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*Este autor escreve neste espaço às segundas-feiras
 

Monstros e humanos

11|03|07 • Monstros existem? Ou há tão-somente aqueles humanos bestializados? Claro que eu poderia recorrer a todos aqueles chavões e lugares-comuns usados quando as pessoas não querem reconhecer o óbvio: monstros não existem. As barbáries, os morticínios, as violências e tudo mais o que repugna o homem médio é obra de outro ser humano. Sim, pois apenas o homem pode errar, consciente ou inconscientemente. Somente o ser humano pode ignorar o grito de dor e desespero de outrem e ainda acreditar estar a agir certo, seja em defesa de seus próprios interesses, seja em nome de mais “altos” propósitos (ou desculpas, depende do ponto de vista que o Senhor ou a Senhora adote), como a pátria, a pureza da raça ou qualquer outra ignomínia. Verdadeiramente, há duas espécies de seres humanos: os que se amoldam às circunstâncias e os que lutam por aquilo que desejam. Eu não faço – nem nunca fiz isso. Eu transformei meus desejos nas circunstâncias. Eu construo. Faço o que tenho ganas.

Não pensem os senhores que me arrependo do que fiz. Isso seria hipócrita e, a despeito de achar salutar, afinal, hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, nunca me escondi sob as medrosas argumentações de que não tive escolha ou de que eu obedecia ordens. Isso é falso e covarde. Eu posso ser um criminoso aos olhos do mundo, mas não sou mentiroso, tampouco covarde. Sei enfrentar as conseqüências dos meus atos. Aliás, quando das minhas ações, eu tinha consciência de que, se fôssemos derrotados, eu teria de enfrentar um destino pesado. Mas, como eu dizia, todos tínhamos escolha. Alguns elegeram não pensar, outros, obedecer cegamente. Houve, ainda, os que optaram, por cobiça, ser mais realistas que o rei. Depois que a tempestade passou, decepcionei-me amargamente com algumas relações antiqüíssimas que não resistiram às pressões. Em suma, tudo o que fiz, assumo. Não renuncio a uma única de minhas crenças. Não renego qualquer de meus antigos camaradas ou de meus líderes. Tenho, todavia, plena convicção de que perdi, de que fomos derrotados. E, em razão, de uns depoimentos iniciais, fui logo tachado de monstro, de inumano. Ora, senhores, por favor, monstros não existem. Sou um ser humano tal e qual qualquer outro, pleno de defeitos e com uma virtude que, quiçá, lhes falte: eu não minto.

É um paradoxo muito interessante, intrigante deveras. Ao mesmo tempo que nega a essência humana desses atos, o homem tende a querer banalizá-los. Talvez naquela ânsia desesperada de minimizar o seu crime de omissão. Sim, porque malgrado ser pusilânime cada crime ou ato melífluo em si, já que não haveria, em tese, motivo para se quantificar a extensão de cada matança, a sociedade não discerne as nuanças, vê todos os acontecimentos como iguais, uma mera repetição de tudo e acostuma-se, isto é, enxerga o conjunto sob a modorra da habitualidade. O que Hitler, Pol Pot, Idi Amin, Bokassa, Nasser, Hafez Assad, Saddam Hussein, Yasser Arafat, Pinochet, Stálin e Mao Tsé Tung têm em comum? São todos assassinos. Cada um a seu modo, cada um responsável, de uma forma própria, por tragédias incomensuráveis. Algum deles é mais ou menos criminoso que os demais? Há os que dizem que sim, já que os dois últimos têm ardorosos defensores e partidos legalizados que lutam, abertamente, por repetir, hoje em dia, seus feitos macabros. Claro que o primeiro também tem os seus. Mas estes são obrigados a esconderem-se. Por quê? Se um estava errado, todos estavam. O mais incrível é que o ser humano cria as mais incríveis desculpas para justificar seus pensamentos maniqueístas. Por isso eu digo e repito: sou tal e qual qualquer um dos senhores e senhoras que se indignam com as atrocidades cotidianas, mas que têm seus particulares monstros de predileção. Monstros? Veja-me preso em minha própria armadilha! É, por conseguinte, a síntese hodierna: ou ficamos infensos ao mal ou queremos fazê-lo sobrenatural.

Possivelmente eu já os tenha chocado o suficiente e os que insistem em ler essas linhas para saberem até onde eu ousarei ir estejam a pensar que tento forjar-me um argumento justificatório. Será? Lisonjeiro tal pensamento, confesso. Contudo, não há porque me justificar, uma vez que ninguém nunca me exigiu isso. Não há quem saiba quem sou ou o que fiz um dia. Afinal, já disse e repito, não sou tolo. Com o passar dos anos, porém, fui vendo as coisas diversamente. Cansei de ver as tentativas dos homens ditos de têmpera de demonizar aquilo que é obra de outros homens. Não vêem que ao querer subtrair a dimensão humana desses atos vis estão a criar condições para que eles repitam-se? Sim, porque se não são homens que os planejaram e executaram, se foram criaturas de outro jaez, foge aos homens impedir outras ocorrências, porquanto não se controla o que não se entende, identifica ou conhece. Se não é humano, não nos compete repelir e reprimir. Prático e, mesmo assim, medonho. É o que eu disse antes: todos temos escolhas. Omitir e ignorar são as mais comuns. Aposto, nobre senhor, que é esta, amiúde, a sua atitude.

Falemos, no entanto, de coisas boas e edificantes. Falemos dos santos vivos. Imaginemos e deleitemo-nos com os exemplos imaculados de Irmã Dulce, Madre Teresa, Gandhi ou do “santo” de seu gosto. E aí está mais uma prova do que eu disse acima.  Ao deificar essas e tantas outras pessoas que agem em prol do bem comum, ao tentar-lhes tirar o viés humano, os senhores estão tentando, com igual fulgor, evitar que alguém venha cobrar-lhes conduta símile. Exatamente! Ao chamar-lhes “santos”, estão a querer escusarem-se por não agir da mesma maneira, uma vez que aquelas pessoas não são humanas, são de outra espécie, e, assim sendo, não podem ser imitadas. Bonito isso, não é? E, ao mesmo tempo, é conveniente. Deixe-me quebrar-lhes o encanto, senhores. Confidenciar-lhes-ei um segredo: eles são pessoas iguaizinhas a nós. Se eles fazem, qualquer um pode fazer. É claro que é lindo ver o apego aos objetivos nobres, às crianças leprosas ou aos despossuídos em geral. Ver esses enjeitados pelas sociedade receber algum alento, mesmo que efêmero, é reconfortante.  Devo, todavia, frisar que esses homens e mulheres que largam tudo para dedicarem-se a tais causas não o fazem porque são de um estrato diferente ou superior, mas, sim, porque se sentem gratificados, porque lhes dá prazer ajudar; há os que sentem prazer deglutindo um chocolate, há os que preferem a ginástica ou o cinema. E, da mesma forma, há os que preferem dar banho nos mendigos. Tão simples e, no entanto, tão negado. E o mais estranho é que essa negação é praticada por uma sociedade que, em sua maioria, crê ou diz crer em uma divindade antropomorfizada.

Choquei-os uma vez mais? Desculpe-me, mas a minha intenção era, justamente, essa. Quero-lhe retirar esse sorrisinho estúpido que lhe fica estampado na cara quando compra aquele novo equipamento de televisão da qual não precisava, mas que lhe morre nos lábios quando, levando-as para casa, desvia o olhar do assalto que se está a praticar na janela do carro ao lado. E, quando menos espera, pega-se a dizer que, graças a Deus, aconteceu com o vizinho. Mas que mania irritante, meu senhor! Deixe Deus fora disso, porque Ele não tem nada a ver com isso. Amplifique esse sentimento. O senhor ouve que aconteceu um grave acidente de ônibus na avenida pela qual passa para voltar a casa após o trabalho. O senhor, então, compadecido e consternado, pensa nas vítimas? Nas crianças que ficaram órfãs? Não minta. Não, não pensa. Sabe no que pensa? Torce para que desbloqueiam logo a pista para que não enfrente um congestionamento maior que o de costume. Por causa disso o senhor tornou-se um monstro? Felizmente, não, porque monstros não existem. Todos pensam assim, posto que humanos. E assim a coisa perpetua-se. O que se passou em outro país, outra cidade ou outro povo não o afetará. Logo, é desimportante. E foi assim que conseguimos matar tantos sem que nem um único país levantasse um dedo. Acho que o senhor já entendeu o quadro geral.

Já estou estendendo-me em demasia. Este é o último parágrafo, prometo-lhe isso. A esta altura, depois de tanto conversarmos, o senhor está-se questionando quem sou eu ou o que eu fiz. Os mais atilados têm suas idéias ou crêem tê-las. Estão erradas. Eu sou qualquer um e todos os males. Posso ser qualquer genocida e qualquer assassino de qualquer guerra ou conflito em qualquer lugar do planeta. Posso, até mesmo, ser um mero delinqüente juvenil que lhe furta o celular ou que é usado pelos traficantes para, de arma em punho, conseguir-lhes um veículo e, para isso, mata inocentes, mesmo que seja uma criança de seis anos. Opte, meu caro senhor, pela guerra que mais lhe apetecer. Só quero deixar claro e repisar o que estou a bradar há milênios: monstros não existem. Sou um homem igual ao senhor. E só os outros homens podem impedir-me. Sei que não mudarei ninguém, sei que nada mudará. Sei que o senhor, após ler o que escrevi, ficará agastado por uns cinco minutos, no máximo. Colocará o texto de lado e irá jantar, esquecendo-o para sempre. Afinal, o senhor é humano. E é com  isso que, através de séculos, eu venho contando para repetir meus atos incessantemente. Feci quod potui, faciant meliora potentes.

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