Intolerância ou Manifesto Pelo Direito de Ser Eu
03|07|07 • Só escrevo a tinta. Sim, parece paradoxal que alguém o faça no século XXI – ou no século LVIII, dependendo do calendário que você siga -, e quiçá o seja, mas o fato é que só uso canetas-tinteiro ou, dependendo do caso, penas. Sigo o inelutável e delicioso ritual de molhá-la na tinta, sacudir levemente o excesso e deslizá-la pelo papel. O arranhar da pena no papel é uma música maravilhosa. Implica dizer perenidade. Parece engraçado esse ritual? Que seja. Dele não abro mão. Por que o sigo? Dá-me prazer sobremaneira. E ante o riso de alguns que me crerão excêntrico, afirmo que não trocarei minha Montblanc Masterpiece 1939 que pertenceu a meu avô ou minhas Parker 1951 por nada (sem falar nas minhas penas de ganso ou aquelas ponteiras de prata para escrita, com todos os petrechos qui vont avec). Quer outra? Só uso relógios de bolso, com corrente e tudo. Amo dar-lhes corda e prendê-los ao colete ou ao paletó. Anacronismo, bradarão uns. Minha escolha, redargüirei. A tecnologia é boa. Por isso mesmo uso o que gosto e quando me convém.
Por que estou a falar de canetas e relógios se propusera-me a discorrer sobre intolerância? Justamente porque uma das maiores características da natureza humana é projetar sobre tudo e sobre todas as nossas mais íntimas convicções. Se alguém ousa discordar do que uma entidade abstrata chamada mercado (ou média ou televisão ou o que quer que seja ou como queira denominá-la), há que se o considerar louco. Entendeu a razão de eu ter lançado mão da metáfora das canetas e dos relógios? Em tempos de pensamento único, o pensar não é mais necessário. Mascara-se um pseudo-doutrinamento sob uma avassaladora massa de dados e informações que a própria fonte faz questão de martelar que o “homem médio não processará”. De antemão já lhe impingiram a pecha de néscio e você aceita-a impassível. Isso tudo porque a idéia é justamente essa, isto é, não se quer que você raciocine. Quer-se, no máximo, que você consuma e delegue a outros o pensar e o gerir. O problema maior, essencialmente, é que se o faz a qualquer um. E assim, tristemente, passamos por um período de estiagem cerebral e de aridez intelectual onde a mediocridade é largamente recompensada e ninguém mais lê sob a desculpa de não mais ter tempo.
Sinto-me um Capitão Ahab. Essa geração medíocre transtorna-me e agasta-me. Você não sabe quem foi o Capitão Ahab? Pois bem, você é mais uma prova do que eu digo. E será você, com seus escassos conhecimentos, que quererá julgar-me porque eu repilo os lugares comuns que nos são impingidos? Será você que chamará de reacionário quando eu disser que a extrema esquerda é tão perigosa e tão destrutiva quanto a extrema direita? Será você que me apontará seu engordurado dedo acusador quando eu disser que é um absurdo tecer loas ao “Capitão” Lamarca, um criminoso tanto quanto os malditos torturadores que serviam o regime? Com que direito você fará isso? Aliás, você só o fará porque outros medíocres mandaram que você o fizesse. Agora, por favor e por caridade, por que você permite que lhe utilizem assim? Acaso não tem brio ou terá você faltado à distribuição de senso? Por Deus, use a sua massa cinzenta! Leia, analise, reflita, questione e reaja. Não me queira mal, eu sei que a verdade incomoda. O laxismo e a apatia levaram o mundo à encruzilhada em que se encontra no momento. Foi o baixar a cabeça à unanimidade burra que permitiu a instalação em Brasília da cleptocracia ora no poder, com seus sátrapas e áulicos roubando despudoradamente enquanto torcem para que você não desperte.
Ninguém é obrigado a aceitar nada. Muito menos o que escrevi acima. Seja, entretanto, indulgente comigo e reconheça, sinceramente, que você pensa e questiona muito pouco, menos do que devia. Não aceite gratuitamente opiniões pró ou contra sem que você saiba o partido que está a tomar. Senão, em razão desta ótica míope, terminará a apoiar ditaduras ou arremedos como Irã, Cuba ou Venezuela, escandindo slogans pueris contra a democracia ou a liberdade de pensamento. Não peço muito, apenas que você faça aquilo que o diferencia das toupeiras e das antas: pense. Do contrário, de tanto crer, terminará como Boxer, vendido à fábrica de carne, traído pelos seus “líderes”. Também não sabe a que me refiro? Lamentável, mas eu já esperava. Ah, frívolo Basílio! Ah, pobre Eugênio, sua insegurança o faz efêmero.
Como cortar o nó górdio? Ser autêntico nos atos e opiniões. Ser justo consigo mesmo e, sobretudo, conceder a todos o direito inalienável de discordar e de ser livre. Macaquear despudoradamente e ser escravo de tendências e modas ridículas ou desmoralizantes apenas porque a televisão assim lhe disse é a quintessência da estupidez. Seja menos Monsieur Jourdain e mais Jean Macquart.
Compreendeu o que, humildemente, lhe peço? Tenho fé que sim. Possivelmente se estará a perguntar quem é Ahab, Boxer, Basílio, Eugênio, Jourdain e Jean. E dói-me um pouco ter de explicar-lhe, porque demonstra que você está passando muito tempo com o Antenor, com o Paulo Coelho, com a Íris e o Alemão (estes, miseravelmente, você conhece-os, não é?). Fuja deles, por amor a você mesmo, porque deles não sairá qualquer bem. Procure saber quem são Ahab e companhia. Dou-lhe uma dica: Moby Dick, de Herman Melville, Animal Farm (1), de George Orwell, Le Bourgeois Gentilhomme (2), de Molière, O Primo Basílio, de Eça de Queirós, Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo, e Les Rougon-Macquart (3) (volumes La Terre e La Débâcle), de Émile Zola.
Não me queira mal, insisto. Contar-lhe-ei uma pequena história final, tirada do Talmude. Um velho e sábio rabino, preocupado com os habitantes de sua cidade, punha-se, toda quinta-feira, dia de mercado e movimento, sobre um caixote e falava, o dia todo para uma quase inexistente audiência. A despeito das belas palavras e necessárias lições do ancião, poucos paravam para ouvi-lo e, dessa maneira, seguiam seus cotidianos. Após meses, um discípulo do rabino tomou coragem e indagou ao mestre a razão dele insistir naquilo se viv’alma o ouvia. O idoso hassídico, altaneiramente, respondeu que se ele parasse, teriam sido eles, os ímpios, que o teriam mudado. Eis porque continuo. As minhas palavras de hoje foram duras, bem sei. Todavia, uma firme sacudidela é de rigor e profilática. Vá e reflita. Agora, dê-me licença. Tenho de abastecer minha caneta, dar corda em meus relógios, digitar o texto, ler meus e-mails, ler uns jornais, fazer uns apontamentos, terminar o livro que estou a ler, assistir a "Os Simpsons” e brincar no Orkut.
1. A Revolução dos Bichos, em Português, na tradução brasileira.
2. O Burguês Fidalgo, na tradução brasileira.
3. Os Rougon-Macquart, A história de Uma Família durante o Segundo Império. Vinte obras que contam a saga desta família no período de governo em França de Napoleão III. As obras em que aparece Jean são A Terra e A Derrota
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