. Mendigos, pelo menos na Velha Havana, encontrou.  Favelas, porém, não.  O mais próximo do que chamamos de favela por aqui e que avistou - fala sem dar atenção ao que fala - foi um velho edifício com cara de abandono, sobre pilotis, parecido com aquele Edifício Chamado 200 do nosso Paulo Pontes.

O hotel em que ficara pertencia ao Governo. Ou ao partido, como retificavam os cubanos. A disputa por passageiros nas portas dos hotéis pelos motoristas de táxis, muitos conduzindo velhos e já históricos “rabos de peixe”, outros naqueles “belos” Plymouth, era acirrada. Faz uma boa comparação quando lembra um antigo dono de frota de táxi, morador do nosso bairro de Jaguaribe, apelidado de João da Farinha: “Igual aquele sistema. Quem pegar mais passageiros, ganha mais, e, ganhando mais, vai poder pagar com mais tranqüilidade o dono do táxi”.  No caso de Cuba, acrescenta, o dono do táxi é o Partido.

Insiste em lembrar a disputa nas portas dos hotéis. São valetes, carregadores de malas, auxiliares de serviços gerais e muitos motoristas de "côco táxis", uma velha motocicleta adaptada para virar triciclo, com capacidade para transportar duas pessoas. Observo que, pintadas em cores fortes, verde e amarela, lembram de imediato a camisa da seleção brasileira.

A forma, como ele mostrara em seguida, lembra mesmo a de um coco. É feio. Muito feio. Lembra ainda uma tartaruga. Até na aparência de preguiça. Explica, todo professoral, que esses trabalhadores informais, ou quase, trafegando entre os dólares que chegam e os que ficam, ganham mais do que muitos profissionais, todos formados, com anos e anos de estudo. Não quis cortar-lhe as asas. Ele, como o nosso Pedro Álvares Cabral agora, posa de descobridor da Ilha de Fidel. Deixo-o, então, continuar o seu vôo.

Os cubanos, através das notícias – “são filtradas”, ressalta, como se estivesse fazendo a maior das revelações – veiculadas pela televisão cubana, não estão nada gostando das embrulhadas em que se mete o Governo Lula. Não esperavam, confessam em voz-baixa, que ele fosse decepcioná-los. Mas, o comentário fica por aí, pois, em Cuba, o clima ainda continua aquele do “não estou sabendo, vendo, nem falando nada”. Lembro do Dirceu e do Lula, que, tendo Dirceu morando ao seu lado, Lula nada sobre o Dirceu sabia.

O turismo é a mola mestra de Cuba, diz, mais uma vez, como se na sala ninguém soubesse. Nem mesmo a cana de açúcar, mais importante fonte de renda da Ilha – “parece que a gente está passeando por aqueles partidos de cana tão característicos de nossa região!” - tem arrecadado tantas divisas. Um dólar, para a sua surpresa, vale menos que um peso cubano. Uma valorização “artificial”, acrescenta, pois sente o peso tão valorizado assim.  Não discuto o porquê dessa “artificialidade”.  Continuo olhando o seu álbum particular.

As fotos vão surgindo na tela do computador e ele, como um guia visual, vai destacando o que mais lhe chamou a atenção. A Praça da Catedral; o restaurante El Pátio; a La Bodeguita Del Médio; o Capitólio. Mostra-se, ao lado da esposa, saboreando mojitos, daiquiris e cuba libres. E, como não poderia esquecer, típico turista com máquina a tira-colo e camisa colorida, destaca o Malecón, que não é nada mais que um “calçadão” como muitos outros que assolam a nossa cidade, defronte ao mar, onde os cubanos trocam idéias e sonham em viajar para Miami.

Se lá existe também “invasão de camelôs”, tomando o centro da cidade, vendendo de peixe fresco a suco da Amazônia?  Não. Mas também tem o seu “mercado persa”. Toda cozinha cubana é levada à rua, em pequenas barracas, sem quaisquer padronização, e posta à disposição dos “sabores turísticos”. Assim, como na Bahia, lá onde baianas se oferecem, insistem em “se vender” como fotografias aos turistas que por lá aparecem, Cuba também vende as suas músicas ao ar livre, rumbas, boleros e salsas. O bom, acrescenta, é que ela não vem daqueles horríveis “carrinhos de som” que poluem a nossa cidade. Suas “fumadoras de charuto” são personagens típicos, diz, e continua guia dos nossos olhos.  Vestindo longos vestidos de cores fortes, turbantes e flores no cabelo, lêem mãos e desvendam o futuro dos “pagantes turistas”.

 Enquanto desfila a sua coleção de fotografias, volta a ratificar o seu desejo de visitar Cuba com Fidel Castro ainda vivo. “Sei, não. Mas, sem ele, Cuba vai mudar! Cuba é Fidel e Fidel é Cuba! Eu queria ver cuba com Fidel”.  Foi e viu Cuba. Mas, se não viu Fidel, mesmo assim, voltou satisfeito. Seguindo o papo, eu raciocínio, vendo Cuba, Fidel foi visto e... fim de papo.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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