SEMPER FIDELITAS
07|05|07 • O Imperador quase não escondia o desconforto em receber seu primo, o Arquiduque Maximiliano de Habsburgo, cujo navio seguia para o México, onde assumiria o trono. Sim, Napoleão III, Imperador da França, impusera aos mexicanos um monarca, após ter invadido aquele país por conta de dívidas não pagas do governo mexicano com banqueiros franceses. Era uma aventura que o Imperador do Brasil via com ceticismo e sobre a qual tecera uma dura crítica que quase estremecera as relações com a França e com a Áustria, cujo Imperador não endossava a expedição, mas tampouco pusera reservas. Pedro II, no entanto, temia pela vida de seu primo que fora convencido à aventura pelos ofícios do Conde Walewski, ministro de Napoleão III e filho ilegítimo de Napoleão I, O Grande. Para o povo da Corte, porém, essas altas considerações políticas pouco interessavam. O fato é que o Rio de Janeiro estava engalanado para a recepção. A fragata da Marinha Francesa entrava na Guanabara e fora recebida por salvas dos navios da Marinha Imperial Brasileira, sendo que as fragatas Bagé e Minas Gerais acompanhavam o navio que trazia o Arquiduque desde a entrada deste nas águas brasileiras, na altura do litoral de Pernambuco. Os tiros tiraram o Imperador de seus pensamentos. Pedro II levantou-se e foi até a janela do Paço, as autoridades já se perfilavam, os Dragões Imperiais já estavam a postos e os escaleres que traziam o Arquiduque Maximiliano, a Arquiduquesa Charlotte, sua esposa e filha do Rei da Bélgica, e todo seu entourage aproximavam-se do cais. O Mordomo-mor da Casa Imperial, então, avisou ao Monarca que chegara a hora de ir receber.
Quando o Imperador chegou ao cais, acompanhado de D. Teresa Cristina, a Imperatriz, o Marquês do Paraná e o Visconde de Cairu já o esperavam, assim como todo o ministério, corpo diplomático e a Corte. O Arquiduque subiu os degraus e, a passos largos, dirigiu-se ao primo, que nunca vira pessoalmente. Mas não foi difícil reconhecê-lo, não porque o Imperador ocupava lugar de destaque ou em razão do uniforme de Almirante da Marinha Imperial que usava, mas sim porque o Imperador do Brasil e o futuro Imperador do México eram idênticos, pareciam irmãos gêmeos. Os mesmos cabelos castanhos claríssimos, quase louros, os mesmos olhos azuis melancólicos, as mesmas barbas patriarcais para darem-lhes um ar de mais velhos e a mesma idade. Os primos abraçaram-se longamente, enquanto a Imperatriz recebia das mãos da Arquiduquesa Charlotte uma pequena caixa contendo um valiosíssimo colar de rubis e diamantes, presente da Rainha da Bélgica, e outra, duas vezes maior, contendo um colar de safiras, diamantes e topázios, presente da Imperatriz da França.
A fanfarra dos Fuzileiros Imperiais, que tocava marchas militares, parou um instante. O Almirante Tamandaré aproximou-se do Imperador e entregou-lhe a medalha da Ordem Imperial da Rosa com a qual o Imperador, por decreto, agraciara o primo. Após a condecoração, foi executado o Hino Imperial Brasileiro. O Imperador pessoalmente ordenara que não se executasse qualquer outro hino, porque queria evitar incidentes, mas não pôde deixar de pensar se o primo conhecia o hino do país sobre o qual reinaria. Pedro II estava impaciente. Queria que toda aquela recepção findasse logo para poder conversar a sós com o primo. Queria demovê-lo da idéia, pois sabia que tal aventura teria um fim trágico. Ao mesmo tempo tinha consciência de que seria praticamente impossível que toda aquela gigantesca máquina posta em movimento pudesse ser tão facilmente revertida. Todo o peso da França estava no processo e pelas cartas que trocavam, o Imperador sabia que seu primo fora inteiramente convencido da correição do projeto. O Imperador tinha pouco tempo para isso, porque à noite haveria um baile de gala e os dias seguintes estavam todos tomados por visitas, inaugurações, almoços e jantares de cerimônia. Bem, pelo menos aquilo tudo seria uma distração das preocupações com Solano Lopez e a crise que se avizinhava no Prata.
Em verdade, o Imperador do Brasil não era íntimo de seu primo, que blasonava o tempo todo e que, no landau que os transportava pela Rua Direita em direção ao Palácio de São Cristóvão, não parava de depreciar o que via. Enquanto o arquiduque, futuro Imperador do México, pavoneava-se diante da multidão que enchia as ruas da capital, Pedro II acenava distraidamente ao povo. Aquela interferência de potências européias em países americanos preocupava-lhe deveras. O Brasil era muito grande e pouquíssimo povoado. Contava apenas com treze milhões de habitantes concentrados quase todos na faixa litorânea. A nossa maior proteção, todavia, era, justamente, o Imperador. O seu parentesco com as casas européias garantia-lhe posição de destaque. Tanto que fora avisado pela chancelaria da França da intervenção Franco-anglo-espanhola no México que resultou na instalação de seu primo no trono mexicano. Pedro II tentara obtemperar, dissera ao Conde Walewski, ministro de Napoleão III, que tudo estaria fadado ao fracasso e que era um erro muito sério desprezar a têmpera dos mexicanos. Nenhum povo admitiria ser posto diante de um fait accompli.
Chegando à Quinta da Boa Vista, os dois primos trancaram-se no gabinete de trabalho do Imperador. Dona Teresa Cristina e a Charlotte encontrá-los-iam ao almoço, eis que tinham ido visitar algumas obras de assistência. Assim que se viram sós, antes mesmo que Sua Majestade falasse, Maximiliano fechou-se em um hermetismo temeroso. O Arquiduque não era intelectualmente páreo ao primo e, por isso, fora orientado pelo Imperador da França e pelo Quai d’Orsay a evitar o tête-à-tête. Os franceses, justificadamente, receavam que o Imperador do Brasil convencesse o Arquiduque Maximiliano a desistir. E, de fato, era essa a intenção do monarca brasileiro. Quando a diplomacia francesa pensara na viagem, queria legitimar a pretensão e ver o designado futuro monarca “mexicano” ser recebido e aclamado como par pelo Imperador do Brasil.
O ambiente na sala, porém, estava muito pesado e denso. A conversa, em francês, começara mal, porque Maximiliano, atabalhoadamente, perguntara se Pedro II já preparara o decreto de reconhecimento do novo regime mexicano. Nosso Imperador, com uma perceptível ponta de irritação, redargüira, sarcástico, que, de fato, o poder já subira à cabeça do primo, eis que, não contente de ir brincar de Imperador do México, ainda queria ser Regente do Brasil. E terminou a comunicar ao inconseqüente Habsburgo que o Brasil não se pronunciaria contra todo o projeto, mas tampouco o aprovaria. Prosseguiu a enumerar quase uma dezena de razões para que o primo renunciasse à aventura, inclusive a mostrar ao primo que ele estava servindo de joguete nas mãos de Napoleão III e do general Juan Almonte, conservador mexicano que aspirava ao poder, mas desistiu logo, porque vira que nada o demoveria. Limitou-se, então, a lamentar e a oferecer asilo ao primo caso algo desse errado.
A visita transcorreu sem quaisquer incidentes. Houve bailes, festas e o clima no Rio de Janeiro, magnífico, ajudou os dias a passarem rápido, cercados de conversas amenas e visitas a pontos turísticos que ressaltavam a beleza tropical, tendo encantado o casal a refeição preparada em meio à floresta da Tijuca. O Imperador do Brasil divertiu-se a mostrar ao primo sua coleção de quadros de mestres italianos e flamengos dos séculos XVI e XVII, bem como sua admirável coleção de livros raros, incluindo uma das Bíblias de Gutemberg originais!
A visita, entretanto, chegou ao fim. A fragata francesa que conduziria o Arquiduque Maximiliano esperava para zarpar, engalanada com as armas e cores da França e do México. Os navios brasileiros Bahia e Grão-Pará acompanhá-lo-iam até a altura da Guiana Francesa, onde seriam rendidos por uma escolta de doze navios de guerra franceses. O Cais Pharoux estava lotado. Quando os dois primos saíram do Paço Imperial, o Arquiduque estava trajado de Coronel do Exército Imperial do Brasil, enquanto nosso Imperador estava trajado com farda de Almirante da Marinha Imperial, sua preferida, de um branco imaculado. A multidão aplaudia os dois, tendo, os mais afoitos, gritado Viva o Imperador quando o Arquiduque Maximiliano despontou na porta, tal era a semelhança física dos dois primos. Antes de embarcar no escaler, os dois primos trocaram um olhar cúmplice.
De volta ao Palácio de São Cristóvão, o Imperador e a Imperatriz conversavam. Pedro II sentia-se tomado pelos acontecimentos, e, enquanto acarinhava a cabeça da filha, Isabel, Princesa Imperial, chegou a comentar que Maximiliano fora cegado pela perspectiva de poder, mas, sobretudo, queria provar ao irmão, Francisco José, Imperador da Áustria, que não dependia dele para nada e que não era o bon vivant que todos achavam, nem que isso custasse-lhe a cabeça.
No dia 28 de maio de 1864, Maximiliano desembarcou no porto de Vera Cruz, no México, e, tornando-se Maximiliano I, iniciou seu arremedo de governo, que só funcionava naqueles pontos do território onde estavam estacionadas as guarnições francesas, em meio a uma guerra civil. O líder patriota e presidente reconhecido pelos mexicanos, Benito Juárez, apoiado pelo povo e pela burguesia, foi acumulando vitória sobre vitória. Maximiliano, com pouco apoio e sem recursos, brigou com o Marechal francês Bazaine, comandante da Força Francesa. Em conseqüência, as tropas francesas retiraram-se do México. Isolado, Maximiliano foi derrotado e preso, sendo fuzilado em Querétaro, em 19 de junho de 1867.
O Imperador Pedro II estava em uma reunião do Conselho de Ministros, no dia 23 de junho, a discutir a guerra contra Solano Lopez, que já durava dois anos e meio, quando foi interrompido pela inopinada entrada de um contínuo do Ministério dos Negócios Estrangeiros com um telegrama que acabara de chegar da legação brasileira em Paris. O contínuo entregou-o diretamente ao Imperador, apesar dos olhares furibundos do ministro da pasta, Antônio Coelho de Sá e Albuquerque. O telegrama comunicava ao Monarca brasileiro o desfecho trágico de seu primo. O Imperador, entristecido, mandou que entregassem o telegrama à Imperatriz, tendo, porém, rascunhado um bilhete que dizia: “eu bem que avisei. Mande rezar uma missa por sua alma”.
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