» ARQUIVOS |
» Ir para Crônica atual »
» Crônicas anteriores »
» Contato: 1bertodealmeida1@gmail.com » Outros textos: 2 Dedos de Prosa |

» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 15 de julho DE 2007

Minha empregada roubou da escova dental o meu sorriso

“Eu tinha nas minhas mãos somente sonhos/ eu tinha nas minhas mãos somente sonhos" - versos do imortal Mané Caixa D'água

Editoria de Arte

A minha secretária do lar, um belo eufemismo que inventaram para a empregada doméstica dos meus tempos de menino, sem perceber, pois, como descobri, as lentes dos seus óculos são quase telescópicas, usou a minha escova dental e amanheceu com um sorriso mais sacana do que nunca.

Eu conto: ninguém riu – o Rio? Que Maravilha! - e ninguém chorou e não era (ainda) o meu carnaval. O que ela iria fazer com esse sorriso sacana – mesmo os que não conhecem a dita podem imaginar – tava na cara.

Descobri nessa manhã o meu sorriso na cara da minha empregada. Um sorriso sacana.  O pior é que ela aproveitou o sorriso alheio para sorrir com qualquer besteira.  Sorriso emprestado. O Lula disse que gostamos de falar mal do Bananão lá fora.  Ela, sem vergonha, abriu a boca e sorriu por dentro um sorriso verde e amarelo não era o seu. Sacanagem, pensei.  Logo aquele que eu havia guardado para um momento especial. A absolvição do Renan pelos comparsas, ou para aquela manhã em que o lambari Vavá despertou tubarão. Ela, porém, gozando com o sorriso meu, relaxou. Pegou a Síndrome da Marta.

Sou um sujeito cheio da graça da Maria irmã mais velha que sofreu uma porrada com a morte de sua ídola – assim mesmo, no feminino, pois na minha língua quem manda sou eu! – Núbia Lafayette. Ora, se o sorriso – ainda – é meu, o ar da graça também me pertence.  Estão vendo? Isso mesmo. Esqueci neste parágrafo o sorriso que a minha empregada, sem querer, roubou da minha escova dental, entrei n’outro parágrafo e espalhei assuntos no meu ventilador de palavras.

Minhas coisas de repente ou mais que repente como aquele inesperado da canção que chega fazendo uma surpresa são todas feitas do acaso com o qual o meu Deus escreve o seu nome. Às vezes puto como outras putas e poetas da vida. E são bem comidas. A falta dessas coisas minhas não raras vezes me deixa mais puto que elas. Deixa pra lá, vem pra cá... o que é que tem? Se eu não faço nada, elas, mesmo que nada façam, abram somente as pernas, fazem muito bem.

Eu gosto da palavra escrita. A falada, apesar de gostar muito também, traz o defeito da voltatibilidade (sic).  Sou um malabarista de palavras. As águas do rio que passam pelo meu quintal banham as minhas palavras, mas elas continuam as mesmas. Todos os dias. Muitas, porém, quando dizê-las eu quero... passam com a suas águas.  Eu gosto do rio que passa pelo quintal da minha casa. Eu gosto dos rios que “passam” pelo quintal da minha casa. Se o Fernando soubesse navegaria em Pessoa todo o mar português para desaguar no rio do meu quintal.  Tudo pelo avesso do avesso do avesso que o compositor baiano procurou usar para dizer alguma coisa e, triste fado, triste sina, nada disse, foi poeta de latrina.

Leio o que me cai nas mãos. As minhas mãos quem lê nada vai encontrar de interessante. O que me cai nas mãos não deixa marcas. O mesmo que procurar marcas no mar depois da passagem do navio desse comandante pelo mar navegado.  Um dia a madame pediu para ler a minha mão e eu não deixei. Medo? Perguntou-me ela. Medo? Repeti a sua pergunta e, ato contínuo, expliquei-lhe o motivo: sem saber ler/escrever ela nunca descobriria pelas linhas da minha mão a linha de equilíbrio deste escriba.

Medo mesmo, como um dia confessara o poeta dos quintanares, o medo que eu tenho, além do medo de ficar cego um dia é o de um dia me faltar palavras para dizer por escrito o que me pede o desejo. Se o Quintana dizia temer sempre o próximo poema, este escriba, meio poeta e louco e meio teme o seu próximo textículo. Às vezes que ele escreve é como se tivesse levando nas costas uma cruz tamanho do mundo e escalando o Everest. Isto é prazer? A dor é prazer? Mas se eu disser que a cruz me faz bem e a escalada é uma descida no tobogã? Pois é. Pois são.

Não vivo com medo.  Nem o medo do Quintana nem o do Jean Delumeau.  Sua história é diferente da minha.  Escrever, sempre. Embora não peça nada emprestado, mas aqui tomando emprestado o pensamento do Afonso Romano de Sant’Anna, confesso ser este um momento de tensão.  Um ato puro e belo. Uma entrega.  Tão gostoso como fazer amor com uma amante somente sua que a cada noite fica mais bela e mais gostosa. Um sonho.

Não quero lembrar do sorriso roubado da minha escova de dentes. Não quero lembrar o meu sorriso no sorriso alheio. Se tenho medo de ser mal interpretado? Ora, ora... hora? Não tenho tempo pra isso. Ouro Ledo Ivo engano! Deixo, pois, para o Raskólhnikov, aquele mesmo do Dostoiévski, o medo que nunca senti. Sou pau de dar em doido, mas nunca fui doido o suficiente para sair por aí metendo na doida o pau.

Às vezes puto, como falei aí em um desses mal-traçados parágrafos aí de cima, outros puto e meio, sempre escapo das pragas de urubu. O rosto na janela, sem ser Januária, janeiro, fevereiro ou março, apesar das porradas, continua sendo banhando pelo sol de cada manhã. Pausa. Lá fora a vida passa sem pressa num papo com o futuro. Tenho vontade de ler. Mas o quê? Os velhos são clássicos por que são velhos, ou são velhos por que são clássicos? Afinal, quem deseja ler este escriba? Respondo: quem não tem o que ler. Perdoem a seriedade. Sorrir como, se a minha empregada roubou o meu sorriso?

  • .................................................................................................................................................................................
    *Humberto de Almeida é escritor.


Capa | Topo

 
 
+ Canais | 2 Dedos de Prosa | Artes das Ruas | Caderno de Cultura | 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008 | Cultura: agenda | Cultura: artes plásticas | Cultura: eventos | Cultura: meu clássico favorito | Cultura: show | Cultura: teatro | Cinema | Cinema Falado | Cinemão | Cinematógrafo | Luz & Sombras | Mise en Scène | Respirando Cinema | TelaGrande | Festival do Rio 2007 | Festival do Rio 2008 | Contos | Contos de Terror! | Convidado Especial | Copa 2014 | Cristo Redentor | CrônicasTur | Dicas de Moda | Dicas de Português | Editorial | Entrevistas | Esportes & Saúde | Exclusivo | HQ's & Fanzine | Infantil | Infantil| Infantil: english | Literatura | Meu Bairro | Música | Música & Voz - Tatiane Vidal | Oise - Joaquim Palmeira | Oise - Wilmar Silva | O Rio em P&B | Pan2007 | Poesias | Reportagens | RsRsRs | Crônicas Sociais | TvCB.
2006/2008 © SCB - Sistema Crônicas Brasileiras de Radiodifusão Ltda -. Todos os direitos reservados.