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FOLHETIM GOSTO DE SNGUE
TEXTO: ERIKA LIPORACI - ILUSTRAÇÕES: FRANCCI LUNGUINHO |
Rio de Janeiro, Sexta, 20 de Março de 2009 |
 

A boa notícia é que o romance caminhava a passos largos. Depois que Alicia saiu, o chope acabou não rolando. Não tinha mais clima para comemoração. Tirei a camisa e pendurei de novo no cabide, tentando não amarrotar demais. Paradoxalmente ao desconsolo em relação a sentimentos que nem mesmo conseguia definir, corria pelas minhas veias uma excitação mental que me impedia de desanimar. Por conta disso, liguei o micro e mandei ver. A solução para exorcizar os descaminhos que eram minha vida estava no papel, ou melhor, na tela do computador. Quando percebi, estava escrevendo uma cena de alta carga sensual entre Alexia e Maurício. A tentativa da femme fatale de perverter o bom moço.

Logo que conhece Alexia na leitura do testamento do Sr. Bulhões, Maurício sente um misto de atração e repulsa. Incomoda-o o modo como a viúva senta-se ereta e graciosa, sem que nenhum músculo deixe entrever a emoção esperada em alguém que acaba de perder o marido. Pelo contrário, a serenidade da jovem lhe dá arrepios. Seus instintos o previnem que é uma mulher perigosa, o que só faz aumentar sua excitação. Um efeito bem semelhante ao que Alicia causa em mim.

Movido pela curiosidade, Maurício investiga o passado de Alexia e lhe causa estranheza nada encontrar. Parece que a mulher surgira do nada. Até que, por um golpe de sorte, resolve fazer uma busca por viúvas milionárias e acaba topando com uma tal Laura Carnevale. Uma foto desbotada é tudo que ele tem, mas mesmo assim está convencido de que Laura é Alexia alguns anos mais jovem e com um penteado diferente.

Como não poderia deixar de ser, Maurício resolve confrontá-la ao invés de ir à polícia. E é então que Alexia parte pra cima dele, disposta a seduzi-lo e desviá-lo de seu rumo. Ele tenta manter-se íntegro, destratando-a. Mas ela é mais esperta: finge acreditar em sua rudeza e chora, desarmando a frágil fortaleza que ele construíra em torno de si. Foi dado o bote. Impotente e vencido, ele capitula.

Eles têm uma noite fantástica. Maurício fica louco por ela, mas não sabe até que ponto ela barganha o corpo em troca da liberdade. E tampouco o leitor ficará sabendo. Pelo menos, por enquanto.

Está ficando realmente bom. É inacreditável como a história passou a fluir. É quase mediúnico: basta que me sente defronte ao computador que as palavras parecem jorrar da ponta dos meus dedos.

O Ronaldo! Hora de dar as boas novas ao meu zeloso agente. Liguei para ele, empolgadíssimo, e confesso que fiquei um pouco decepcionado com a reação dele à notícia que eu escrevera cerca de 50 páginas na última semana. Só então me dei conta de que havia me traído, já que eu sempre dizia que o romance estava caminhando bem. Fiquei com a nítida impressão de que ele achava que eu continuava mentindo e que tudo que eu dizia agora era somente uma nova modalidade de embromação.

Quem poderia condená-lo? Estava me sentindo o menino daquela fábula, aquele que vive inventando que viu um lobo. Quando, de fato, aparece um lobo, ninguém acredita nele por conta de seus antecedentes de mentiroso. Pelo que me lembro, ele termina sendo devorado pelo bicho.

Para minha sorte, logo fui poupado do constrangimento. Como se tivesse chegado à conclusão de que eu era um caso perdido e seria melhor relaxar e gozar, Ronaldo mudou de assunto:

- Mas e aí, Marcelo? Como estão as coisas na tua área?

- Como assim, na “minha área”?

- Você não leu o jornal hoje?

- Ainda não. O que aconteceu?

- Uma história escabrosa. Parece que tem um serial killer à solta por aí.

- Por aqui, onde? Copacabana?

- Para ser mais específico, cara, na tua vizinhança. Já foram encontrados cinco caras mortos, e dois deles foram vistos naquela boate Penélope na noite em que desapareceram.

Eu estava estupefato! A Penélope era um inferninho a apenas duas quadras do meu prédio.

- Mas por que estão falando em serial killer? - insisti, perplexo.

- Ah, tem algum tipo de ritual no modo como os caras foram assassinados. A polícia não divulgou o que seria esse fator em comum, mas é claro que é só uma questão de tempo até algum repórter conseguir o furo. Abre o olho, meu irmão! Por falar nisso...

Àquela altura, eu não ouvia mais o Ronaldo. No lugar de suas risadas debochadas e piadas de péssimo gosto sobre prostitutas e travestis, ressoou a voz de Alberto Montenegro: “ele estava numa boate perto daqui, num papo animado com uma bela senhorita...”

Terminei a conversa com o Ronaldo o mais depressa que podia sem parecer suspeito - que merda, eu já estava até pensando como um criminoso! -, ao mesmo tempo em que bolava uma estratégia para conseguir a informação de que precisava.

Foi uma sorte não ter varejado aquele cartão pela janela. Mais por distração do que por algum motivo em especial, ele ficou jogado numa gaveta da cômoda. Alberto Montenegro atendeu no primeiro toque e não pareceu muito surpreso com meu telefonema, como se tivesse a plena certeza de que, cedo ou tarde, eu teria que ligar para ele.

- Marcelo Fontes... A que devo o prazer?

- Você disse que ligasse caso qualquer coisa... Bem, não sei se é importante...

- Toda informação é importante para mim, ainda mais vinda de um jornalista investigativo.

- Eu vi uma coisa que talvez seja útil para a tua investigação.

- O que foi? - perguntou, com estudada calma.

- Ontem à noite, eu fui à boate Miami e testemunhei um acontecimento pra lá de suspeito.

Uma dessas garotas de programa estava tentando oferecer seus serviços a um turista. Ele recusou, ou não entendeu a oferta, enfim, dispensou a garota. Mas quando ele se levantou para ir embora, ela fez sinal a um cara que estava bebendo no balcão e os dois saíram atrás do gringo.

Puta merda, que historinha mais babaca eu fui inventar. Alberto Montenegro ficou alguns segundos em silêncio do outro lado da linha. Quando finalmente falou, não podia disfarçar uma certa perplexidade:

- E por que você acha que eu estou interessado nisso?

- Ué, não foi na boate Miami que o cara que você seguia desapareceu? Pode ter alguma correlação, talvez a garota... 

- Não, Marcelo, foi na boate ao lado, a Penélope. Além do mais, eu não cheguei a te falar o nome de boate nenhuma.

- Não?

- Não. Mas não deixa de ser curioso você me telefonar justamente quando sai nos jornais uma história envolvendo esses estranhos assassinatos.

Engoli em seco. Nada escapa a esse cara. Sua aparência desastrada é inversamente proporcional à agudeza de seu raciocínio. Ele resolveu me pressionar:

- O que você sabe? E o que você quer? De verdade?

Desconversei e desliguei. Aliviado, por não ter me deixado cair em contradição. Eu andava especialmente bom em dissimulação. Pelo jeito, o corpo do marido de sua cliente ainda não havia aparecido. Montenegro ficou desconfiadíssimo, mas nem imaginava que já tinha me dado a confirmação que eu precisava. Por outro lado, não pude deixar de notar que ele fizera a mesma correlação que eu. E que essa correlação levava a Alicia.

***
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