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*Este autor escreve neste espaço às segundas-feiras
 

Pré-julgamentos (parte 2)

11|02|07 • Aquela espécie de leniência causada pelo calor agradava-lhe. Estava farto do frio que o assombrara durante a infância, que lhe enregelara durante a guerra e que sempre o constipava. Claro que a canícula tinha muitos inconvenientes, mas alguns condicionadores de ar norte-americanos, inalcançáveis aos brasileiros, mitigavam o sofrimento e os vários incômodos. Desagradável, mesmo, eram as interrupções constantes de energia, tão comuns quanto irremediáveis, e sobre as quais faziam-se pilhérias diárias na cidade. A embaixada resolvera esse probleminha instalando um potente gerador. Ele, todavia, não podia fazer isso no prédio onde morava, situado no Flamengo, de frente para o mar.

Viera para o Rio de Janeiro em 1959. Já tinha completado três anos na cidade e dez anos a serviço da diplomacia da nova República Federal. Fora seu pai que, por meio de seus muitos contatos, conseguira-lhe o posto. Também fora seu pai que lhe obtivera um passaporte, em seu nome verdadeiro, que mostrava ter ele passado todo o período da guerra na Suíça, quando, na verdade, para lá seguira em dezembro de 1944, após desertar da divisão blindada Frundsberg, da Waffen-SS, a qual aderira, voluntariamente, em 1937, aos dezenove anos. Não se arrependia do que fizera, mas hoje escondia e escamoteava suas ações. Forjara até um passado anti-nazista, não por medo de que descobrissem o que e onde servira, mas, sim, que soubessem que se acovardara quando tomou conhecimento do avanço soviético e, aproveitando-se de uma licença, ao invés de ir para Lübeck, sua cidade natal, seguira para a Basiléia. Não se achava um crápula. Cria-se um homem prático. E fora essa praticidade, supostamente, que o levara a esse comércio paralelo.

Quem lhe ensinara como ganhar esse dinheiro extra fora um adido da embaixada inglesa, Harry Field. Fora o representante de Albion que lhe indicara a sede dos nativos por máquinas, aparelhos, roupas, enfim, toda e qualquer quinquilharia estrangeira. Qualquer bem de consumo do exterior, independentemente do que fosse e da origem, os brasileiros queriam-no. Claro que havia certa dose de exagero, mas fora a sanha dos produtores, industriais e comerciantes locais que levara àquele estado de coisas, pois a produção nacional, naquele 1962, era de baixa qualidade e atrasada tecnologicamente. Começara modestamente; contudo, vendo que nada lhe acontecia, aproveitava sua imunidade e a isenção de impostos para trazer de geladeiras a automóveis. E, assim, Günter Erlich, primeiro secretário da embaixada alemã, ia levando sua vida.

As vendas já se faziam a crédito. Günter diversificara sua carteira de clientes e agora lançava-se para a sôfrega classe média. Engenhosamente, usava um seu esbirro como testa-de-ferro. Tudo muito lícito, tudo muito civilizado, sans dire le mot. Mas desde aquele telefonema ficara preocupado. A embaixada alemã seria transferida para Brasília, a nova capital, inaugurada dois anos antes. Claro que isso não seria feito de uma só vez, bem como ele poderia lutar para ficar no consulado que ficaria na cidade, entretanto, as disputas seriam ferozes, pois ninguém queria ir para aquele inóspito cerrado. Ora, indignava-se, se nem mesmo os funcionários públicos, os ministros, os militares e os senadores brasileiros queriam-se mudar, porque se alienariam de tudo (assim pensavam), por que ele teria de se submeter a isso? Ele, raciocinava, em um misto de ignorância e racismo, límpido ariano, no meio dos índios e negros. Era só o que lhe faltava. Ademais, o Brasil era um país muito rico, com duas capitais, e tomem-se viagens aéreas de uma para a outra, tudo, muito naturalmente, às custas do pobre contribuinte. Que luxo, ironizava, duas máquinas públicas independentes, concorrentes e refratárias. O perigo de ir-se, contudo, havia. Logo, ele precisava liquidar as dívidas pendentes ou acertar novo esquema. Pendia para essa segunda opção.

Entrou na Casa Cavé, olhou em volta, e logo viu o Aristides, com seu ar pernóstico, bebericando o chá em uma mesa ao fundo. Chá! Nesse calor? Veja lá se isso tinha cabimento, pensava Günter, mania de sempre imitar, concluiu.  Sentou-se, afrouxou a gravata e, encarando o andrógino personagem que lhe servia e a vários outros diplomatas, foi logo perguntando a quanto andava o problema da cobrança. Massacrando impiedosamente o francês, língua na qual se comunicavam dado o seu desconhecimento do alemão e à sua mania de pavonear-se, Aristides explicou-lhe que só conseguira receber pouco mais de cinqüenta mil cruzeiros referentes a diversos produtos. O mais grave, porém, é que informou ao alemão estar sendo vigiado na repartição. Günter já estava cansado de ouvir o funcionário reclamar do novo chefe de sua seção. Era um absurdo, vituperava Aristides, que a coisa assim se passasse. O novo chefe exigia presença, exigia respeito aos horários e queria produtividade alta. Günter interrompeu o amanuensezinho no momento em que esse elocubrava longe e dizia que o chefe nem parecia brasileiro, pois era muita petulância do tal sujeito querer vir ensinar aos funcionários o que quer que seja, já que funcionário público não tinha chefe, ora bolas! O alemão, também em francês (tinha horror ao português, que nunca se dignara a aprender corretamente), mandou-o calar e disse que não queria ouvir mais essa cantilena.

Informou ao agora encolhido tupiniquim que tinha necessidade de receber o que lhe era devido e que havia, ainda, muita mercadoria para vender. Tudo tinha de ser aviado o mais rápido possível. Pela primeira vez, após quase dois anos em que usava os serviços do brasileirinho, resolveu levar-lhe ao depósito que mantinha na Saúde e colocá-lo em contato com o funcionário da alfândega a quem também pagava. Contava poder continuar a agir manipulando os cordões de longe. Bastaria, pensava, atirar àquela gentinha duas migalhas ao invés de uma. Em poucas palavras, orientou seu motorista (seu não, da legação) e para lá seguiram. À porta, já lhe esperava o fiscal da alfândega.

Günter virou a chave e abriu uma fresta. Desarmou o alarme e todos os três entraram. Trancou a porta atrás de si e acendeu as fracas luzes do galpão. Já fizera uma cópia das chaves para entregar aos dois cupinchas e planejava que um vigiasse o outro. Sentaram-se a um canto para repassar o inventário que faria os dois assinar. O calor era sufocante, e o alemão já se pusera em mangas de camisa. Mesmo assim, suava profusamente. Foi nesse momento que o delegado Paranhos e seus homens invadiram o local. Günter  pulou e tentou correr, mas foi imobilizado por um policial. Atônito, custou a entender o que estava ocorrendo.

Paranhos assoviou, assombrado. Que coisa extraordinária! Parecia um armazém de loja. Geladeiras, máquinas de lavar, torradeiras etc., aparelhos os mais variados. Olhando o alemão nos olhos, perguntou se aquilo tudo era dele. Günter não tentou negar. Ele já aprendera que, no Brasil, as coisas funcionavam diversamente. Limitou-se a olhar os policiais com superioridade e a perguntar se eles tinham noção de com quem estavam falando. Disse que aquilo tudo era dele e que, como diplomata, não lhes devia qualquer explicação.

O germânico fanfarrão nem viu de onde partiu o murro que lhe fraturou, ao mesmo tempo, o nariz e a empáfia teutônica, fazendo-o desabar sobre a cadeira que, não resistindo, se quebrou, lançando-o ao chão. Paranhos puxou o alemão pela gola, furioso. Há meses que investigava aquele crápula e outros pulhas mais. Vários envolvidos: funcionários do Itamaraty, da alfândega, embaixadas estrangeiras... E todos os presos, sem exceção, tinham-lhe atirado aquela frase ao rosto. Se ele sabia com quem estava falando? Sim, ele sabia. Ele estava falando com mais um imbecil, mais um pilantra que fazia do Brasil um país atrasado e corrupto. O que lhe dava mais raiva era a petulância dos estrangeiros, que acreditavam tudo poder. Culpa dos brasileiros, que nunca souberam valorizar-se.

Sob os apupos do populacho que enxameava o local, Günter foi colocado no camburão. O alemão tinha os olhos vítreos. Suprema humilhação: ao entrar no camburão, tentara fazê-lo de frente, batendo com a cabeça violentamente no teto ao subir. Os risos de todos os presentes à cena acompanharam-no até a carceragem.

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