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*Este autor escreve neste espaço às segundas-feiras
 

Tudo Tem Um Fim

02|04|07 • Cinco dias haviam-se passado deste a última vez que a vira. Começou, então, a recordar. Era sempre um momento fugaz, mas não deixava de ser terno e, mesmo, etéreo. Não tinha nem mesmo certeza se ela já o reparara em algum momento; não sabia o que a agradava. Ignorava-lhe tudo, ou quase tudo.  O nome, certa feita, ouvira-o quando a mãe, agastada, repreendera-a em público: Sophie! Os pequenos olhos castanhos imediatamente quedaram-se contritos após a admoestação e ele amou-a desesperadamente. Ele, porém, não ousava cortejá-la. Sabia não lhe estar à altura. Pertencia a um outro mundo, a um outro universo e a uma diferente dimensão. Sophie, pensava ele, vivia bem, tinha uma família que a amava e que a protegia, cercando-a de cuidados e de atenção. O que ele poderia oferecer? Nada.  Ele vivia nas ruas e era grosseiro. Não conhecera o amor de uma mãe ou de uma família. Só conhecia o léu e os olhares de desconfiança ou reprovação. Não sentia raiva dessa gente, mas cada vez que era injustiçado, uma desesperança invadia-lhe a alma, um desalento oprimia-lhe o coração. Mas bastava-lhe ver Sophie para que o mundo sorrisse-lhe novamente.

Aprendera os horários que a mãe dela levava-a ao parque, a passear pela Praça Saens Pena ou mesmo às compras. Vendo-a, perguntava-se se ela não seria demasiado nova e se já pensaria no amor.  Na realidade, a mãe parecia infantilizá-la. De qualquer forma, olhá-la ao longe não fazia mal. Tomava todas as precauções possíveis para que ninguém percebesse que as observava. Senão, podiam tomá-lo como ameaça, escorraçá-lo ou outra coisa assim, e ele sabia que morreria se a sua angelical Sophie testemunhasse a sua humilhação. Chegara até mesmo a acompanhá-las à distância enquanto a mãe dela ia de loja em loja nas redondezas, quase que a arrastando. Nesses momentos, com o enfado estampado nos olhos de Sophie, ele quase se aproximava, mas bastava-lhe ver a mãe dela para que aquele ímpeto de coragem esvanecesse tão rápido quanto nascera. A única vez que realmente se aproximara foi quando Sophie e a mãe quase se fizeram matar ao atravessarem a rua Conde de Bonfim. Um ônibus avançara o sinal e quase as colhera. Foi uma gritaria, um corre-corre e um rebuliço tal que ele pôde chegar pertíssimo dela e ninguém dera pela coisa, dado o tumulto que se formara. Ele jurava que ouvira as batidas do coraçãozinho dela, o que, a despeito da quase tragédia, o encantara. Mais tarde, no entanto, ele bem que se perguntava se aquelas batidas descompassadas não seriam dele próprio, dada a emoção do momento. Não importava. Pudera aproximar-se e quase tocá-la. Sentira-lhe o suava e doce perfume. Ficara inebriado a ponto de seus companheiros de rua e de infortúnio pensarem que ele ingerira alguma substância indevida.

Os dias, assim, sucediam-se maquinalmente e o amor consumindo-lhe física e espiritualmente. Havia momentos em que ele vituperava contra as injustiças daquela vida maldita que colocava um impenetrável muro entre ele e a torre de marfim onde estava o seu amor. Em outras ocasiões, maldizia sua estupidez por se permitir sonhar daquela maneira. Logo ele, um inveterado destruidor de ilusões. Acreditava-se um ser assertivo e pragmático. Agora, todavia, se via enredado miseravelmente naquela teia sentimentalóide. Ato contínuo, passava a dizer-se que se corrigiria, que pararia de procurá-la (ou melhor, de espiá-la) e que faria outra coisa de sua insignificante vida. No dia seguinte, porém, lá estava ele à porta do belo edifício, torcendo para que sua amada Sophie saísse, sua razão definitivamente obnubilada.

Aquilo, de fato, poderia até destruí-lo. Uma manhã chuvosa, há cinco dias, a loucura sobrepujara-o. O amor e o desejo furtaram-lhe o juízo. Quando viu Sophie sair do prédio, chegara perto. Na verdade, correra para ela; chegara a tocá-la! Fora uma meteórica ascensão ao paraíso, seguida de um ainda mais rápido descenso aos infernos, porque quando a mãe dela vira-o chegar esbaforido, pôs-se a gritar por socorro, sendo acudida pelo valoroso porteiro, que correu com ele dali. De fato, deixara-se enxotar, eis que percebeu o que fizera. Mas o que importava? Lograra tocá-la, sentir-lhe a maciez! Fora para ele o mais próximo que chegara da felicidade. Entretanto, sua alegria foi maculada pelas troças e gozações que sofreu dos demais membros do seu grupo de vadios que haviam testemunhado o drama que se desenrolara. Pouco lhe importava. Aqueles que julgava amigos não lhe compreendiam. Resolveu, portanto, abandoná-los.  E isso fora há cinco dias. Desde então, não mais a vira. Sophie e sua mãe, após o “ataque”, não mais saíam.

Continuara a chover nos dias seguintes. Ele postara-se à frente do prédio de Sophie, de onde mal se movia. Ficava sob uma larga amendoeira, do outro lado da rua, vendo o tempo passar e ouvindo as plantas crescerem. Os olhos fixos na entrada do edifício, inexpugnável fortaleza onde um ogro maligno mantinha sua princesa cativa. Os pingos d’água caíam-lhe nas costas, mas ele não se importava. O importante era não desviar os olhos daquela portaria, pois imaginava que no minuto em que desviasse o olhar, sua adorada musa poderia desaparecer. Não mais comia, não fazia absolutamente mais nada. Só aguardava. Tinha certeza que o porteiro que correra com ele dali reconhecera-o, mas fingia ignorá-lo. Suas esperanças foram vãs. Triste sina. Algumas senhoras piedosas do lugar, crendo-lhe doente, foram-lhe oferecer comida. Ele recusou. Uma tentou fazer-lhe ver a razão, falando-lhe em levá-lo até sua casa para cuidarem-lhe, mas ele repelira-a violentamente. Será que essas pessoas não o deixariam em paz? Será que não percebiam que ele não podia sair dali? O amor consumia-lhe. A paixão bastava-lhe. Era sua única alternativa. A vida tinha, para ele, seis letras: S O P H I E.

Tudo já se disse sobre o amor e sobre a paixão. E, no entanto, nada se disse. Por definição, o amor e a paixão são indefiníveis, pois eis que cada ser vive-os diversamente, encara-0s diferentemente e vive-os com intensidades díspares. E a beleza do amor e da paixão, conforme o caso, é, exatamente, esta. Para um, é apaixonar-se diariamente pela mesma pessoa. Para outros, é entregar-se despudoradamente, sem medos ou outras considerações. O que é incontornável é que não há alternativas. Amar é como viver. Aliás, amar é viver e, portanto, viver é amar. É um palíndromo de sentimentos. E foi isso tudo o que aconteceu com ele.

Uma manhã, no quinto dia, o sol reapareceu. Ele acordou e sentiu que era hora de superar a letargia e de seguir adiante. Comeu uns biscoitos que ali tinham sido deixados por uma alma caridosa e, vendo na esquina seus amigos, foi correndo ter alegremente com eles. Como que para testar seus propósitos e sua súbita transformação, nesse exato momento Sophie e sua mãe saíram pelo portão e vinham em sua direção. Vendo aquele ajuntamento todo, a mãe de Sophie tomou-a no colo, dirigindo um ar de desdém a ele e aos outros todos. Mas ele nem deu pela coisa. Afinal, o cio de Sophie passara e a bela Daschund perdera para ele o encanto. Voltou a brincar com os outros cães vira-latas e afastaram-se do local em desabalada carreira, uns atrás dos outros, dando-se mordidas de despreocupação.

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