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*Este autor escreve neste espaço às segundas-feiras
 

O peso da palavra

05|03|07 • Bagé, a Rainha da Fronteira, estava em festa. Em frente à Matriz tinha-se preparado uma festança que ficaria registrada nos anais da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Uma centena de animais, entre bois e ovelhas, seriam churrasqueados. As Senhoras da cidade esmeraram-se no preparo dos doces e outros acepipes. Havia fandango. Os melhores gaiteiros da região estavam presentes. Tinha vindo gente de Alegrete, de Jaguarão, de Santana do Livramento, de Pelotas, de Santiago do Boqueirão e até de Porto Alegre. A imagem do padroeiro da cidade, São Sebastião, que dava nome à Igreja, fora posta em um altar especial à sua porta. Aquela imagem fora transladada para o que se tornaria a cidade em 1813. O altar fora encimado pelas bandeiras do Império e do Rio Grande. Um grande retrato do Imperador Pedro II, trazido diretamente do Rio de Janeiro, completava aquele relicário cívico-religioso. Toda a cidade parecia reunida ali.

Distante 60 km da fronteira, a cidade sempre se destacara nas campanhas militares e conflagrações, tendo sido a área palco, no século XVIII, de diversas batalhas entre portugueses e espanhóis. O forte de Santa Tecla, nos arredores, cujas ruínas ainda eram visíveis, era um monumento àquelas memórias e àqueles tempos. Mais de um século depois, aquele bravo povo ainda estava na linha de frente. Como dizia aquela placa descerrada em 1846, quando Bagé fora alçada à freguesia, o “Brasil pode dormir tranqüilo porque o Rio Grande vela pelo seu sono”. E Bagé era valorosa sentinela. Em 5 de junho de 1846, Bagé fora declarada vila. Não se pôde, porém, comemorar porque as feridas da Revolução Farroupilha ainda não tinham cicatrizado completamente e a cidade estava ainda dividida sobre o que fazer nos Campos de Seival onde, anos antes, em 1836, fora travado crudelíssimo entrevero do qual saíram vitoriosas as tropas do General Netto. Por isso, aquela celebração era tão importante, afinal, em 15 de dezembro de 1859, Bagé fora elevada à categoria de cidade.

Diversos estancieiros haviam contribuído para a festa. Ninguém, contudo, dera tanto quanto a família Silveira Silva, cujo cabeça, Horácio, hoje com sessenta anos, lutara bravamente em todas as ocasiões em que fora preciso. Comandara quase um milhar de cavalarianos e era dotado de uma argúcia estratégica nata. O velho Horácio, monarquista convicto, cedera mais de vinte bois e quase cinqüenta carneiros para o assado. Pagara o vinho e a aguardente, bem como providenciara a grande pintura com o retrato de Sua Majestade. Aquela festa, pensava, era, sobretudo, uma ode a tudo o que construíra. Seus dois filhos, Juliano e Fernando, estavam presentes. Fernando, o mais novo, estudava medicina no Rio de Janeiro. Não gostava muito da vida na Corte, mas fora pelo pai obrigado. Juliano flanava pela França, a pretexto de ali estudar, mas o que fazia mesmo era gastar à larga. E os cordões da bolsa de seu pai estavam sempre desatados para ele. Juliano voltara afrancesado. Roupas e modos desconhecidos naquele rincão. A boa gente examinava a esposa que o rapaz trouxera da França. A pequenina observava aquilo tudo entre amusée e dégoûtée, lançando olhares que fariam de Gobineau um tolerante. Agathe já cometera gafe imperdoável quando recusara matear com os outros. Bebiana, sua sogra, nada dizia, mas estava claro que ela preferia até uma castelhana como nora.

Em uma grande mesa estavam sentados todos os Silveira Silva, o padre Lourenço Cazas Novas, o prefeito, o enviado do governo de Porto Alegre, o dono do Hotel do Comércio (o francês Olivier, geralmente desprezado pelos estancieiros, mas aquela noite haviam-no posto ao lado de Agathe para se livrarem do fardo), e mais umas quinze ou dezesseis pessoas, inclusive o Coronel Borges que, após prosear um tanto com Juliano, sentenciou ao velho Horácio que o guri tinha virado um fresco.  A função estava animadíssima. Havia muitos casais dançando a chimarrita, rodas de jogo de osso, alguns jovens disputavam lindas prendas cujos vestidos estavam estreando, outros preparavam os baios e os tordilhos para a carreira que teria lugar mais tarde. Encilhavam-se os pingos e os piás, em bandos e em carradas de excitação, corriam de um lado para outro. Foi em meio aquele clima leve e alegre que, com grande espanto, ouviram Asclépio gritar: - até o fim da noite, vou beijar a irmã guapa de um gaúcho.

Fez-se um silêncio consternado. Asclépio, em geral tão quieto, estava visivelmente borracho. Solito a um canto, repetia que beijaria a irmã de alguém. Um mais valente já se pusera de pé na frente do bêbado a indagar-lhe o que ele queria dizer com aquilo e tal e coisa. O coronel Borges mandou o seu peão aquietar-se, e o Asclépio, aproveitando-se daquele súbito suspense, emendou: - vou beijar a irmã guapa de um gaúcho, indianada. Também vou abraçar a mãe de um índio véio. -  Aquilo era demais. Senhoras persignavam-se. O gaiteiro, tio João, parou de tocar. O padre levantou-se para afastar dali o inconveniente, mas Emerenciano fora mais expedito, postando-se diante de Asclépio: - retira o que tu disseste, senão te talho.

A mulher de Asclépio estava embaraçada a valer, a vergonha  subindo-lhe as faces, quase a morrer. O marido nunca fizera nada semelhante. Era calmo, pacato e cordato. Não levantava a voz para ninguém, e agora, aquilo. Como podia estar acontecendo? Só podia ser um pesadelo. Mas estava, e como! E Asclépio seguia repetindo que beijaria a irmã e abraçaria a mãe, entre outros sinais de afeto desmedido. O clima tão jovial estava ficando pesado uma barbaridade. Então, inesperadamente, Asclépio pôs-se de pé. Vestia-se com apuro, portava um chapéu de barbicacho novo, calça pantalona, camisa de dar volta ao mundo de um branco imaculado, lenço engomado ao pescoço, botas de couro enceradas fazendo-as parecer um espelho, esporas de prata, enfim, uma fina estampa. No entanto, comportava-se à castelhana. A confusão generalizou-se, e, temendo que a coisa toda degenerasse em sangue, Juliano, Horácio e Borges já se interpunham entre o inconseqüente e os demais gaúchos. O burburinho já era insuportável, mas se conseguia ouvir por sobre a gauchada os esganiçados “qu’est-ce qu’ils disent” e os ‘qu’est-ce qu’il y a”  que a esposa de Juliano dirigia aos ouvidos moucos dos outros convivas, na certa temerosa de se ver em meio a uma briga daqueles bárbaros. Asclépio, no entanto, nem se dava conta do que causara. Só repetia a ladainha do beijar e abraçar, tal e qual um parvoinho.

Juliano tentou obtemperar. Aproximou-se do gaudério que, seguramente, não estava em si, e pediu-lhe silêncio e compostura. Mas qual o quê! Foi pior. Asclépio subiu em uma cadeira e disse: - pois além de beijar a irmã de alguém, depois de abraçar a mãe de um gaúcho, eu vou por a mulher dele no meu colo. – ah, para quê! Dez ou doze homens atiraram-se sobre o fanfarrão que, magistral e magicamente, desvencilhou-se e correu até o altar onde estava a imagem de São Sebastião. Todos pararam. Ao pé do santo, ninguém podia fazer nada. Aproveitando-se daquele momento em que todos titubearam, Asclépio berrou: - mas é agora. E todos, atônitos, viram-no ir à mesa onde, petrificada, estava a sua família. Ali ele beijou a bochecha de sua irmã, abraçou sua mãe, quase quebrando-lhe os frágeis ossos e, sentando-se, puxou sua mulher e forçou-a a sentar-se em seu colo. E desatou a gargalhar, quase asfixiando-se. Ria e repetia que fizera o que prometera. Que ele era macho e cumpria suas promessas.

As demais pessoas não sabiam o que fazer. Alguns riam à socapa, outros xingavam e praguejavam... olhares eram trocados. Então, pegaram Asclépio, carregaram-no até uma sanga que serpenteava próximo ao cerro nas cercanias da cidade, jogando o causador de tanta perturbação na água. Enquanto voltavam para a praça e para a festa, que recomeçara com a mesma animação e cuja música ao longe se ouvia, podiam os rapazes ouvir o engraçadinho rir sem parar.

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