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FOLHETIM GOSTO DE SNGUE
TEXTO: ERIKA LIPORACI - ILUSTRAÇÕES: FRANCCI LUNGUINHO |
Rio de Janeiro, Sexta, 03 de Abril de 2009 |
 

Não me perguntem como, mas depois do horror que presenciei eu fui correndo até em casa. Às vezes, parava para tomar algum fôlego e logo recomeçava a correr. Minha cabeça girava e eu tinha certeza de que desmaiaria se parasse. As costelas doíam com a respiração irregular. Corria para não ter que pensar.

A imagem do pescoço do morto me desesperava. Dois furos, redondos como uma mordida de cobra. Aquilo me remetia a alguma informação que minha mente mantinha presa no subconsciente. O que era? Tinha certeza de que aqueles furos significavam algo, mas sempre que estava a um passo da compreensão... me escapulia o sentido. Nossa mente opera por mecanismos de defesa misteriosos. Bendita seja!

Quando alcancei a esquina da Princesa Isabel, senti uma pontada forte nas costelas. Parei e respirei fundo. Não estava acostumado a me exercitar. Por mais que o pânico me impelisse, o corpo falhava. Minhas pernas começaram a tremer e senti as lágrimas rolando, sem que pudesse impedir. Agachei na calçada e comecei a chorar. Primeiro silenciosamente. Depois, aos soluços. Estava tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe de casa. Um travesti, incrivelmente parecido com a Cher, me olhou com curiosidade. Ou seria pena? Me senti patético. Após alguns minutos, consegui me recompor. Talvez tenha sido o olhar de piedade do travesti, mas o que importa é que me sentia inteiro novamente. Não calmo - isso seria impossível -, mas controlado.

Ao chegar em casa, já conseguira recobrar alguma objetividade. No lugar do pavor, uma determinação a descobrir a verdade. Por pior que fosse, seria menos apavorante do que as idéias malucas que me passavam pela cabeça. Minha sanidade mental dependia de uma conversa franca e definitiva com Alicia. Passei pelo porteiro da noite sem cumprimentá-lo - não suportaria amenidades naquele momento - e subi os degraus de dois em dois até o quarto andar.

Pela fresta sob a porta, podia ver que a luz estava acesa. Quisesse ou não, agora ela ia ter que me explicar tudo direitinho! Meti o dedo na campainha. Uma, duas, três vezes. Em poucos segundos, estava esmurrando e chutando a porta. É claro que dessa vez ela abriu. Estava encrencada demais para se arriscar a que alguém chamasse a polícia por conta do meu escândalo.
           
- Eu sabia que você viria - disse ela séria, porém estranhamente calma.

Eu praticamente desabei dentro do apartamento. Ela mantinha-se enigmática e fechou a porta com cuidado, passando um ferrolho. Subitamente desperto para o perigo que corria, descompensei:
           
- O que foi aquilo no calçadão? Que merda foi aquela? Que tipo de aberração é você? - eu queria gritar, mas meus gritos pareciam miados.
           
- Você tinha que se meter, não é? - ela soava ameaçadora, apesar da tranqüilidade exterior.
           
- E o que você vai fazer agora, me matar também?

- É claro que não!

- Por que não? Você parece ter uma longa experiência...

- Pára com isso! Você não sabe de nada!

Ela me olhou indecisa. Provavelmente calculando o prós e contras de acabar comigo ali mesmo. Aqueles poucos segundos pareceram uma eternidade. Finalmente falou. Pausadamente, como quem explica algo óbvio a um idiota:

- Olha, eu não vou te matar. Nunca pensei numa coisa dessas.

- Como posso acreditar nisso depois do que presenciei? Quer dizer, parece que você acabou de furar o pescoço dum cara. E ele está morto. Portanto, eu acho totalmente justificável temer pela minha integridade física.

- Você só tem me ajudado, sem pedir nada em troca. Está certo que você é um tremendo enxerido, mas nunca passou pela minha cabeça te fazer mal.

Como eu nada respondesse, ela continuou:

- O que você acha que eu sou?

- Desculpe se eu estou tendo dificuldade em entender as coisas, mas eu acho tremendamente difícil responder a essa pergunta. É justamente o que eu quero saber! O que, diabos, você é?

Como ela continuava indecisa, continuei. Agora, aos berros:

- Responde, porra!

- Acho que você não iria acreditar em mim.

- Então você não tem nada a perder, porque eu já sei que você é uma assassina. Mentirosa seria um adjetivo mais leve diante disso, não é?

- Eu não sei se...

- Chega de compreensão! Agora eu quero respostas, ou saio daqui direto para a polícia. E nem pense em me dar um sumiço... porque... porque...

- Por que o quê?

- Uma pessoa sabe que eu estou aqui!

- Isso é mentira. Você não teve tempo nem sangue-frio para pensar em avisar alguém. Eu já disse que não vou te ferir. Pára com isso e me ouve, tá bom? E, por favor, não grita.

Achei que o fato de estar na casa dela garantia minha segurança, pelo menos por enquanto. Um pouco menos histérico, sentei no sofá de couro preto e respirei fundo. Alicia sentou-se a meu lado e começou a contar sua inacreditável história, que começara há dois anos.

***
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