Nem todas as verdades devem ser ditas
08|04|07 • As palavras de Monsenhor Castegliani ainda eram absorvidas pela incrédula audiência. Aqueles jovens sacerdotes recém-preparados pelo Sacro Colégio Romano para servirem ao Patriarcado Latino de Jerusalém não estavam, todavia, prontos para aquelas palavras tão fortes. “A hipocrisia, meus filhos, é a homenagem que o vício presta à virtude”, prosseguia o provecto cardeal, “por isso, não se iludam. Roma é o local mais importante e sagrado. Se o crente é católico, Jerusalém será decepcionante. Para nós, o mais premente, digo e repito, é não perdermos terreno para as outras denominações cristãs lá instaladas. O que nos ameaça não é o islã, mas, sim, a Igreja Cristã Ortodoxa. A questão é não perdermos terreno. Como a massa de fiéis é árabe, todas nossas escolhas têm de recair sobre eles, por mais ilógicas que possam parecer”. Um leve sobressalto perpassou pela turma que, vidrada, observava o ínclito sacerdote.
Aos noventa e um anos, aquele piemontês permanecia lúcido e sua veneranda idade só mostrava seu peso em uma leve hesitação ao andar, no que era auxiliado por uma fina bengala de ébano, ricamente trabalhada, com um belo castão de prata, presente do sultão de Brunei, onde servira como núncio apostólico dezoito anos antes. O cardeal muito honrava a Ordem de São Domingos; era um homem cultíssimo, dominando fluentemente oito idiomas, entre eles o hebraico, o árabe e o farsi. Na sua juventude fora um aguerrido opositor ao regime fascista, o que até lhe valera alguns meses encarcerado em Turim. Fora resgatado por um tio com largas conexões que, também, lhe conseguira uma posição na Cúria Romana. Sua inteligência e seu preparo ímpares alçaram-no ao círculo próximo a Pio XII. Desempenhara um papel relevante para a Santa Sé trabalhando na diplomacia papal desde então, servindo como legado do papa em vários países árabes e muçulmanos. Quando foi obrigado a aposentar-se, passou a dar aulas aos jovens seminaristas e padres recém-ordenados que vinham a Roma em busca de alguma luz. Suas posições eram objetivas e, como não tinha qualquer trava na língua, falava em alto e bom som o que a Cúria não gostava de comentar, o que já lhe valera bem mais que caras franzidas e olhares tortos. Fazia-o sempre de coração aberto, sem qualquer reserva mental, o que, por vezes, implicava aborrecimentos sérios, mas nunca arrefecera. Era, sobretudo, um cultuador da verdade. Prosseguia, dessa forma, com seus conselhos e via, com algum divertimento, os olhos arregalados daqueles jovens que o fitavam com um misto de surpresa, admiração e espanto.
“Sim, meus jovens, escolhas ilógicas. O Patriarcado vê-se obrigado a manobras lingüísticas e volteios frasais para não melindrar os fiéis árabes. Assim, embora não concordemos com algumas práticas dos sátrapas locais e de seus sibaritas, somos forçados, para preservar a instituição da Igreja, a fechar os olhos às suas sandices e, até mesmo, apoiar suas diatribes contra Israel. Ora, meus filhos, o advento do Estado de Israel foi a melhor coisa que poderia acontecer na Terra Santa, embora, teologicamente, eu reconheça que a mera existência do Povo Judeu demonstra uma falha em nossa dogmática cristã, pois se eles não reconhecem a verdade do Cristo, quer dizer que falhamos e, quiçá, a verdade esteja com eles”. Ao pronunciar aquelas palavras, o respeitável dignitário eclesiástico sabia que causaria reação forte. E, efetivamente, dessa forma ocorreu, com um murmúrio crescente entre a audiência e vários novos padres remexendo-se em suas cadeiras. Não notou, porém, um magro de tez baça que, isolado a um canto, sorria ironicamente, alternando muxoxos, em atitude de desprezo pelo velho e pelas palavras, mas que, ao mesmo tempo, anotava furiosamente.
“Não fiquem espantados. É isso mesmo. Qualquer cristão de verdade só teve a ganhar com o nascimento de Israel em 1948 e, mais ainda, quando, em 1967, o Estado Judeu passou a controlar toda a cidade de Jerusalém, incluindo o Santo Sepulcro. Explico-lhes: durante o século XIX – e até bem antes disso – as denominações cristãs apoiavam-se em potências européias, e eram por elas usadas nas diversas disputas com o Império Otomano. O Santo Sepulcro sempre foi palco de acérrimas brigas e foi usado como moeda de troca pela Sublime Porta. Aquele que deveria ser um santuário já viu cenas de pugilato entre sacerdotes católicos e ortodoxos, entre ortodoxos e armênios, entre armênios e coptas, entre coptas e etíopes... enfim, todos querendo prevalência sobre as demais. Esses incidentes lamentáveis eram açulados pelos potentados árabes que se viam constantemente subornados por este ou aquele ramo para excluir os demais. E isso pode ser visto nas igrejas diferentes da natividade, nos lugares diferentes dos mesmos milagres. Por exemplo, a ascensão de Maria ocorreu em um sítio diferente para cada uma das religiões cristãs... Igrejas Ortodoxas que viraram Católicas, Católicas que voltaram a ser Ortodoxas... Tudo política, enfim. Quando Israel passou a existir, tudo isso terminou. O Estado de Israel é uma democracia e não se imiscui nos assuntos privados das religiões. Com o aparecimento da Nação Israelense, passou-se a ter segurança para os peregrinos, passou-se a ter estrutura, passou-se a ter instalações decentes e estradas seguras. Em Jerusalém, a Via Sacra foi desobstruída. O acesso ao Santo Sepulcro foi desbloqueado e normas de segurança para multidões em eventos de grande porte foram instituídas. Vocês são muitos novos para saberem, mas, antes de 1967, eram comuns os incidentes graves na Páscoa, quando milhares de pessoas se aglomeravam nas ruelas estreitas e não havia policiamento. Hoje, há autoridade, há médicos, há assistência. Por isso, é ridícula a posição oficial do Patriarcado e da Igreja em relação à política sobre os locais santos. Eles estão muito bem. Que Deus nos livre de um retrocesso ou que o Santo Sepulcro volte às mãos dos árabes e se reinstale a intolerância. Não se esqueçam que não há liberdade de crença nos países muçulmanos. A Igreja enfrenta sérios problemas neles, onde é vista com desconfiança. Israel, ao contrário, é um país livre e democrático que não impõe qualquer óbice às nossas atividades. É claro que existem radicais nos dois lados. Só que, em Israel, esses radicais vêem-se impedidos de agir e são limitados pelo estado democrático de direito, pelas leis, que, conforme o caso, relegam-nos ao ostracismo ou à prisão, enquanto que, no lado árabe, com raras exceções, esses radicais estão no poder e agem soltos, propalando suas mensagens de ódio como políticas de estado, deitando corrupção, usando Israel como desculpa e querendo fugir de suas culpas e de suas responsabilidades pela miséria de seus povos que são deixados deliberadamente na ignorância, ou seja, enganam-nos, desviando suas atenções dos problemas internos ”.
A esta altura, as palavras do ancião já estavam quase a causar comoção. Ele, no entanto, já esperava por isso, e continuou a falar: “vejam, não tomem minhas palavras de forma equivocada. Estou só a passar-lhes constatações irretorquíveis. Sabem qual o maior problema? O ser humano procura as diferenças nos demais, as oposições, ao invés de buscar as interseções e os pontos de confluência. O dia que cada um olhar qualquer outro ser humano e, em seus olhos, conseguir ver uma centelha de si mesmo, superaremos muitos problemas, ou todos! Ama teu próximo como a ti mesmo. Isso soa-lhes familiar? Não é um princípio cristão, é um princípio universal. Aliás, tomamo-lo do Judaísmo. Deus é, antes de mais nada, amor, paz, compreensão, respeito e solidariedade. Aquele que respeita o próximo e sabe lidar com as diferenças é o que, de fato, leva adiante a obra do Senhor”. Subitamente, o experiente sacerdote sentiu-se cansado e encerrou o curso. Desejou boa sorte aos discípulos e foi recolher-se.
No dia seguinte, foi despertado por violentas batidas em sua porta. Soergueu-se do leito, ainda tonto de sono. Não se sentia bem. Pediu que a pessoa que batia entrasse (ele nunca aferrolhava a porta). Era um jovem padre, seu auxiliar, visivelmente agitado. Nas mãos, vários jornais. Pediu, então, calma ao seu assistente e indagou o que se passava. Horrorizado, foi ouvindo relatar-lhe que sua aula do dia anterior fora passada a alguns órgãos partidários da imprensa e que suas palavras causaram furor. Os jornais acusavam o Vaticano de parcialidade, governos apontavam-no como inimigo do mundo árabe e de outras coisas mais. Ele, que era um homem probo e honesto, foi acusado de estar a soldo de agentes sionistas. Chancelarias árabes exigiam sua retratação e que o papa fizesse rolar sua cabeça. Protestos e revoltas eclodiam aqui e ali. As harpias afiavam suas garras. O cardeal não compreendia aquilo. Tudo o que fizera fora, em privado, dar sua opinião a alguns alunos. Era uma posição privada, pessoal. Lágrimas rolavam-lhe pelas faces. O interessante é que os jornais só mencionavam algumas de suas frases, fixavam-se em determinados termos e, retirando-lhes do contexto, distorciam-lhes o sentido. Estavam a prestar excelente serviço à cizânia e ao ódio, pois, como o velho prelado sabia, a muito poucos interessava a verdade. Nenhuma linha sobre suas razões, sobre o motivo de suas palavras; ninguém ousou publicar a íntegra de seu raciocínio. Nenhuma linha sobre suas palavras em prol do entendimento universal, da caridade ou do amor entre os homens. Para certos grupos, a liberdade é somente dizer aquilo que eles entendem como verdade. Se alguém ousa pensar diversamente, é massacrado e lançado no opróbrio, justamente o que ocorria com o nonagenário Homem de Deus. O Vaticano, apressado, não quis nem ouvi-lo. Determinou que ele retirasse-se para um monastério inacessível na Sardenha e que não falasse com a imprensa, enquanto divulgava uma nota de retratação que, embora levasse seu nome, não era de sua autoria. Ele não chegou a ver o desenrolar dos acontecimentos. Amargurado, faleceu dias depois, sem perceber como as pessoas podiam ser tão limitadas, maniqueístas, parciais, embotadas e cruéis. Por que ninguém assentia que ele falara apenas a verdade?
A notícia de sua morte passou quase despercebida. Salvo para um rapaz de ar pernóstico, macérrimo falso padre, que a comunicou, por telefone, ao seu governo, sanguinária ditadura, de quem era agente. Aliás, ninguém sabia seu nome verdadeiro, mas fora ele o responsável pela gravação trucada enviada à sua embaixada, que se encarregou de espalhá-la aos quatro ventos. Fora, também, o seu governo que comunicara o fato à Liga Árabe e quem começara a montar “manifestações espontâneas”, desviando, assim, a atenção do mundo da denúncia sobre tortura e assassinatos políticos contra sua própria população, que morria como moscas na mais abjeta miséria enquanto os nababos perdulários que detinham o poder desperdiçavam milhões cotidianamente. Pobre verdade, seus defensores, tão poucos, eram presas fáceis de seus numerosos inimigos.
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