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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 7 DE JUNHO DE 2007

Geraldo manda avisar que o Vandré morreu!

Fotos: Arquivo

Quando setembro vier, Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, o nosso Geraldo Vandré, estará fazendo 72 anos.

Eu nunca mais vi o filho do Dr. Vandregisilo e Dona Maria Eugênia. Sei apenas que anda – por onde anda – um tanto desgostoso com o país em que vive. Um tanto não, muito. Sei ainda que anda dizendo que não voltará a fazer o que mais gosta no momento: música instrumental. Vai mais fundo: voltará aos palcos. Ninguém acredita. Nem ele.  Um dia Vandré é Geraldo Pedrosa, no outro, diz que o Vandré, sua única e melhor criação, morreu. Mas, se morreu, todos sabem, o Geraldo Pedrosa esqueceu de enterrar...

Por telefone, raramente, atende a ligação de algum colega. E, quando atende, é para falar de suas dores.  Telefonar para eles? Não tem tempo. Mais: eles vão querer falar com o “Vandré”, quando, do outro lado da linha, está o Geraldo Pedrosa de Araújo Dias. Dia desses na sua forma nordestina de ser, num papo em um dos nossos freqüentados barzinhos, lembrando, talvez, o anúncio fúnebre do John Lennon a respeito do quarteto de Liverpool, o Sonho Acabou, Geraldo fez questão de dizer para todos os presentes que o “Vandré Morreu!”.

Surpresa nenhuma. Todos há muito sabiam que o autor da bela Pequeno Concerto Que Virou Canção, antes mesmo de voltar do seu exílio, negociado com as forças armadas pelo seu pai, havia morrido lá fora. No Chile, talvez. O criador não conseguiu segurar a criatura e, como alternativa, quase morto por ela que muitas vezes fora, resolveu sacar o revólver primeiro. Essa dualidade incomoda tanto a ele quanto aqueles que conheceram e gostaram do Vandré e, agora, desconhecem o Geraldo Pedrosa.

Outro dia que já vai distante, fotografia desbotada na parede da memória, caminhando pelo centro da cidade, me deparei com o autor de Fabiana – todos sabem, costuma dizer, que o meu sonho, antes mesmo de ser cantor de rádio, era entrar para a Força Aérea Brasileira – em um dos seus constates momentos de negação de sua cidadania Verde e Amarela. Olhos cuspindo fogo e língua mais afiada do que navalha, dizia morrer de vergonha desse país que, com certeza, não era o país que desejava.

O fogo cuspido caía em forma de brasa. “Nojo, nojo, muito nojo! Eu tenho nojo desse país! Ainda bem que eu “não existo”! Vou morrer no exílio! Continuo exilado dentro do meu próprio país!”. Insistia na mesma frase. Uma cuspidela, um grito de revolta. Duas cuspidelas, dois gritos. Desconhecido por muitos em própria terra, ninguém entendia o motivo da revolta daquele cidadão de cabelos grisalhos e bigode grosso, também grisalho, acentuando-lhe a cara de revolta.

A casa onde nasceu, localizada no centro da cidade, próximo ao “cartão postal” escolhido pelo povo como o mais belo entre os muitos que possui, a Lagoa do Parque Solon de Lucena, antigo sítio de jesuítas, bela expressão paisagística, não existe mais. O tempo – sempre ele – e a falta de respeito das autoridades pela sua história e a história da cidade, derrubaram-na. Há pouco, por telefone, disse que sempre sonhou em fazer da casa onde nascera um lugar onde pudesse guardar a sua história. Mas, agora, se nada mais havia dele por aqui, voltar por aqui, também não queria.

Nojo, nojo, muito nojo! Eu tenho nojo desse país! Ainda bem que eu 'não existo'

Uma coisa ele faz questão de ressaltar em toda a conversa em que o Vandré, sua criação, está presente: nunca foi preso, nunca foi torturado, nunca sofreu “tortura” de qualquer espécie. E, se insistem, ele se aborrece, bate na mesma, grita e, como último recurso, uma resposta mais forte, retira-se do ambiente. Por aqui, infelizmente, ele trafega entre o louco e o gênio. Se de louco e de poeta todos temos um pouco, Vandré, apesar de condenado a morte pelo seu criador, tem muito mais de poeta. De louco, são poucas as provas.

Tempos idos encontrei, mais uma vez, Vandré no centro da cidade. Estava a tomar água de coco, bem sentado, em um de nossas tradicionais casas de sucos naturais.  Dessa vez, preferia uma água de coco verde. A conversa foi pouca. Ele, enquanto absorvia a água, mergulhado em um silêncio de matar Salvador Dali de tédio, era por ela absorvida. De repente, o amigo ao lado, ato natural nesses encontros, adiantou-se para incluir água do coco, por ele tomada, na sua conta. Mas, para o espanto de todos, o colega – também músico – foi chamado até à calçada e admoestado a não fazer isso. Motivo? A água que havia acabado de tomar estava aguada! Todo autoridade.  Era um pouco da loucura do poeta.

É uma luta renhida entre o criador e a criatura. Se o Vandré fala é porque o Geraldo Pedrosa, descuidado que anda, esqueceu de cassar-lhe a palavra. Ele não gosta da palavra cassar. Também não gosta de televisão. Também não gosta do conterrâneo Chico César. “O Chico César? O que ele faz?!” (leia entrevista no portal Uol). E assim vai tentando passar a idéia aos poucos – pouquíssimos – que não conhecem a sua história de que continua como aquele soldado japonês que passou toda a sua vida escondido na selva, sem saber que a guerra havia acabado há dezenas de anos.

Mas, apesar de tudo, essa negação desse artista, o último dos “mitos” da história da nossa moderna música popular brasileira, símbolo de um tempo em que a chamada música de protesto era capaz de “derrubar” regimes e mandar para o exílio, espontâneo ou não, heróis que ainda não morriam de overdoses nem de amores pelo seu país, Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, o nosso, o vosso, o deles Geraldo Vandré, merece o nosso respeito pela obra e pelo homem que optou ser.

Homem que daqui saiu, embora aqui não seja o sertão, coração preparado e preparando corações alheios para as suas histórias. Fazendo histórias e sem medo de desagradar. E, assim, Vandré, mesmo que o Geraldo Pedrosa não queira, ainda vai viver por muitos e muitos anos. Aqui, como ele deseja, ou no exílio. Espontâneo ou não.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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