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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 5 DE JULHO DE 2007

Um Papo Qualquer Coisa Sobre o Garcia Lorca

Que pena dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam
(Garcia Lorca)

Tenho alguns amigos – quase todos poetas de dores de cotovelo – que dizem não gostar muito do poeta Lorca. O Federico Garcia Lorca. Mas na verdade “gostar” não é bem o termo. O problema é que eles não conseguem se dar bem com alguns poemas dele. Poemas que este escriba sempre achou belos exemplos do poeta andaluz. Mas, para eles, esses amigos poetas das dores faladas aí em cima, eles, os poemas do Lorca, se apresentam como uma floresta de espinheiros.

Tem um cabralino fanático, por exemplo, que costuma dizer, cheio de prosa, que os versos do Lorca o hostilizam.  Ávido consumidor de arte que sou, e, entre elas, como não poderia deixar de ser, a poesia, vocês não imaginam como é difícil manter um papo com um sujeito assim. Bom sujeito, mas, infelizmente, um inimigo declarado desse poeta que se tornou, via poesia, um amigo meu. Embriagando-se inúmeras vezes de vodka para não morrer de tédio, fica ele com aquela cara de quem comeu e não gostou, como costumava dizer a minha doce mãe Chiquinha, sem conseguir pegar a mensagem de um de seus poemãos, todo espetado.

Enquanto isso, a Morena, apelido que começa a engolir o nome próprio, Fátima, que não entende nada de poesia, acha o Lorca muito interessante. Ela lê um poema seu – leia-se dele – e fica com aquele ar de quem acabou de comer o melhor e o maior dos pratos, continua com a barriga vazia, e a vontade de comer mais ainda. Ela me diz - disse um dia, faz tempo – que as coisas do Lorca lhe dão uma sensação de alucinação – isso mesmo: “alucinação” -, aqueles borboletões de imagens – palavras dela – se sucedendo, se atropelando, batendo guizos e tampas. Esses negócios que lembrem (ou sejam) desvarios. Ela gosta muito.

É difícil, muito difícil um poeta receber três marcas assim tão fortes. Perdoem a ignorância, mas conheço poucos. Porque é uma coisa rara conhecerem assim de saber dar nomes ao que conhecem. Coisas bastante raras entre os poetas.  Mas uma coisa, dizia para ela, que ninguém pode duvidar é que o Lorca conseguiu marcar a sua presença na poesia de lá, daqui e de onde ela pudesse imaginar.

Menino ainda, disse-lhe que comigo a coisa era bem diferente. Não era mais embaixo, nem mais em cima – era no ponto. O espanhol havia conseguido despertar em mim o gosto e o amor pela sua poesia. Os poemas dele eu sabia ser – e sei ainda - uma fervilhação (sic) de imagens, mas sempre me dei bem com isso. Nunca me senti agredido. O coração do poema nunca me pareceu longínquo e glacial. Ah, também não levo o ritmo forte das coisas que ele fez para o lado do devaneio.  Mesmo sabendo que isso pode acontecer espetacularmente. Elas, porém, não me carregam dessa maneira. Federico Garcia Lorca é para mim um poeta extremamente colorido, mas não é psicodélico.

Existem poemas desse cara – como todos sabem, Lorca era mais coroa – que são um verdadeiro bombardeio de estímulos que eu até me arriscaria a chamar de visuais. Imagens claras, mas sempre imagens, substituem a mais leve indicação cotidiana, corriqueira, normal. Isso mesmo: normal. É justamente por isso que ele se torna hermético, escorregadio, difícil de apanhar: o inusual (salve Guimarães Rosa!) desbanca o que se esperava com uma vertiginosa freqüência.  O consumidor mal conseguiu explicar pra si mesmo porque o verso anterior tinha o direito de ser excêntrico, e já o seguinte também se centra no meio.

É claro que os colegas poetas e não poetas, mas todos sabendo do poder embriagador da poesia, nesta altura do campeonato poético, estão percebendo que este escriba gosta um bocado do Lorca. Verdade. Confesso que acho as coisas dele muito originais. E ponham, por favor, muito nisso. Não se pode duvidar que é um trabalho árduo, um trabalho filhodaputa, como diria o meu amigo e poeta Lúcio Lins, que, apressado, resolveu se mudar para outra cidade ainda novo, um autêntico fabricante de boas imagens. Os duzentos mil esforçados deste mundo á la Carlos Véjar que o digam.  E se aparecer um mais atilado que não disser, estará mentindo mais que os seus poemas enganadores. A facilidade com que Federico Garcia Lorca abre a boca e canta – puta que los pares! - só a possui os grandes poetas. Nela há uma inimitável marca de qualidade impregnando cada floreio, cada – isso, 1 berto! – minúsculo floreio.

Assim, cansado dessa longa e poética viagem, só me resta confessar que perdi a conta de quantas vezes um verso do Lorca deixou este escriba no ar, suspenso, boca aberta, acompanhando cada implicação de, por exemplo, uma espiga de milho ser uma doce abelha do sol; ou de, por exemplo, o silêncio ser um cristal empanado; ou de, outro exemplo ainda, todos os outros zil milhões de exemplos de que se compõe e perdura a obra de Lorca!

Por fim, aos amigos que me emailizam (sic), deixo o recado: enquanto a minha vaquinha tiver o couro e o osso e puder com o chocalho pendurado no pescoço, eu vou ficando por aqui.  Outro recado: vou continuar, também, saboreando os poemas do Lorca que cobrem a minha parede de memória. Mais: se escrever é não aborrecer, paro, pois não quero acabar aborrecido com as mal-traçadas que escrevo. Nem com os amigos que não gostam do Lorca.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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