Trocar o Hino Nacional pela Aquarela do Brasil?
Fotomontagem: Francci Lunguinho
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Dia desses dei um tempo no meu costumeiro uivo de dor de cão olhando para a lua, como nunca fui de viver ouvindo tango argentino, liguei a velha máquina-toca-vinil, sapequei um velho e sempre bom Ary Barroso e ouvi alguns de seus antológicos sambas verde-e-amarelo. Entre eles, como não poderia deixar de ser, foi o seu indefectível Aquarela do Brasil, aquele do mulato inzoneiro quem chamou, mais uma vez, a minha auditiva atenção (também poderia ter sido o inverso).
Ouvindo o samba do Ary Barroso, considerado por muitos – e por este escriba também – a cara do compositor de Ubá, lembrei nesse mesmo dia que o Armando Nogueira, o mais poético dos nossos comentaristas esportivos, num ufanismo de fazer dó, escrevera que se dependesse dele, o que para a minha felicidade não depende, trocaria o Hino Nacional pela Aquarela. Do Brasil.
Antes, porém, confesso aos poucos leitores - com linhas de antecedência – que nunca fui muito de gostar de samba, não. E no embalo dessa confissão, com a mesma antecedência, para não deixar quaisquer dúvidas quanto ao meu gosto pela dança e a minha sanidade mental, acrescento também que nunca fui ruim da cabeça nem doente do pé. Com um certo prazer confesso que escuto alguns velhos sambas do Chico Buarque e Noel Rosa. Chego até a cantarolar uns pedacinhos. Mas, com todo o respeito ao bom Armando, por mais respeitado e cantado que seja ainda hoje em todo o mundo, um de seus argumentos para a infeliz troca, cem Aquarelas do Brasil não valem um Hino Nacional.
E não me venham acusar de patriotada. Nunca me refugiei no patriotismo nem tive vocação para canalha. A música de Francisco Manuel da Silva é bonita mesmo. E a letra de Osório Duque Estrada, apesar de difícil, cheia de emboscadas em sua interpretação, as suas cacofonias, me dizem mais do que a do Brasil inzoneiro. Agora que a Aquarela do Ary, para este escriba e cão uivador, foi um achado, não tenham dúvida. Nele – e muita gente, essa que não tem vergonha de confessar, também descobriu – descobri que inzoneiro era uma palavra da língua portuguesa. Se é feia? Horrível. E não menos feia – quase escrevo “horrível” - aprendi também que nessa mesma inculta e bela existe a palavra merencória. Se são (olha a cacofonia aí, gente!) palavras feias? Volto a perguntar. Feias, não, horríveis, respondo? Horríveis e nada poéticas.
Não falo – seria chover no molhado, cair no lugar comum – nem falarei sobre o seu coqueiro que dá coco que é feio – o coqueiro dá côco, não – e não dá para ouvir muitas vezes. Nem a burrice do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) do Estado Novo (novo?) de Getúlio Vargas, censurando o verso terra do samba e do pandeiro por considerá-lo (haja besteira!) depreciativo ao Brasil Brasileiro, me despertou na peça maior atenção. Usar, porém, merencória, inzoneiro e – quase que esqueço! – trigueiro, essas três palavras feias e quase desconhecidas, em uma só composição, merece pelo menos um prêmio: o de estimular o conhecimento da língua pátria. Agora, compará-la ao Hino Nacional... Calma com o andor, seu Armando, deixa o santo curtir a paisagem!
P.S: merencória é melancólica; trigueiro é moreno e inzoneiro, apesar de também significar mexeriqueiro, intrigante, mentiroso, sonso, é usado, também corretamente, na música de Ary, como manhoso.
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*Humberto de Almeida é escritor.
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