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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 31 DE MAIO DE 2007

O Menino de Engenho virou bagaço de cana!

Fotos: Humberto de Almeida

O Menino
Sávio Rolim ficou conhecido ao interpretar Carlinhos, personagem central do filme “Menino de Engenho”, de Walter Lima Júnior. Ele atuou em outras produções do cinema e televisão, mas nos últimos anos teve sua carreira prejudicada pelo alcoolismo.

O Homem
"O ator paraibano Sávio Rolim foi encontrado na tarde desta quinta-feira em uma Ordem de Frades, no bairro de Manaíra, na Capital, onde passou os últimos 15 dias, período em que foi dado como desaparecido. Sávio estava bem cuidado e sem beber, segundo informou a filha do ator, Nadja Maria Rolim. O irmão de Sávio, Sobreira Rolim, recebeu uma ligação anônima comunicando o local em que ele estava e foi buscá-lo”.

O Homem e o Menino
Saio no sábado assim como quem procura, como aquele peru de Natal, viver o domingo na véspera. Pois bem. O sábado passava devagar.  Eu que nunca tive pressa, pois, afinal, a vida é curta e determinadas “artes” mais curta ainda, devagar, quase parando, pelo sábado passava.  De repente, caminhando em minha direção, cabeça baixa e passos de quem se equilibra em corda bamba, deparei-me com Sávio Rolim, o Carlinhos do filme de Walter Lima Júnior, Menino de Engenho.

- Cuidado, rapaz! Deixa de freqüentar aquele mercado (referia-se ao Mercado Central, um dos maiores e dos mais sujos dos mercados públicos da capital). Um dia vão encontrar o teu cadáver! Te cuida, cara!

Foi o que ouvi de um companheiro seu, agora, segundo o mesmo, recuperado, graças a uma associação que ajuda doentes como ele a “evitar o primeiro gole”.   Sávio Rolim não escuta nem articula bem as palavras. Mesmo assim, ouviu o amigo, sorriu em prestação e, olhos de quem acabara de sair de um filme de terror, sentir na própria pele as garras do monstro assassino, balbuciou em seu ouvido - do antigo colega de copo e de cruz – algumas palavras que para mim soaram desconexas.

Pernas à mostra, finas, trêmulas, fora da velha bermuda jeans, desbotada e cheirando mal, radiografia exposta dos anos de uso, Sávio Rolim nem de longe, muito longe mesmo, lembrava o Carlinhos Menino de Engenho dos anos 60. Ou melhor: do ano de 1965.

Nesse instante, percebi também que ele não consegue mais olhar para dois ou três lugares alternada e conscientemente. E se fita a pessoa é porque não tem mais o domínio do olhar.  Ele, o olhar, é fixo. Porém, embora fixo no rosto do outro, o olhar de Sávio é de quem não vê nem um pouco o rosto desse outro com quem está falando. Ele não fala, livra-se das palavras. Essa foi a primeira impressão.

- Foi um cara lá rapaz (assim mesmo, todo cacófato). Meteu o pau em minha cabeça. Eu caí e, ao levantar, o cara meteu o pau de novo. Eu não fiz nada. Foi uma pancada pra matar. Na nuca. Na segunda paulada eu desmaiei.  Aí apareceu uma mulher e me levou para uma pousada na praia. Não era de louco, não!  Uma pousada de gente normal Passei lá um bom tempo. Uns dias. Todo mundo falou do meu sumiço, não foi? Mas não foi nada, não. Eu passei uns dias descansando...

Não estava louco, disse várias vezes.  Mas, delirava. Não queria que o colega nem este escriba suspeitasse que o Menino de Engenho estava louco. Nem bêbedo. Mas se louco aparentava estar, bêbedo, ninguém duvidava. Sávio Rolim, apesar do ar que ainda guarda muito daquele Menino de Engenho, estava velho, muito velho e, infelizmente, um tanto louco. E numa loucura maior, um muito bêbedo. Não um bêbedo de não saber o que fazia, mas bêbedo o suficiente para não saber o que queria fazer.

Ele falava no ouvido do colega, consciente, talvez, de que a força empregada nas palavras que dizia não era o suficiente para fazê-las entendidas. E agarrado, isso mesmo, agarrado, preso a gola da camisa do amigo com a força que o seu estado permitia, explicava o seu desaparecimento. Não foi porque quis, disse como se tivesse pedindo desculpas, foi um cara que não sabia de sua história – ou sabia, sei lá, acrescentou – e quis que ela acabasse ali. Mas, tudo bem. Ele não morreu e o que aconteceu, em parte, foi até bom.  Descansou uns dias...

Sávio Rolim não conduzia as palavras. Elas, as palavras, eram quem lhe conduzia. Os olhos – esses, sem dúvida, chamam a atenção de qualquer interlocutor – não diziam nada. Estavam parados. Mudos. Incomunicáveis. Percebi que enquanto contava a história do seu desaparecimento, câmera aberta, sem cortes, não desviou o seu olhar do olhar espantado do colega um só segundo. Naquele momento, Sávio não interpretava, vivia o alcoólico em que se transformou e ensaiava os primeiros passos do louco em que, a continuar assim, irá se transformar.

O sábado estava vazio. Os homens, como sempre, estavam vazios. Somente Sávio Rolim, naquele dia, parecia cheio de cachaça e – triste, muito triste – da vida. Uma cachaça que, com certeza, não fora tirada da cana-de-açúcar do Engenho Corredor, o engenho de sua infância, infância do Menino de Engenho.

Em tempo: A próxima notícia, infelizmente, poderá ser a última em vida do ex-ator Sávio Rolim.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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