Não foi esse o Circo que passou em minha cidade
O pai dele é dono de circo desde o tempo em que se conhece como gente. Tem porte de trapezista equilibrista de bicicleta de uma roda só. Baixinho. Também. O pai, segundo ele, é o locutor oficial. É daqueles de voz empostada e timbre de locutor de rodeio. Cheia de uma alegria pré-fabricada. O nome do circo paterno mudou várias vezes. Por quê? Ora, o povo gosta de novidade. A chegada de um “circo novo” é uma atração nas cidades do interior.
Agora, no momento em que traço estas mal-traçadas, o circo do seu pai encontra-se instalado na cidade de São Paulo. Faz tempo. Embora tenha viajado por todo esse Verde Amarelo, que, como todos sabem, coberto é um grande circo, em São Paulo, por enquanto, está tirando – e bem! – o suficiente para pagar a plêiade de artistas que o acompanha. Pergunto quantos são, mas ele responde não saber. Arrisca. Uns 40 trailers. E como – faz mentalmente os cálculos – cada trailer comporta uma família com... cinco pessoas, logo... são duzentas pessoas!
Pergunto sobre os animais circenses. Macacos, leões, tigres - com ou sem bengala -, elefantes, ursos e outros. Responde que, hoje, com a proibição imposta pelas entidades protetoras de animais, protegendo esses mais, muito mais que seres humanos, são poucos e difíceis de manter. Um leão, por exemplo, come oito a dez – e às vezes mais – quilos de carne por dia. Lamento. Não pela carne atirada ao leão, mas pelas muitas crianças, que, por terem a carne que lhes falta atirada às feras, passam fome.
O pai é meio – assim mesmo, “meio” – desgostoso com os filhos. Queria que um deles, pelo menos um, seguisse a sua profissão. Os filhos, porém, preferiram ficar por aqui a sair pelo Verde e Amarelo – acrescenta que o circo já foi até para o exterior – fazendo graça e trabalhando sério. O pai oferece circo – sorri -, o pão é o salário mínimo. Sérios de morrer não se imaginam domando feras e se equilibrando pelas cordas bambas da vida. Por gostar muito de animal – Roth, o meu cachorro, é um bom exemplo - esqueço os animais superiores e peço que fale dos inferiores – e interiores – que acompanham o circo.
O leão é um animal muito burro. Está sempre atrasado um ano ou mais em relação, por exemplo, ao elefante. Esse, como no romance da Agatha Christie, mesmo burro, tem uma memória espetacular! Passa um bom tempo falando de memória da memória dos elefantes do circo do pai. O peso desses mamíferos, avisa a este leigo nas coisas circenses, é um risco de morte pra todo domador. Sua ferocidade é menos perigosa.
Um dia, lá pras bandas da Bahia, onde o circo passou um bom tempo instalado, um domador foi uma vítima fatal do “peso do elefante”. Acostumado a meter a cabeça na boca do bicho e esperar os merecidos aplausos, deitar-se sob uma de suas patas, mais pesada que dois Jô Soares juntos, deixá-lo por minutos em apenas as três restantes, um dia, esse bicho antes muito equilibrado, desequilibrou-se, e... foi horrível! O domador teve o seu tórax esmagado de tal forma que ficou parecendo um emplastro Sabiá. Um daqueles velhos e famosos. Um emplastro tapando uma ferida aberta na terra fria.
Tudo ouvia e imaginava um elefante maior que a corrupção brasileira, maior mesmo que a violência da despreparada – como todas as outras – policia carioca, para a qual toda bala perdida acaba encontrando dois ou três inocentes pela frente, desabando sobre a barriga sarada do seu domador. A platéia – continua contando - inocente pensou que tinha sido apenas uma “machucão sem maior gravidade”. Foi rápido. Os ajudantes correram, colocaram, rapidamente, seu corpo na maca e se danaram para os bastidores. O show não podia parar. E não parou.
São vários os casos que ocorrem nos bastidores que a platéia não tem conhecimento. Por isso mesmo, aplaude e se diverte, sem saber a tortura pela qual passam os animais. Não sabe que os sorrisos dos palhaços são todos ensaiados antes da entrada no palco. Nem a dor dos artistas e seus familiares em tragédias como essa. Nada lhe pergunto, penso apenas. Imagino que esses aplausos, sabendo a platéia da verdade, seriam todos transformados em gritos e medo. Afinal, quem gostaria de assistir as aulas ministradas pelo domador de um leão acuado, faminto, chicote na mão com espeto de aço na ponta, botando por terra “a sua majestade”, tudo para que ele suba num banquinho menor que a inteligência dele?
A platéia fica de boca aberta todas às vezes que o domador estala o chicote e o leão, como se recebesse um choque elétrico, o que realmente ocorre muitas vezes, faz o que ele manda. Inocente não sabe que o leão não obedece o domador, mas teme a espetada sintonizada com o barulho do chicote, que, com a lona abaixada, tem lugar cativo no seu corpo peludo. Eu assisti a muitas aulas, diz, são dois os professores. Um estala o chicote e o outro, numa sintonia admirável, cutuca com o espeto, muitas vezes em brasa viva, o corpo que se recolhe.
Quem não obedeceria uma ordem sob essas condições?! Pergunta-me, como vocês acabara de ler, todo exclamativo. A tortura não dura apenas quarenta ou cinqüenta minutos (não sei o porquê desse seu limite de tempo). São horas. Todos os dias. Às vezes o bicho – o bicho é o leão – fica tão estressado que chega a recusar, mesmo morrendo de fome, os quilos de carne que são atirados em sua jaula. Nem comer ele quer. Mas, quem liga? É coisa passageira. O bom é que ele está no ponto. É só estalar o chicote que ele é capaz de falar o nome do domador. Super obediente, não fará apenas o que manda o domador, mas o que qualquer um mandar.
O macaco? Esse não precisa de muita peia, não! Uns safanões aqui, outros puxões de rabo ali, uns tapa-ouvidos vez em quando, um jejum forçado e, em poucos dia, está no ponto! Sem dúvidas o mais inteligente dos animais! Para aprender a fazer a sua parte, o domador não gasta metade do tempo que passa estalando o chicote e dando cutucadas num leão. Engraçado. O povo gosta e sai muito mais barato! Sei não, acrescenta, mas depois do que eu vi um macaco fazer no circo do meu pai, acho que a gente veio mesmo desse bicho...
O circo - agora, fala sem parar - tinha um único tigre. Pára, e acrescenta: de Bengala. Pensei, ainda, levado por essa presença de espírito que a cada dia me faz não acreditar nele, no espírito, sem a minha presença, em acrescentar que quando criança achava que todo tigre de Bengala era um tigre aleijado. Porém, antes mesmo que o assunto morresse, acrescentou que o seu treinamento era pior – na hora, achei impossível – que o dos leões. Pedi-lhe que não entrasse em detalhes. Ele não entrou.
Inesperadamente, sem tecer os detalhes que lhe pedi que não fossem tecidos a respeito do treinamento do tigre de Bengala, esse que ele disse ser pior que o dos leões, lembrou de um urso que por muito tempo “alegrou” crianças a adultos no circo do pai. O urso, como o elefante, também é muito burro para aprender. Diz com um ar professoral. O bicho é mais burro que o burro, esse que por ironia do destino é um animal dos mais inteligentes!
O que o elefante tem de memória – é uma aula! - o urso tem de burrice. Ele parece não gostar mesmo de ursos. Um animal quase indomável. Traiçoeiro, assim como o tigre, tem o costume de atacar as pessoas pelas costas. Mas, eis que resolveram o problema: por ordem do pai, anestesiaram o selvagem, arrancaram-lhe as presas – “bonitas!” – e as garras – “afiadíssimas!” -. Esse, depois do tratamento, ironizou, diferente do tigre de Bengala, preciso o resto da vida de auxílio para poder agarrar o pote de água com açúcar – “eram pacotes e mais pacotes de açúcar!” - com o qual, todos os dias, matava a fome. Rasgar alguma comida? Nem pensar!
Não lhe disse. Mas, depois do tratamento, o urso do circo do seu pai não era mais um urso. Um fantasma apenas. Um retrato falsificado do urso que foi um dia. Sem os dentes e sem as garras, poderia ser qualquer outro animal, menos um urso. Porém, se não fosse assim, ninguém poderia transformar aquele urso em “divertimento” e “alegria” das crianças. Somente assim, modificado à força, o domador conseguiria – como conseguiu - se “apossar” do animal. A platéia, por sua vez, nunca percebeu que estava assistindo ao espetáculo de um urso de mentira. Um só dia descobriu que aquilo não era urso. Nunca soube, também, ou procurou saber, como ele se tornara tão “engraçado” e “dócil”.
E me contou outras coisas. Muitas. Falou do trapezista que quebrou o pescoço na rede que era para lhe sustentar – “é preciso saber cair, a rede é tão ou mais perigosa que o salto!” – e a platéia, aplaudindo ainda o salto, nem percebeu que aplaudia um cadáver. O pai não foi o culpado. Aconselhado a não fazer o espetáculo naquele dia, pois, havia tomando uns e outras minutos antes da apresentação, recusou o conselho. Era a “estrela do ar”. O show não podia parar, e não parou. Quem parou foi ele. E para sempre.
Contava tudo isso e o circo da minha infância, agora descoberto, matava de tristeza o adulto em que ela se transformou. Relutava em acreditar que aqueles palhaços de nomes engraçados, sapatos enormes e calças folgadas, os seus preferidos, sabiam de tudo aquilo e ainda faziam graça, brincavam de bater e chorar, enquanto eles, os animais daquela criança, apanhavam e choravam de verdade. Não quis mais saber sobre aquele circo – todos são assim! – onde os palhaços eram os domadores (cai o pano).
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*Humberto de Almeida é escritor.
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