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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 24 DE MAIO DE 2007

O Pior dos Sonetos é Melhor que Essa Emenda!

Fotomontagem: Francci

“A medida é um desastre sob qualquer ponto de vista e apenas pode ser explicada pela subserviência de setores do Legislativo e do Executivo aos detentores do poder econômico” - Juiz Grijalbo Fernandes Coutinho, da 19ª Vara do Trabalho de Brasília, e presidente da Associação Latino-Americana de Juízes do Trabalho.

Se não fosse a chamada de atenção de um colega, preocupado que ando com as notícias que não vêm do exterior, mas daqui mesmo, onde o crime a cada dia parece mais compensador do que nunca (nada me deixa mais puto que essa história de um processo, por se tratar de gente “proba e poderosa”, tramitar em “segredo de justiça”!), a nefasta Emenda 3 da qual muita gente ainda, infelizmente, não ouviu falar, iria ficar de fora das minhas crônicas (seria uma crônica mesmo?).

Os males que advirão com a aprovação da famigerada Emenda 3 pelos muitos Deputados de Mentira, eleitos por esse belo e impávido e, sobretudo, ignorante povinho verde e amarelo de impaludismo e fome, para representar os seus interesses e os de sua família - tutti bonna gente - são tantos que não caberiam no espaço carioca destas crônicas.  Mas, considerando que os meus dois leitores merecem saber mais um pouco sobre a dita cuja, posso mudar de parágrafo sem mudar de assunto.

Segundo as primeiras informações pescadas em um conciso e esclarecedor manifesto da CUT (quem tem Cut, tem medo!) que me fora passado pelo colega que citei aí no parágrafo primeiro, o presidente Lula, talvez lembrando ainda aquele metalúrgico com o dedo que tivera um dia e com o qual, um dia também, saboreei boas doses de cachaça no antológico (pelo menos por aqui) restaurante Blitz, com tira-gosto de caju, achando a proposta tão vergonhosa disse não. Vetou essa excrescência, mas não cortou o mal pela raiz. Senão vejamos.

Os trezentos e setenta sem-vergonha que criaram a vergonhosa Emenda 3 (deputados e senadores), setenta a mais que os famosos 300 de Esparta, sendo que esses são heróis, e eles, cabecinhas vazias e oficinas do demônio, atendendo aos apelos de seus patrões e sabendo que povinho verde e amarelo não está nem aí , anestesiado que vive pelo circo que as nossas telas coloridas de televisão oferecem, comendo o pão que diabo amassou e o leite da vaca mor e distribuídos, todos os dias, pelo Governo Federal, ameaçam trazer o mal de volta.

O incrível de tudo, colegas cariocas e outros desse verde e amarelo, é a passividade do trabalhador brasileiro. É claro que muitos, infelizmente, nunca ouviram falar da dita cuja.  E entre os poucos que ouviram, outra vez infelizmente, muitos também não sabem que se essa Emenda for aprovada vai tirar-lhes o 13º salário, as férias remuneradas, os vales-transporte, vales-refeição, a assistência médica, a aposentadoria (ora, vão trabalhar, vagamundos!) e, se não bastasse, a única coisa que o trabalhador ainda tem como garantia: o seu Fundo!  Pois bem. Por tudo isso espero que os meus dois leitores perdoem esse pobre coitado que esqueceu, dessa vez, as suas crônicas habituais, literárias e musicais e cotidianas, para falar desse mal crônico.

Nos anos noventa, mas, especificamente, no ano de 1993, no governo do topetão que se divertia em levar para onde fosse uma gostosona sem as devidas calcinhas mostrando saber que estava nu e não queria ser o único, o então candidato Luiz Inácio, que na época sabia de tudo e nunca negou – lembre-se do famoso “Zé Dirceu?! Eu não sabia de nada!” -, foi o primeiro a denunciar o escândalo (hoje, um pecado venial diante dos navalheiros e sanguessugas) da CPI do Orçamento, gritando para Ali Babá e os milhares de ladrões que no Congresso havia “300 picaretas!”.  Lembro que o paraibano Herbert Viana, ainda sucesso, aproveitou a deixa e espalhou a lama pelo Verde e Amarelo: 'Luiz Inácio falou/ Luiz Inácio avisou/ São 300 picaretas com anel de doutor”.

Hoje, como estamos vendo, triste visão, a picaretagem aumentou. Agora são trezentos e setenta picaretas escarrando na boca daqueles que gritaram os seus nomes. E se o pobre trabalhador já vivia com a corda no pescoço, assistindo de arquibancada – pobre só usa camarote em tempos de eleição – esses picaretas legislando em causa própria, aumentando os seus salários e, por extensão, de apadrinhados e laranjas sem cheiro e sem gosto, aprovada mais essa sacanagem, virá o puxão que faltava.

Os Sindicatos estão fazendo a sua parte, mas, por outro lado, o trabalhador anda silencioso.  É um mal que o brasileiro não vai se livrar dele nunca: fechar a porta depois de roubado. Isto, mesmo que eles saibam que hoje para ser roubado de casa ninguém precisa sair, nem ter a sua porta arrombada. O roubo e o crime e a corrupção, mesmo que não estejamos nos “tempos dos generais”, generalizaram-se.   Rádio e televisão? Nem pensar. Muitos de seus funcionários já foram transformados em Pessoas Jurídicas e todo o mês no lugar do sagrado contra-cheque recebem uma nota fiscal pelos serviços prestados.

É bom ninguém esquecer. Se esse dócil povinho verde e amarelo continuar esperando que os caras-pintadas voltem às ruas empunhando velhas e rasgadas e desbotadas bandeiras de luta em defesa de seus diretos, enquanto fica em casa guardado por Deus e sem o vil metal para contar, a famigerada Emenda 3 vai entrar de goela adentro!  E, depois de estar dentro, paciência, só restará aos Geraldinos e Arquibaldos (salve Gonzaguinha!) o relaxamento e o gozo.

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    *Humberto de Almeida é escritor. Ehmeio para este trabalhador que, pelos menos por aqui, sempre se garantiu e garantiu o seu fundo.


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