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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 19 DE ABRIL DE 2007

O dia em que Angela Rô Rô veio à Parahyba!

A história, verdadeira, se a memória não me falha,  aconteceu lá pelo  finalzinho dos anos noventa. A Província das Acácias, como costumo chamar, carinhosamente, a capital da Parahyba, assim mesmo, com “hy”,   pois acho, graficamente,  muito mais bonito escrever  e ver escrito, vivia uma fase de um bar musical em cada esquina e em cada esquina um musical, que sempre acabava  em um bar.  Pois bem.

A cantora Ângela Rô Rô, contratada para apresentar os seus sucessos nesta terrinha pela qual morro de amores e, todas as vezes que ressuscito,  volto a morrer, livre e espontaneamente, outras vezes,  estava mais neurótica do que nunca. A sua  ansiedade estava  visível nos olhos, sempre abertos à procura do nada, e  nos  gestos,  nada ensaiados,  de quem procurava segurar alguma coisa. Um cigarro. Um copo. Uma  garrafa de uísque. Um “remédio” desses.

Eu não conhecia Ângela Rô Rô  e, ainda hoje, por mais que busque na cabeça a sua imagem cambaleante e o andar de quem sempre está atrasado,  sorriso grave e rouco e feio – ninguém  nunca se refere a ele assim  -, se a encontrasse não reconheceria.  Lembro que foi  uma ou  duas  vezes.  Lembro mais:  em uma delas, a primeira, a lembrança  que ficou foi de uma pessoa apresentando os típicos  sinais de quem  sofria de afasia.  Muitos gestos e expressões faciais  e poucas frases compreensíveis.

Ela tinha (nada a ver com uma lata pequena, mas um belo exemplo de cacofonia) vindo a esta ótima terra, que, como vocês podem ver, sendo ótima, será sempre melhor que aquela outra conhecida por ser boa,   para cantar  sucessos que começavam  a cair na boca do povo e, por tabela, na do mundo.  Este escriba, na época, escrevendo e  compondo  e dirigindo o show “Concerto em Dor Maior”, do saudoso e bom grupo musical Ave-Viola, gostava e muito de ouvi-la “queimando”  a sua dor e irreverência em sua bela  “fogueira”.  Ele gostava muito  – e ainda gosta  – daquele seu “jeito meio masoquista” de gritar  “Deixa eu cantar/Aquela velha história, o amor/Deixa penar/ A liberdade está também na dor!”

Nos dias que  passou por aqui, pois, se disse (cacófato, não?)  dias, foi porque ela chegou antes do dia marcado e partiu, sem fazer nenhum  outro show, dias depois, Ângela Rô Rô, como sempre,  cantou pouco, fumou muito e bebeu mais ainda. E, como não poderia deixar de ser, uma vez que não sendo assim não seria a Ângela Rô Rô que todo mundo esperava,  fez os seus escândalos.

Em um barzinho da nossa orla marítima, mas, especificamente, em Tambaú, praia que um compositor local,  forçando a barra, rimou com um  “azul” esticado,  depois de quase um litro de uísque – Cavalo Branco – na cabeça, Ângela gritou para que todo mundo ouvisse que “calçava 36, mas era o maior sapatão desse país”,  e chorou; que a sua angústia era a herança maior que deixaria  para as suas mulheres  e, super-bêbada,  citando o Antonio Maria,  confessou que  “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém  me chamar de meu amor”, chorando mais ainda. Lembro que também quase chorei.

No outro dia, depois da nada angélica fossa da Ângela Rô Rô,  encontrando    o colega  compositor e cantor paraibano que lhe  servira  de cicerone em seus dias pessoenses, presente no famigerado barzinho,  recebi  a notícia de que os “escândalos” da artista não tinham ficado por ali.   Naquela mesma noite ela foi a sua casa, apertou o botão da cigarra várias vezes, e, como a cigarra, desligada, não cantou, somente angústia,  cantou a sua “dor maior”:  “Eu quero mato! Eu quero ou mato! Socorram-me com um matinho, pelo amor de Deus!”

Para a  felicidade de ambos,  a dele em especial,  o  seu pai,  um   militar que  hoje ainda faz questão de afixar na  parede do quarto que dorme uma fotografia do Duque de Caxias e, todas as  manhãs, dispensa a bênção em troca de uma continência,  uma pedra quando dorme, não ouviu.  Pois aquele “mato”, como muitos sabem e poucos desconfiam, era fumo mesmo. Embriagada de uísque  – nunca vi alguém beber tanto! -, depois de afirmar várias vezes que “era fogo”,  para provar o que dizia, Ângela  queria   “soltar fumaça”.

Ah, confesso que nunca fui um sujeito auto-destrutivo. Nunca, antropofagicamente, pensei em rasgar o próprio peito e destruir-me de dentro para fora.  Sempre fui um fã da “maldita” Ângela Rô Rô.  Mas, em seu caso,  não sendo assim, apesar de torcer pela sua “recuperação”, ela  continuará uma  desconhecida para este escriba.  Sei, não. Um  dia, quem sabe, a gente se encontra e este escriba, finalmente, possa conhecer Ângela Rô Rô ?  Bons tempos, aqueles. E botem bom nisso.

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    Ehmmeio para esse sujeito do tempo em que um homem para  chamar uma mulher de “mulher-macho,  era preciso  ser  mais macho do que   homem:  1bertodealmeida1@gmail.com ser chamada mulher-macho.


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