CapaArte das RuasContosCinemaEntrevistasMeu BairroPoesiasDicas de Português

» Crônicas anteriores |
13|08|07 | O Poder Supremo

03|07|07 | Intolerância ou Manifesto Pelo Direito de Ser Eu

07|05|07 | Semper Ficelitas

23|04|07 | A Batalha pelo Silêncio

08|04|07 | Todas as verdades devem ser ditas

02|04|07 |
Tudo tem um fim

26|03|07 | Os pontuais são un
s angustiados

11|03|07 | Monstros e humanos

05|03|07 | O peso da palavra

26|02|07 | Pré-julgamentos 4

19|02|07 | Pré-julgamentos 3

11|02|07 | Pré-julgamentos 2

05|02|07 | Pré-julgamentos 1


» Outros Cronistas |
Adalberto dos Santos
Anselmo Vasconcellos
Ariane Bomgosto
Carioca da Silva
Dr. Guto
Edejás de Oliveira
Elano R. Baptista
Elida Kronig
Fabrício Mohaupt
Flavio Guberman
Francci Lunguinho
Humberto de Almeida
Ivone Boechat
Iza Calbo
J. Carino
João Manoel
João Pedro Roriz
Luiz A. Machado
Luciano Fortunato
Mani Alvarez
Marcio Paschoal
Paulino Vergetti
Silvio Alvarez
Tarcísio Pereira

 
   

*Este autor escreve neste espaço às segundas-feiras
 

Pré-julgamentos (parte 3)

19|02|07 • No Brasil, honestidade é defeito. A frase sarcástica lançada, havia mais de um ano, em sua cara, pelo diplomata germânico que prendera em certa operação, martelava-lhe desde proferida. Em qualquer país do mundo, um sucesso como aquele alçaria o responsável aos pícaros da glória. Não nas terras em que o pendão auriverde é beijado e balançado pela brisa. Também, o que pensara ele? Prender assim diplomatas da Alemanha, Reino Unido, Bélgica e Honduras! Mas que coisa! Os patos que trabalhavam na alfândega e no Itamaraty estão lá, encarcerados. À exceção do hondurenho, nenhum diplomata fora expulso. Seus respectivos governos chamaram-nos de volta. Ao sair da delegacia, quando libertado, o alemão escandira-lhe aquilo. E os cinco vocábulos mortificavam-no.

Paranhos nem prestava atenção aos olhares de sua mulher, às súplicas da filha e à expressão dura dos sogros. Em verdade, só escutara as três primeiras palavras e, então, pôs-se a rememorar as agruras que passara desde o último ano. Sua família, evidentemente, interpretava aquele silêncio como mais uma demonstração férrea de sua intransigência. Sua filha, Maria da Glória, logo o alcunhara: é um caxias. Era assim que o viam. Julgado e condenado, sem direito a recurso.

Trinta anos de polícia. Já vira de tudo. Ou achava que vira. Depois de trinta anos, o que construíra? Quase nada. Possuía um teto próprio, é verdade, mas porque era herança do pai. Era proprietário, também, de um fusca. Comprara-o novo. Orgulhoso, fora mostrá-lo à família. Sua esposa ironizava-lhe o entusiasmo, lembrando-lhe, sardonicamente, que o Medeiros também adquirira um novo carro, porém, um Impala. E para tudo o que Paranhos dizia ou fazia, Lourdes, sua consorte, tinha na ponta da língua um exemplo comparativo que o apequenava: o Medeiros, outro delegado, fantasma constante nos ditos cotejamentos, possuía enorme apartamento em Laranjeiras, carro de luxo e casa de veraneio em Petrópolis; o Herculano já levara sua mulher  à França quatro vezes; o Olinto era dono de fazenda em Minas Gerais... E a lista crescia, inflava, aumentava e, invariavelmente, terminava com a invectiva de que só ele não possuía nada. Embora já houvesse desistido de responder, Paranhos não suportava os olhares de comiseração de que era alvo. Sua mulher queria ignorar que ele só vivia do modesto ordenado e, com aqueles vencimentos, mal dava para sustentar a todos. Ele era honesto, não aceitava subornos ou presentes. Nunca usara sua posição para obter qualquer vantagem. Em uma cidade em que se estacionava em qualquer lugar e as placas de proibido estacionar eram mero enfeite, Paranhos respeitava-as, sendo motivo de chacota por isso, inclusive dos familiares.

Paranhos olhou para a mãe, quieta a um canto. O sobrado em que moravam era dela por direito. Quando o pai falecera, porém, a mãe abrira mão de tudo. Afinal, à época, ele tinha três filhos pequenos e estava em início de carreira, precisando, pois, de um teto. A despeito das reclamações da mulher, ele exigira que a mãe continuasse ali, residindo com toda a família. Mas a velha eclipsava-se. Mal era notada e fingia não notar a hostilidade da nora, que se comportava como em terre conquise. Por um momento os olhares dos dois cruzaram-se. Instantaneamente, soube o que fazer. Pela primeira vez, foi grosseiro com seus sogros, apesar destes merecerem há muito uma reprimenda, e mandou-os calarem-se (em verdade, disse-lhes para fecharem os bueiros, o que causou uma quase-apoplexia no velho Martinho). Paranhos levantou-se, pegou o paletó que pendurara na cadeira da sala e saiu. Na rua, tomou um carro de praça e mandou-o seguir para a delegacia de Madureira, cujo titular era, justamente, o Medeiros, que telefonara para avisá-los do ocorrido.

Paranhos sofrera muito naquele ano. Fora tratado como um pária por haver, simples e somente, seguido o que determinava a lei. Há quase dois anos ele fora inflexível com um advogado que agredira um PM e outro motorista, mesmo tendo-lhe escutado a história e, até mesmo, compreendido-lhe os motivos. Inclusive punira um seu inspetor que fora desrespeitoso, o que lhe valera a hostilidade de vários subordinados na delegacia. Com ele era assim mesmo, não havia meio termo. Por isso a frase daquele alemão ultrajara-lhe tanto. Por isso doera-lhe incomensuravelmente a atitude de seus superiores hierárquicos e do governo da Guanabara. Por isso, o que lhe contara a mulher quando ele chegara, afetara-o daquele modo: Paulo Alberto, seu filho mais velho, estudante de engenharia, estava preso. Humilhação suprema: quem detivera-o fora um policial lotado na delegacia do Medeiros, de quem só ganhava olhares condescendentes, como que em arroubos de piedade. Compaixão logo de quem, do Medeirinhos 30%! O mundo de Paranhos desabara.

Paranhos subiu os degraus lentamente; copiosamente, por dentro, chorava. Quando abriu a porta do gabinete de Medeiros e ele viu-o conversar animadamente com um sorridente Paulo Alberto, irradiando irresponsabilidade, a indignação subiu-lhe e impediu-lhe de falar. Teve, mesmo, ganas de esganar sua própria cria. Seu filho, todavia, já o vira e estampara um sorriso sem-vergonha, indecente. Conteve-se para não estrangular o garoto sem ouvi-lo. Medeiros, com aquele insuportável tom de pena, foi logo saindo a dizer que os deixaria a sós. Porta fechada, Paranhos virou-se para o filho e este, sem qualquer remorso ou arrependimento, contou-lhe que fora pego revendendo maconha. Não a usava, disse, mas vendia-a com bom lucro. Contou-lhe, também, que os policiais que o prenderam não quiseram dinheiro para soltar-lhe, mas tomaram-lhe toda a mercadoria e o dinheiro que, na hora, carregava. Terminou por dizer ao pai que ainda bem ele viera logo, pois assim poderia ir a uma festa em casa de um amigo.

Fora constrangedor, humilhante, um rebaixamento e qualquer outra definição que traduzisse o esmagamento de Paranhos e do âmago de tudo em que acreditava. Paranhos, no entanto, não disse palavra ao jovem. Limitou-se a olhá-lo. Pensativo, chamou Medeiros de volta à sala. Pediu para ficarem a sós e, arrasado, às lágrimas, implorou que seu filho não fosse indiciado. O colega delegado olhou-o fria e fixamente. Asseverou-lhe que os laços que os uniam eram para isso mesmo, que ele ficasse descansado, que nada aconteceria e que ninguém saberia. Medeiros, entretanto, ficou atônito quando Paranhos pediu-lhe que não queria que o filho fosse liberado aquela noite. Disse que voltaria no dia seguinte para buscá-lo. Medeiros fitava-o como se estivesse a tratar com um insano.

Paranhos deixou a sala. O filho, que o aguardava no corredor, pôs-se de pé e indagou se partiriam naquele momento. Sem se voltar, Paranhos respondeu-lhe que sim, iria, mas que, antes, aprenderia uma coisa ou duas, e deu-lhe boa noite. Seu filho soltou um palavrão sonoro e de baixíssimo calão. Paranhos estancou, tornou-se, e acertou um tapa violentíssimo na face do filho. Desceu as escadas quase correndo e entrou em um táxi que passava. Sentia-se imundo, violado e acabado. Sua face ardia-lhe, como se o tapa tivesse sido tomado por ele. Chorou o trajeto inteiro.

Quando chegou de volta ao lar, sua esposa, que já fora informada por Medeiros do que ocorrera, recebeu-o aos gritos. Seus sogros disseram-lhe meia dúzia de impropérios e sua filha ria-lhe ironicamente. Sua mãe, no entanto, pegou-lhe as mãos, levou-as aos lábios, beijou-as e, após, abraçou-o. Paranhos, então, soube o que fazer, não só naquele momento, mas, também, em sua vida doravante: virou-se para os sogros e pediu que eles fossem embora naquele momento. À mulher, olhando-a nos olhos, informou que ela deveria acompanhar os pais e que, no dia seguinte, ele tomaria as providências para o desquite.

Voltar | Capa

     
       
Caixa Postal 15.029 - CEP: 20.031-971 • Rio de Janeiro-RJ • 2006/2007 © Crônicas Cariocas Ltda
Matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores