FATOS E VERSÕES
Inúmeros fatores levaram-me a meses de silêncio, a um quase-olvido, até que decidi rompê-lo; forçar-me a escrever, porque quanto mais se pospõe o retorno, menos provável é que, efetivamente, se volte àquela atividade abandonada. Claro que há uma miríade de justificativas, uma sucessão de ocorrências que me impediram de cumprir com o que me propusera: contribuir com o Crônicas Cariocas. Mea Culpa; e, por isso, penitencio-me.
Como, porém, retomar o tão frutuoso contato hebdomadário? Nuance: hebdomadário em tese, porque, com raríssimas exceções, nunca consegui cumprir com o prazo semanal. A renovação da coluna foi quinzenal, mensal, trimestral, semestral... que sei eu? Não prometo que, doravante, respeitarei um prazo qualquer. Até porque, se o fizesse, estaria a ser leviano, já que, certamente, não conseguirei ter êxito. O importante, porém, é retomar. E eis que o faço.
Uma dúvida, todavia, assaltou-me furiosa quando decidir reiniciar minha modesta – e bissexta – contribuição: o que escrever? Um conto? Uma crítica? Uma opinião? Uma impressão geral ? Ou seria melhor, primeiramente, de forma tímida, tentar refazer o trajeto para, o menos atabalhoadamente possível, recomeçar da onde parara? Depois de tão longo silêncio e após tantas mudanças no sítio do Crônicas, teria eu condições de retomar um trabalho que, a despeito de tanto apetecer-me, eu tinha relegado à nefanda pilha do “deixo para fazer mais tarde”?
Com toda a sinceridade, até mesmo pensei se a direção da casa aceitaria o retorno das contribuições. Confesso que me fiei na indulgência do Sr. Editor e na do Sr. Editor-Adjunto. E se os Srs. estão lendo este meu desabafo-confissão, é porque logrei êxito. Assim, intimorato, continuo singrando os bravios mares da cronografia, fazendo o que tanto me apetece: esgrimar com as palavras, opinar, criticar, conscientizar... Agradeço a paciência de todos e la nave va...
O que queria hoje discutir, contudo, não guarda relação com os quatro parágrafos prévios. No entanto, senti-me impingido a, antes de ingressar no tema comme il le faut, escusar-me perante todos e tentar, dessa maneira, voltar a qualificar-me para exercer as críticas ou externar as opiniões.
Um cronista não está adstrito a nada. Pode comentar o cotidiano ou um mero detalhe de uma folha de amendoeira que julgou digno de nota. O que importa é a mensagem, o que de bom se pode extrair e o que de positivo pode-se tentar compartilhar. Longe do bom cronista ter a pretensão de ver nas suas palavras a transmutação da verdade absoluta. Se assim pensa, é apenas um pretensioso ignorante. Melhor seria se ficasse calado. Contudo, em uma época onde os sátrapas que nos governam sentem-se livres a pilhar o Erário e, na voz inconseqüente do Supremo Nababo, põem-se a pilheriar e a escarnecer da ética e da honestidade, todos os escrevinhadores travestidos de jornalistas e de “formadores de opinião” sentem-se no dever de dizer a todos o que fazer e como pensar.
Tenho ojeriza e asco a esta expressão: ‘formadores de opinião”. Como assim? Esta odiosa locução é a tradução dita moderna do paternalismo arraigado e tentacular de nossa auriverde sociedade. Por que há que se formar a opinião dos outros? Opinião, formamo-las nós mesmos. Ouvimos as idéias e concepções de outrem, polimo-las, adaptamo-las ou, até mesmo, partilhamo-las, mas nunca as adquirimos prontas, imutáveis. Isso seria sinal de acachapante estupidez. Acaso há algum fast-food de conceitos, idéias e atitudes?
O maniqueísmo é a estrela do tempo presente, onde o sofisma impera e a verdade é vergonhosamente escamoteada para onde não vá incomodar. Se você não pensa como o outro, logo surgem os epítetos: alienado, conservador, reacionário, racista... E, na maior parte das vezes, espezinhando-se a liberdade de expressão e consciência, querem submetê-lo ao pensamento único, à concepção inexorável que lhes serve de verdade. A maioria das pessoas, porém, não se apercebe de tão cruel curso de coisas ou, simplesmente, preferem as gentes calar-se. Tal e qual o sapo, não percebem a água esquentando e morrem sem nem darem-se conta.
Esqueci-me de quem disse que “existem palavras vãs e silêncios eloqüentes”. Pois é isso. O que falta à sociedade é, tão-somente, atitude. É o combate. Prefere o nosso povo o laxismo à luta, a acomodação ao confronto. E, com isso, vão-se perdendo oportunidades, uma atrás da outra, de colocar a nação nos trilhos. Vagamos todos a espera de uma panacéia. Porta escancarada aos aproveitadores de toda a espécie!
Sintomática é a expressão “verdade real”. Como se foi cunhar uma tal excrescência? E acaso existe uma verdade irreal? Posto que, se irreal, não é verdade. A verdade, senhores, é uma só. Pode-se, sim, interpretá-la de diversas maneiras. E, obviamente, algumas interpretações são inidôneas e subvertem-na, mas a verdade, insista-se à exaustão, é uma só. A verdade pode ser dura, dolorosa, cruel, alegre, engraçada, esquisita e uma série de outros adjetivos, mas, seguramente, é irretorquível e uma só. Por que, então, no Brasil, nasceu este aleijão lingüístico? Porque nos acostumamos com as acochambrações, com as mentiras e com o pouco caso com a moral e com a ética. A verdade, então, virou conceito fluido, quase sobrenatural!
Pobre país nosso, onde os companheiros e os amigos do rei se crêem intocáveis. Pobre povo nosso, que prefere a alienação da mendicância oficial ao trabalho e que julga escorreito e justo comprometer o futuro de tantas gerações relegadas aos grotões dos currais eleitorais. Misericórdia com o povo que prefere, diante da derrota ante as hostes de mosquitos, apenas enxergar a culpa no omisso prefeito e no nômade governador (intocável é o trêfego presidente), que, de fato, só merecem opróbrio, mas não foram eles que deixaram as garrafas e pneus ao léu, que deixaram as caixas d’água destampadas etc.; enfim, terá futuro a nação que vê na coisa pública, ao invés de bem de todos, vê coisa de ninguém? Coitado do Gérson, pagou o pato sozinho. Mas a culpa é de todos nós.
Ainda acredito no meu país. Sim, ainda, creiam, apesar de tudo. É possível que tudo mude, mas duvido que eu esteja neste planeta para constatar as mudanças. Não me abandona a esperança, mas faltam-me forças, admito. Tanto a fazer, tão poucos dispostos a batalhar. Como se diz no Rio Grande do Sul, que sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra.
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