Um Sujeito Baraúna, Daqueles que Envergam, Mas Não Quebram!
Foto: arquivo pessoal
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Heráclito de Almeida, mas conhecido por Compadre Heráclito, antigo – botem antigo nisso! – funcionário público estadual, passou a vida pulando de galho em galho, sobrevivendo entre a velha e a saudosa A União – jornal oficial do Governo do Estado - e a Federação Paraibana de Futebol, livrando-se de todas as pragas de urubu que assolam este Verde e Amarelo, sem nunca ter cometido um só ato que desmerecesse a vida aos pulos que viveu até o Cabo das Tormentas dos seus setenta e oitos anos.
A situação era difícil para o velho e honesto Compadre Heráclito. Se conquistou a merecida aposentadoria pelo Estado, pela Federação, por achar que todos eram seus amigos e, no fim, tudo iria dar certo, pegando por tabela o Fernando Sabino, dela nunca recebeu nada. Também nunca reclamou. O velho tinha esse defeito de pensar que os seus amigos – principalmente esses – eram como ele, um sujeito baraúna que enverga, mas não quebra. Ledoivo engano do meu velho pai.
Durante todos os seus setenta e oito anos Heráclito de Almeida foi para muitos e, principalmente, para os filhos, um exemplo perfeito do que vem a ser um sujeito honesto, direito, leal, e, sobretudo, consciente de sua obrigação como cidadão de honesto ser. Não tinha duas conversas, como costumava dizer. Ou o sujeito prestava, ou não prestava. Sem nunca ter ouvido falar no Lombroso, via na cara, por exemplo, de um honesto Juiz Nicolau o lalau que ele escondia. Ficar em cima do muro, nunca, nem socorrer-se dos “mais ou menos”.
Saía governo e entrava - muitos, como ainda hoje, pela portas dos fundos da nossa história - governo e ele, debaixo do seu chapéu e atrás dos óculos de graus, mas sem nunca se esconder, sabia dos podres que exalavam do Planalto Central e do centro da capital do seu Estado. Embora muito sensitivo, jamais usou lenço no nariz, fingindo que nada sentia. São ladrões, meu filho, corruptos, safados, crotos e ex-crotos. Ato contínuo, balançava a cabeça e voltava a sua clarineta, instrumento que usava e que desafinava às vezes, mas que nunca o levou a desafinar pela vida.
Se não podia dizer que o rei estava nu, também não fingia e dizia que ele estava apenas mal vestido. Atento, sabia que o rei não só estava nu, mas com a sua bunda exposta e cheirando mau. Era rei, dizia em seguida, lá pras negas dele. Não nasceu para ser súdito de um rei sujo e com a bunda exalando mau cheiro para todo o reinado. Nesses momentos, como não bebia vodka nem vivia embriagado pelo tédio do dia-a-dia, para piorar não sabia dançar um tango argentino, corria para a velha clarineta e tocava uma marcha do Zé Kéti ou um chorinho do Patápio Silva.
Apesar de saber que Judas teve como amigo Jesus, um Deus, e mesmo assim, ele, o Judas, o traiu, provando que nem sempre a melhor companhia, por mais divina que seja, é passaporte seguro para a boa formação, nunca deixou de aplicar a velha máxima para saber com quem os filhos estavam andando. Diz-me com quem andas, que eu direi quem anda contigo. Diz-me com que andas, que eu direi quem paga a conta. Um óbvio mais que ululador. Era impossível, por exemplo, ser amigo do Paulo Maluf e ser um bom cidadão. Era raro, outro exemplo ainda, seguir as orientações do Zé Dirceu, sem ser corrupto, calhorda, nauseabundo, sórdido, púnico, malsinado ou refalsado.
O meu Compadre Heráclito tinha palavras demais e silêncios mais ainda. Em vida – não acredito em outra – não fora um homem que se pudesse chamar de puxa-saco, bajulador, baba-ôvo ou outro adjetivo que tão bem casa - para nunca mais se separar - com muitos desses sujeitos que estão por aí, assinando com as suas canetas de ouro milhões de cheques sem fundos. Compadre Heráclito não abria mão nem para tomar injeção na veia, impedir que a ferida continuasse sangrando, se tivesse que abrir mão também de sua dignidade. Coisa rara hoje em dia, como todos vocês sabem.
Há anos ele pegou o chapéu, pagou a conta do açougue onde comprava fiado, presenteou um amigo com a sua clarineta, companheira das tardes fagueiras, e pegou o Trem das Sete. De repente, mais que de repente, Vinícius, como se não quisesse que alguém soubesse que não fora apenas o coração que o obrigara àquela viagem inesperada, mas, lá por dentro, que a vergonha de haver nascido numa época em que a honestidade, a retidão de caráter, o respeito e a vergonha – ela também - são apenas palavras figurativas, adereços para defesas vazias, também vinha lhe matando aos pouquinhos, foi embora. Rápido. Sequer teve tempo de despedir-se de Dona Chiquinha, esposa e companheira de toda a vida, e minha mãe. O Trem não esperava, pois, a Estação da Luz, a verdadeira, era muito distante.
Quanta falta o Compadre Heráclito faz nos dias de hoje. Se não fizer para os muitos que infelizmente não conheceram o velho, tudo bem, mas para o Lula, esse boneco de ventríloquo que teve a insensatez (quase tudo em Lula é insensato) de afirmar que não existe nesse país alguém que tenha “mais moral e ética do que ele”, teria sido muito bom que o tivesse conhecido. Embora, nós os filhos, achássemos que para o Compadre Heráclito teria sido um péssimo negócio, um péssimo exemplo. E isto, com certeza, assim como ocorreu com o Quincas Berro D’água que morreu duas vezes, poderia ter-lhe matado outras vezes.
Descanses em paz, meu Compadre e amigo Heráclito de Almeida.
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*Humberto de Almeida é escritor.
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