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*Este autor escreve neste espaço às segundas-feiras
 

A Batalha pelo Silêncio

23|04|07 • Miseravelmente, o Rio de Janeiro está a milênios de distância de qualquer coisa o mais remotamente próximo à civilização. E não se trata apenas da violência que nos ceifa vidas tão preciosas e que faz apressar o declínio econômico da outrora pujante Guanabara; tampouco a questão resume-se à carência de estrutura urbana, à sujeira endêmica das ruas ou ao abandono da coisa pública. É, infelizmente, inato aos brasileiros em geral, mas que tem no carioca a quintessência: o desprezo pelo silêncio e o amor ao barulho. Dane-se o próximo!

Com efeito, são festas de rap ou funk a singrar a noite, martelando a cabeça dos pobres coitados que, em arroubo de petulância e ignorância, desejam dormir ou descansar em suas casas. É um inimigo potente, de muitos quilowatts. Não adianta as inúteis barricadas, pois a infiltração ocorre pelas frestas das janelas e a vibração acomete os prédios como em um terremoto de decibéis.  São acordes de mau axé e de arremedo de pagode. Não que a música seja de todo má – embora considerável parcela das assim ditas canções não mereça ser classificada como músicas -, mas ocorre que os “intérpretes” são sofríveis e os “músicos”, lastimáveis. Desse modo, para tentar fazer-nos não notar suas respectivas incompetências, põem-se a gritar nos microfones e ativam no máximo volume suas portentosas aparelhagens sonoras. Criam uma tal balbúrdia que amortecem os sentidos, liqüefazendo o pouco de massa encefálica que têm (em tese) os seus ouvintes.

É uma tragédia, de fato. O cidadão está dentro de casa e vê-se levado de roldão. Aquele barulho infernal o ataca à noite ou nas tardes de final de semana, ao arrepio de qualquer regra ou lei. Ora, no Rio, lei é coisa de otário e civilidade é noção desconhecida até mesmo pelos dicionários. E tomem-se reclamações às autoridades. Para quê? Quase nunca adianta. Alguns estabelecimentos até chegam a ser fechados, mas toma tanto tempo para se lograr tão ínfimo êxito que houve suficientes oportunidades para a desesperada vítima da carioquíssima má-educação cortar os pulsos.  E o carioca ainda, paradoxalmente, diz-se na cidade maravilhosa! Maravilhosa desde quando, cara-pálida?  

Permitam-me defender causa própria. Próximo à minha residência há um restaurante chamado Baobá. Ele fica na rua Soriano de Souza e, há algum tempo, passou a oferecer “música ao vivo”. As tardes de sábado, então, tornaram-se pontilhadas por um ensurdecedor barulho de levantar defunto. Aquela bagunça atrai mais fregueses, disseram-me uns. Parece que a turma gosta de comer com alguém lhes marretando a cuca. Quiçá seja o álcool que lhes amortece os sentidos. De qualquer maneira, danem-se os vizinhos, aí incluído o intimorato que lhes escreve, obrigados a partilhar do duvidoso gosto musical do ganancioso proprietário. É esse mesmo proprietário, destruidor despudorado da tranqüilidade alheia, que bradará contra a indisciplina do carioca quando ele encontrar um esperto que estacionou em frente à sua garagem. No entanto, ele não hesita em violar a lei também, afinal, o inferno são os outros.

O nível de desenvolvimento e civilização mede-se pelo respeito aos cidadãos e pelo apreço ao silêncio. Logo, o Rio de Janeiro está lá na rabeira, alguma coisa assim entre o Inferno e Gomorra. E que pretensões pode ter uma cidade que, ao lado de seus valões e línguas negras, sofre com o cancro da tresloucada predileção pela balbúrdia? Todos têm o direito (aliás, o dever) de se divertir. O que não se pode admitir, contudo, é que se o faça às expensas dos demais. Mas é esse, justamente, o caso! Como é possível clamar por ordem ou por uma mudança social se, em sua gênese, a dita boa sociedade não vê mal em promover festinhas até altas horas da madrugada? Azar do infeliz que vive no andar de baixo, condenado a sofrer com o tropel de elefantes dançando, berrando, bramindo, bramando e pulando sobre sua cabeça.

Não me lembro quem, com ar resignado, aconselhou-me a não me amofinar. Acho, até, que foram vários os que me disseram que de nada adiantaria. Não arrefeço, digo desde já, porque, senão, terão sido eles, os errados, que obtiveram êxito em mudar-me. O que me deixa perplexo é a passividade da sociedade ante a este problema crônico e degenerativo do tecido social urbano. No entanto, parafraseando cronista célebre, o barulho não é negação do silêncio, já que há silêncios eloqüentes e, em nosso caso, o barulho é vão, como vã é a esperança de ver nossa cidade evoluir e desenvolver-se, até mesmo porque, como construir o porvir de uma cidade cuja mentalidade coletiva é tão involuída?  

Como em tantos outros casos, já está mais que evidente a necessidade irretorquível de uma mudança. E, ao contrário de tantos outros casos, a solução desse é fácil: basta que se cumpram as posturas existentes! Basta – e aí reside a grande dificuldade – que a sociedade abandone seu laxismo. Basta que se combata a impunidade e o sentimento de que residimos em terra de ninguém. Alvíssaras quando se compreender que o interesse de uns poucos não pode sobrepujar os direitos de muitos, mas, por uma inversão de valores tão típica das terras guanabarinas, é o que amiúde, hoje e há muito, tem lugar.

Barulho, desrespeito, sujeira, zoonoses, violência, trânsito caótico, infra-estrutura depauperada. Ou passaram os últimos quatrocentos e quarenta e dois anos enganando-nos acerca desta ser a Cidade Maravilhosa ou, por um incrível caso de inconsciência coletiva, todos esquecemos o que maravilhosa quer dizer, isto é, aquilo que é admirável, que provoca grande admiração, deslumbramento, fascínio, prazer, que prima pela excelência; o que é primoroso, perfeito, de grande beleza, que tem muitos atrativos e que encerra maravilha ou prodígio, ou que é inexplicável racionalmente... ah, talvez seja isso.

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