O Poder Supremo
Aquelas desventuras todas fizeram-no pensar, por um instante, que estava a viver em uma peça de Ionesco. Absurdo! Paradoxal? Não sabia ao certo, aliás, nem mesmo possuía vocabulário suficiente para definir, precisa ou imprecisamente, o que estava acontecendo. Se é que estava. Quiçá fosse um sonho ou mesmo um delírio de alguma febre terçã que o acometera sem que se desse conta. Talvez um filme de Pasolini... De fato, não sabia. Mas dores das pancadas e murros, mais que rapidamente, trouxeram-no de volta à abjeta realidade. Aqueles homens, supostos agentes da lei, tão diligentes em servir e, quando possível, proteger, mantinham-no algemado, nu, com a cara colada ao solo, sendo esmagada sob o peso de um coturno mal engraxado e de baixa qualidade, enquanto outros chutavam-no o ventre ou batiam em suas coxas, tudo para que não se deixassem marcas.
O que estaria acontecendo? Ninguém se identificara. Ouvira duas batidas secas e um estrondo, após o qual pusera-se de pé, sobressaltado. Fora, assim, subjugado no corredor, chegando à sala, por homens que berravam e, por isso mesmo, não se faziam entender. Tampouco o deixaram falar. Derrubaram-no e, depois de despi-lo, algemaram-no, apertando o ferro sobremaneira. Uns matungos, pensara logo. Que barbaridade! A agonia só aumentava. Ao fundo, ouvia o barulho de coisas rompendo-se e, por isso, sabia que lhe estava a vasculhar a casa, a violar-lhe a intimidade. Vergonha suprema, pôde vislumbrar alguns vizinhos no desvão da porta; não ousavam cruzar os umbrais, porquanto criam ali ser algo como uma fronteira etérea e não marcada entre o opróbrio e a decência. O ser humano é assim mesmo, repele instintivamente a anormalidade, tem-lhe medo. Isto, contudo, não o impede ser curioso. E, por conseguinte, os condôminos à sua porta amontoavam-se por uma nesga de visão, certamente atraídos pela curiosidade mórbida, pela desgraça alheia. Já podia imaginar as fofocas e comentários desagradáveis e maledicentes. Subitamente, uma dor aguda o fez urrar de dor Haviam-lhe chutado as genitais. Distinguiu uns gritos de “fala” e “conta logo”, entremeados de impropérios e xingamentos de corar estivador. Mas, desesperava-se, contar o quê? Falar o quê? Do que era acusado? Estava atônito e perplexo. Ele era um autêntico espécime de um animal em extinção: o cidadão exemplar. Nem mesmo ultrapassava sinal vermelho após 23 horas. Era um erro, estava certo disso, porém não o deixavam falar. E, ao fundo, podia ouvir o barulho das louças e cristais que haviam pertencido à sua avó. Partiam-se e, a despeito de sua situação mais que kafkiana, ele sentia muito por isso. Sentia mesmo que cada caquinho penetrava-lhe a carne e feria-o indelevelmente.
Que miséria, que situação catastrófica. O que podia fazer? O que devia fazer? Seu raciocínio era errático. Sentia medo, isso era certo. Como contorná-lo? Não atinava absolutamente nada. Ao longe, muito longe mesmo, distinguia música. Sim, música. Afinal, o mundo continuava girar, as pessoas a trabalhar e assim ia. Logo, havia música. Maria, então, lá ia com sua lata d’água e alguém, morrendo de saudade, via o Redentor com os braços abertos sobre a Guanabara. Rememorava sua vida enquanto estava ali enrodilhado e humilhado. Fora um estudante razoável em algumas matérias e brilhante em outras, todavia, ao chegar à faculdade, tivera uma carreira acadêmica invejável e, mesmo, pujante, com um dos coeficientes de rendimento mais altos da UFRJ. Viera de família de classe média-alta, todos de um excelente nível cultural. Todos, como ele, engenheiros. Trabalhava para uma grande multinacional petroleira, com salário razoável, estabilidade e solidez. Aquele imbróglio poder-lhe-ia custar o emprego, porque sua companhia não tolerava escândalos, seguia à risca a história da mulher de César: não basta ser honesta, tem de parecer. Efetivamente nunca fizera nada de reprovável, à parte seu primeiro casamento com uma megera que o atormentara por quatro anos até o dia em que ele cansara-se e mandara-a às favas. Por isso aquilo feria-lhe o âmago. Pensava em como encararia os vizinhos e conhecidos do bairro. De quando em quando, seus devaneios eram interrompidos por uma dor lancinante: era uma nova sessão de golpes.
Pôs-se a pensar, aplacada a fúria pugilística de um dos atacantes, na ínfima importância que sua vida tinha para aqueles perpetradores do mal. Uns pareciam-lhe soldados da Polícia Militar. Outros, à paisana, talvez fossem da Civil. Só enxergava borrões, de todas as formas e cores, pois eis que lhe haviam estraçalhado os óculos logo no primeiro tapa que lhe desferiram no rosto. De qualquer forma, seus problemas passaram a ser de natureza diversa quando se lembrou do dinheiro que tinha guardado em uma das gavetas do armário e que serviria para pagar a diferença do carro novo que estava comprando. Já o supunha perdido, como também perdidos estavam, embora ele ainda não soubesse, seus relógios que ficavam em uma cômoda sob a televisão do quarto. Um vivaldino já os pusera para sempre fora de alcance, tendo-os dado a outro PM, dentro de uma mochila que também fora achada ali no quarto, junto com um ou outro pertence que aquele intimorato agente da Lei crera bonito para dar de presente à mulher, à mãe ou à amásia. De repente, nova rodada de dor. Desta vez, no entanto, sentiu como se fossem-lhe furando a pele, seguida de uma profunda ardência. Simples, um sargentão cuja pança impedia-o de ver seus dedos dos pés há alguns qüinqüênios pusera-se a divertir-se a queimá-lo com a ponto do cigarro barato cuja ponta mascava . Cada vez que o cigarro era encostado nele, ouvia a voz incrivelmente fina para um homem tão grande a dizer-lhe que ele soltasse logo a língua, senão aquilo ficaria pior e, como para ilustrar tão fortes linhas, chutava-lhe o traseiro.
Forçou-se a tartamudear que era inocente, que não sabia o que estava se passando. Não pôde nem mesmo concluir a frase, que fora muito mais sussurrada do que falada. Furiosos, os agressores, com uma violência inaudita, golpearam-lhe repetidamente, inclusive na cabeça, com tudo o que lhes caiu nas mãos. Perdeu, então, os sentidos. Uma nuvem negra desceu-lhe sobre os olhos. Nada mais viu, ouviu, sentiu ou percebeu até que lhe foi lançado um balde de água fria, cujo impacto soube-lhe a estacas sendo cravadas. Risos sardônicos puderam ser ouvidos. Inopinadamente, ouviu uma voz que acreditou ser de um seu cunhado, advogado de sucesso, mas não podia dizer ao certo. Até mesmo porque, diante daquelas circunstâncias, poderia ser uma ilusão ou delírio e, assim, não queria alimentar falsas esperanças. A bem da verdade, já as perdera em pouquíssimo tempo. Ele ainda não sabia, mas já se haviam passado quatro horas. O fato é que, após ter ouvido aquela voz que lhe parecia familiar, os golpes haviam cessado e um silêncio quase sepulcral envolvia o lugar. A atmosfera, tão tensa e espessa que era possível ser tocada, era de consternação e ele sentira-o imediatamente, desfalecendo, em seguida, de exaustão.
Um lençol fora-lhe posto sobre o corpo enquanto estivera desacordado. Seu primeiro reflexo foi puxá-lo por sobre a cabeça. Na certa, pensou, morrera, quase sorrindo ao perceber o ridículo daquela conclusão. Viu que estava sobre o sofá da sala e sentiu a maciez de uma mão a acarinhar-lhe o cabelo empapado em sangue. Tentou soerguer-se e não conseguiu, desabando de volta e escorregando para o chão. Várias mãos ampararam-no. Reconheceu a irmã, que lhe abraçava e dizia para se acalmar, que tudo acabara, que fora um erro. Conseguiu, então, chorar. E convulsivamente. Enquanto aguardava a ambulância que estava a caminho, sua irmã contou-lhe que uma vizinha telefonara para ela e informara que a polícia tinha-lhe invadido o apartamento e que lhe espancava de modo covarde. Ela e seu cunhado acorreram em seu socorro, tendo os policiais, após as grosserias de costume quando este se identificara como advogado, explicado que eles estavam atrás daquele elemento há meses, que ele era o estuprador que estava a aterrorizar as crianças da área. O policial informou que ali haviam chegado por conta de uma carta, uma denúncia anônima. E mostrou-lhe o papel. Seu cunhado reconhecera a letra da ex-mulher, a qual conhecia por ocasião do ruidoso divórcio, que também fora entremeado daquele tipo de mesquinharia e abjeção. O quão longe ela chegara! Como seu cunhado convencera os policiais do equívoco, ele não sabia. Só sabia que muita coisa em sua casa estava quebrada; outras tantas, desaparecidas. O pior de tudo: quando fora posto em uma maca e estavam-no levando para o hospital, um tenente da PM pôs-lhe a mão no ombro e, displicentemente, enquanto se afastava, disse-lhe “foi mal”.
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