Uma passagem por Cecília Meireles, com um mergulho no trabalho anônimo
Fotomontagem: Francci
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“Eu aprendi com a primavera a me deixar cortar e voltar sempre inteira" - Cecília Meireles
O sangue das canções, aquelas belas que cantei um dia acompanhado pela clarineta do meu velho pai, corre feito cachoeira pelos canais de televisão. Navego à procura do meu porto seguro. Esqueço o mar. Leio Cecília Meireles. Navegando, agora, pelo rio de sua criação, a cabeça cheia de palavras perde o domínio dos olhos. E eles, grávidos de curiosidade, sempre, descobrem um belo desenho da poetisa feito pelo Newton Resende.
Cecília Meireles consegue soltar as amarras do meu barco poético. E ele, o barco meu, me leva para uma análise mais profunda da importância do trabalho. O trabalho. Não a coisa grandiosa que todo mundo viu quem fez e bateu palmas, ou qualquer outra admiração depositou. Não o trabalho que rende frutos mundanos, como as comendas e as honoris-causas, e por aí tantas dúzias de baboseiras. Mas o trabalho miudinho, anônimo, inglório: era neste que eu estava pensando ainda há pouco.
Existem poucas maneiras de ser gente de fato. De ser a percentagem mínima de trigo no joiaral (êpa!). Poucas maneiras de ser aquele homem diferente (como falava a Cecília Meireles em relação às mulheres) que não era como resto dos homens. Carregar a mesma pedra ingrata todos os dias é uma delas. A cruz, a pedra, o piano. Tudo aquilo que se carrega anonimamente.
A maior parte deixa os trastes à beira do caminho. Como? O quê? Gastar a minha juventude, os melhores dias de minha vida? Como? O quê? Empenhar a minha velhice, agora que mereço descansar? A maior parte foge do peso de carregá-lo ou mesmo de admitir que ele ficou em algum lugar, como só as pessoas covardes sabem fugir. A maior parte é o resto de nós homens. Melhor esquecê-la.
Melhor lembrar aquele que se entrega à entrega. Aquele que não foi apenas o ato de aceitar que a pedra estivesse ali, como também o de aceitar que ela ali permanecesse. Melhor trazer à luz do que se lembrar daquele que, muitas vezes, é tão anônimo no ato quando o é de reconhecê-lo: não se dá o valor que tem porque, em absoluto, não está procurando fazer o que tenha valor.
Taí, meu amigo, esta é a grande chave e cabe muito bem dentro de várias passagens do Sermão da Montanha. É aquela coisa de serem bem-aventurados os mansos e os humildes, e os por aí à fora. São esses os que fazem as coisas mais importantes (sustentar o mundo, por exemplo) sem que procurem justificativas ou prêmios para isso.
Mais embaixo que o mais profundo chão, diz outro poema de Cecília. É lá que está esse ser, o fazedor de coisas realmente importantes. Aquele que faz não duas ou três vezes um serviço bem feito, mas aquele que o faz tanto e tanto que não é possível pensar nele sem que o seu serviço venha junto, feito uma segunda pele. Aquele que não teve tempo sequer de cobrar: “viram, comigo a canoa não afunda!”. Ou: “viram, que coisas boas escrevi pra vocês!”. O tempo de pensar nesta cobrança foi o de pensar na próxima travessia, no próximo comboio (tudo bem), no próximo texto...
Mais embaixo que o mais profundo chão. Porque no dia-a-dia, no toda-hora, ainda somos perseguidos pelos que fazem de seu trabalho um estandarte de pedidos: “olhem para mim, vejam como mereço carinho, amor e brilhos!”. Este é o chão, e não começou ainda a ser profundo.
No mais profundo está aquele que se abre todo em modéstia e pejo. O que se acanha, se envergonha do elogio rasgado, do reconhecimento: “por favor, existem coisas mais importantes! Não façam isso comigo! Me deixem em paz!...”
No mais profundo ainda está o que se embaraça com a fama, que filosofa com a melancolia a respeito da futilidade humana e da extensão da Consciência nas pessoas. E, mais embaixo ainda, está o sustentador do mundo! E lá, mais embaixo que o mais profundo chão, em termos de humildade e despojamento, está o fazedor tão entregue ao ato de fazer, que o seu alcance para alcançar – estou sabendo – verdades é imenso. Então, reconhecem ou não a sua grandeza, haver ou não haver a possibilidade de saberem de sua importância, é meramente circunstancial, tão casual quanto uma determinada disposição de nuvens que – olhem rápido, pois, se não perdem o espetáculo! – já não é a mesma.
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*Humberto de Almeida é escritor. Ehmeio para esse cão que uiva de dor e sangra forte em cada uivo que tira de sua garganta sedenta.
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