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*Este autor escreve neste espaço às segundas-feiras
 

Pré-julgamentos (parte 4)

26|02|07 • Chovia torrencialmente na cidade já há semanas, causando toda a espécie de transtornos aos quais os cariocas estavam  habituados. Aquela temporada de chuvas, todavia, estava-se prolongando. Rios transbordavam, ruas alagavam e o caos instalava-se. As autoridades pouco faziam por uma miríade de razões que iam da carência de recursos à falta de vontade política. Evidentemente que quem sofria era a população, mas essa também não era a vítima que se fazia crer, eis que possuía sua parcela de culpa. Sim, pois as mesmas pessoas que reclamavam dos bueiros entupidos eram as que lançavam lixo nas ruas e nos rios. Exatamente os mesmos cidadãos que vituperavam ante o laxismo dos administradores públicos eram os eleitores que, a cada eleição, os reconduziam aos cargos. Inexoravelmente, então, o resultado final não podia ser outro.

Chovia muitíssimo, deveras. Eurípedes não se recordava de ter visto algo assim. Aquela noite, ele, novamente, não conseguira conciliar o sono. As crises de insônia eram freqüentes desde o incidente que transformara e que causara tanta comoção em sua vida. Após esse tempo todo – quase quatro anos – ele ainda respondia a processo. O escritório demitira-o. Ele, por conseguinte, estabelecera-se por própria conta, o que o fez passar alguns meses realmente ruins. Tudo, porém, arranjara-se a contento. No entanto, dormir era um luxo cada vez mais raro. O rádio, ao fundo, falava baixinho, prestando-lhe Eurípedes um ouvido distraído, quando ouviu um boletim a informar que um prédio desabara na rua Ibituaçu, esquina com Amaragildo, havendo muitas famílias soterradas. O advogado pulou da cadeira, espantado. Era onde morava Ercília e o marido! Correu ao quarto, vestiu-se e precipitou-se porta a fora, pelas escadas.

Naquela noite, Paranhos fora deitar-se contrariado. Desde que se separara da mulher, a cada dia novos problemas surgiam. Seus filhos não falavam mais com ele, à exceção da caçula que, escondida da mãe, o visitava de quando em quando. Agora sua mãe viera-lhe dizer que ela decidira voltar para o Rio Grande do Sul, para sua Alegrete natal, porque estava com medo. Uns dias antes, a padaria da esquina fora assaltada, e o dono ficara muito ferido. Em verdade, Paranhos não queria ficar sozinho e adormecera pensando na possibilidade de acompanhá-la. Subitamente, um estrondo inimaginável sacudiu a casa toda. Ele levantou-se da cama mais do que depressa, abriu a porta de seu quarto e passou de cômodo em cômodo a verificá-los. Tudo parecia em ordem. Entretanto, os gritos e as vozes vindas da rua logo captaram-lhe a atenção. De pijamas, destrancou a porta da frente, foi até o portão e viu a correria. Olhou na direção em que corriam as pessoas e, horrorizado, viu a montanha de entulho e uma espessa nuvem de poeira, visível mesmo sob a cortina d’água da chuva que continuava a cair. Gritou para a mãe que chamasse os bombeiros e, juntando-se aos que corriam para o local, para lá seguiu. A velha senhora nada pôde fazer porque o telefone estava mudo.

A cena era indescritível. O prédio simplesmente desaparecera. Uma massa de pedras, tijolos, ferros aparentes e detritos tomaram-lhe o lugar. Dezenas de moradores da vizinhança escavavam com as próprias mãos. Apelos desesperados cortavam a noite. A desordem reinava. A iluminação era precária e a chuva incessante dificultava as vãs tentativas. Paranhos olhou em volta: histeria. Subiu no teto de um carro e pôs-se a gritar a plenos pulmões, na esperança de organizar aquilo tudo. Berrava por silêncio. Em verdadeiro milagre, todos foram-se calando. Só se ouviam os agonizantes pedidos de socorro de uma voz masculina, certamente sob os escombros. Do alto de toda sua autoridade, Paranhos falou às gentes, como em uma peroração. Foi-lhes incutindo rudimentos de como deveriam agir. Separou-os por equipes: quem deveria remover os entulhos, quem deveria afastá-los etc.; logo surgiram pás e carrinhos de mão que os vizinhos traziam de casa. Outro fora providenciar lençóis e cobertores. Um terceiro fora buscar seus instrumentos médicos. Enfim, a solidariedade e a força de luta pelo bem comum, estavam ali presentes, vívidas. São notas que nos distinguem dos demais povos, mas que, hélas, apenas surgem nessas horas. No resto do tempo, ficam sepultadas sob o peso do pavoroso “deixa para lá”.

Alguns proprietários de automóveis dispuseram-nos na rua, acendendo seus faróis para iluminar o sítio de trabalho. O dono da loja de materiais de construção do outro lado da praça abriu suas portas e pôs-se a distribuir ferramentas. Fez ainda mais: colocou as caminhonetes de entrega para retirar o entulho e os detritos para longe. O dono da farmácia também fez algo parecido, pegando alguns suprimentos para ajudar os feridos. E assim, a faina continuava. De repente, ouviram-se exultações, ou que a isso assemelhavam-se: achara-se uma moça, muito machucada, mas com vida. Paranhos tomou-a nos braços e levou-a para a porta da farmácia, onde se administrava algum socorro médico. Não se via, porém, auxílio das forças públicas. Alguém já avisara que tragédias como aquela pontilhavam na cidade, não havendo bombeiros suficientes para atender a todos os chamados. A atividade dos populares seguiu frenética, a despeito de uma centelha de desânimo que sobre todos abatera-se quando se espalhou que não viria qualquer ajuda pública, pelo menos por enquanto. Inopinadamente, outro grito de “tem alguém aqui” afastou de todos aqueles pensamentos; foi retirado um homem idoso. Estava morto. Aquilo, ao mesmo tempo em que levou alguns às lágrimas e fez espalhar um sentimento de frustração, deu a outros ímpeto e fúria para redobrarem os esforços em busca de sobreviventes que, aos poucos, foram sendo resgatados.

Eurípedes já escutara no rádio que a cidade estava submersa. Duas horas passaram-se antes que ele chegasse próximo ao local onde residia a irmã. Passara por um cenário de destruição e desolação, com casas em ruínas, árvores tombadas, crateras nas ruas e a cidade praticamente às escuras. Parou o carro e observou aquela gente toda trabalhando quase que de forma organizada. Viu alguns feridos. Viu, também, os corpos pudicamente cobertos por lençóis à guisa de mortalhas, mas que a chuva encharcara, transformando-os em uma pele etérea que realçava o sofrimento, colando-se aos corpos sem vida. Percebeu, também, sobre o resto do que fora uma marquise ou um andar, o delegado que, anos antes, o indiciara. Malgrado não guardar qualquer rancor, tomou aquela visão como mau augúrio e, desgraçadamente, como para confirmar a impressão, deu com o cadáver do cunhado na morgue improvisada. Andou em volta, não achando a irmã. Estava atordoado e vagava entre as pessoas, não se dando conta do burburinho. Quando deu por si, sem nem saber como, estava próximo do local onde Paranhos estava. O delegado não chegou a ver o advogado, mas mandou-o sair dali, pois era perigoso. Disse-lhe para auxiliar alguém, enfim que se apurasse e se mexesse, mas que não ficasse ali.

Novo estalo ocorreu, levantando um mar de detritos que engolfou Eurípedes. Este não conseguia enxergar nada. Baixando a poeira, viu que a marquise onde estava Paranhos ruíra e o delegado jazia sob um grande pedaço de concreto. Estava, contudo, consciente. Eurípedes aproximou-se, mas o delegado mandava-o afastar-se, dado o perigo. O pequeno advogado ignorou as invectivas e admoestações. A dor fizera Paranhos calar-se. Eurípedes, a seu turno, viu-se impotente diante daquele mastodonte de um cinza mórbido. Outros moradores aproximaram-se e puseram-se, infrutiferamente, a tentar soerguer o bloco.

O dia raiava quando a chuva parou. Paranhos ainda estava sob a montanha de escombros. Parecia exangue. Às lágrimas, Eurípedes segurava-lhe a única mão à mostra. O trabalho era intenso, mas não conseguia partir o concreto ou levantá-lo. Ouviu-se novo estrondo. Os vizinhos que lutavam para libertar Paranhos mal tiveram tempo de fugir, e a única parede em pé do edifício veio ao chão estrepitosamente, soterrando Paranhos e Eurípedes que, em um derradeiro e fatal gesto, não largara a mão daquele que, em vida, não conhecera.


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