Tudo sobre a minha mãe
A minha mãe, segundo ouvi ainda criança, era natural de Mamanguape, uma cidade bem pertinho da capital. Aproximadamente uns 50km de distância. Mas, logo cedo, data que ela nunca se lembrou, pegou os seus teréns e veio com os seus pais e avós meus, Francisco Bezerra de Araújo e Córdula Bezerra de Araújo, conhecer o seu futuro esposo, Heráclito de Almeida, viver em João pessoa e ter a gente.
Estou falando em minha e de minha mãe para não ficar fora do tom em que os meus colegas de “página” certamente irão tocar. Domingo, dias após a publicação destas em mal-traçadas é o chamado Dia das mães. Aproveito também para confessar que por questões que não cabem aqui escrever, mas vocês inteligentes que são devem imaginar, nunca gostei de dias assim. Dia dos pais, mães, namorados, avós, natal... Esses dias, por mim, passariam. Todos. E eu, assim como o Mário Quintana, passarinho sempre seria.
Dona Chiquinha, como era conhecida a minha mãe, passou por aqui e deixou uma marca que hoje, orgulhosamente, os filhos fazem questão de mostrar aos amigos. Somos filhos de dona Chiquinha e do compadre Heráclito (ele não poderia, mesmo nesse dia, ficar de fora), dizemos orgulhosos da mãe e do pai que tivemos. Vejam só como as coisas por aqui são engraçadas Suas presenças foram tão fortes em nossas vidas que os nossos nomes estão sempre associados aos deles. Explico no próximo parágrafo.
Em Jaguaribe, bairro da capital onde nasci, como naquelas cidades do interior em que os personagens ficam famosos pela associação de seus nomes aos nomes dos pais, com os filhos do clarinetista Heráclito de Almeida e da cultivadora (belo, não?) de flores Dona Chiquinha, isto ainda acontece. É Beto (como ela me chamava) de Tota ou Paulo ou Lauro ou João ou Zé de Chiquinha. São todos dela ou dele, Heráclito de Almeida. Nenhum, porém, seu. Todos deles!
Por ser o mais moço dos filhos a minha mãe sempre tivera comigo um cuidado todo especial. O último dos moicanos. A criança que ela gostaria que nunca crescesse. Era ela quem sempre cuidava das coisas que a pressa e a busca de novidades musicais e literárias e novidades outras sempre me faziam deixá-las “jogadas” no canto da sala ou do quarto. Os irmãos ciumentos – que belo e protetor ciúme! – com o carinho e cuidado especiais que ela tinha (tô sabendo do cacófato) pelo caçula, reclamavam sempre. “Tudo é Beto”, diziam. E ela? A minha mãe não era de falar muito: “Deixe!”. Respondia. Um risco de felicidade cortava-lhe o rosto, e eu ficava mais orgulhoso ainda. E voltava, depois do “deixe!” aí de cima, a cuidar das minhas “coisas jogadas”.
Um dos maiores orgulhos que tenho de ser filho de dona Chiquinha é o fato de ela ter concebido os filhos que queria e eu, cheio de orgulho, os irmãos que desejava! E sem nunca ter aprendido a diferenciar uma letra de outra nos ensinou a conhecer todas as letras desse mundo, infelizmente, um tanto iletrado. Foi talvez por isto mesmo, por não trazer as coisas escritas de fora para dentro, que ela manteve por toda a vida a pureza de uma mãe de interior. Mães são todas iguais? Ora, são todas maravilhosas! Porém, perdoem-me os filhos de outras mães. Mas, filho orgulhoso de Dona Chiquinha, acho que ela foi um belo exemplo para muitas mães que conheço! !
No Dia das Mães, esse do qual falei aí em cima não gostar, uma confissão verdadeira, ela nunca soube que esse fora o dia que os comerciantes escolheram para “homenagear” mães como ela e ficar cada vez mais ricos. Não lhe interessava. Meus presentes, costumava dizer, são os meus filhos, todos com saúde e perto de mim!
A frase me pegava de jeito. E por muito tempo, por mais que tentasse não saía - e continua - da minha cabeça. Sabia que os filhos não tinham condição de presenteá-la à moda do dia. Então, por que deixá-los com aquele sentimento de culpa que esse dia sempre deixa nas cabeças dos filhos que não podem presentear as suas mães?! Ora, para Dona Chiquinha, a minha mãe, se naqueles tempos todo dia era dia de índio, também, todo dia, era dia de mãe! E estava certa.
Lembro que um dia o meu pai resolveu levar a minha mãe ao cinema. O filme era uma mistura de drama de guerra com romance. Na volta para casa, o meu pai que também não era acostumado com a chamada Sétima Arte, contou, sorrindo carinhosamente – nunca havia zombaria em seu sorriso – que a minha mãe tinha escondido o rosto em todas as cenas de “tiroteio”. Não iria mais, disse ela, um filme cheio de brigas e de mortes! Um filme de guerra! Deus a livrasse! Não viu foi nada. Nem queria. Era assim. Notícias sobre a violência entre os homens só no “dramas e comédias da cidade”, programa policial transmitido por uma de nossas rádios, à noite, mostrando o que de ruim aconteceu durante o dia.
Somente anos depois foi que descobri - ouvi entre os irmãos - que o filme a que a minha mãe assistira foi a Balada do Soldado, um filme russo de 1959, dirigido por Gregori Chukhraj. Por ter sido esse o primeiro filme a que a minha mãe assistiu, todas às vezes que assisto ao mesmo, encontro no drama de Aliosha, um jovem soldado condecorado por um ato de heroísmo – destrói, por acaso, dois tanques nazistas -, mas que troca a condecoração por uma semana de licença para visitar a mãe e consertar o telhado de sua casa, lembro da minha mãe no escurinho do cinema, meu pai ao lado, escondendo o rosto entre as mãos a cada bombardeio.
Em poderia escrever mil páginas sobre dona Chiquinha. Mas, vamos e venhamos, seriam desinteressantes para vocês, afinal, as coisas que sei sobre a minha mãe, somente aos filhos interessam. Dizer que a minha mãe vendia flores para ajudar o meu pai a pagar os nossos estudos - e olhem que somente estudamos em escolas públicas; que por ter um “espírito cigano por natureza” vivia a trocar com as colegas biscuit, biombos e coisas outras, ganhando nas trocas muitas vezes e outras vezes perdendo, mas sem nunca se importar, pois o prazer estava no ato da troca; gostava de cantar com a sua voz desafinada – porém bela! - as canções de Seô Lua, como chamava o Rei do Baião, Luiz Gonzaga; ouvir o Menino de Porteira, uma antiga canção caipira de Ted e Luisinho, resumindo todo o sentimento de pena pela história do menino em um simples “tadinho”, e que ainda hoje soa belamente em meus ouvidos... Ah, como são muitas e doces as lembranças de minha mãe! Mas não que a minha mãe fosse diferente das mães de amigos meus, diferença mesmo, a única, é que ela era a minha mãe, não deles!
Mas eu não poderia terminar de contar essas coisas sobre a minha mãe sem lembrar que talvez ela tenha sido a única a ir morar em outra cidade levando consigo a descrença de que o homem, esse ser imperfeito, tenha pisado em uma coisa de Deus. Eu sei o que era “essa coisa de Deus” e vou contar pra vocês. A minha mãe nunca acreditou que o homem tivesse pisado na lua. Em sua inocência e pureza, dizia que ele ia “para o estrangeiro” e boatava que tinha ido à lua! Pausa. Foi embora a minha mãe ainda com medo de botijão de gás e acreditando que a lua era de são Jorge...
Descansa em paz, minha mãe, em breve nos encontraremos...
Em tempo: na minha casa está faltando ela e a saudade dela está doendo em mim...
- .................................................................................................................................................................................
*Humberto de Almeida é escritor.
Capa | Topo
|