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Sempre que tento lembrar como começou isso, penso no barulho dos saltos. Talvez por isso não saiba precisar uma data: os saltos já estavam lá, brincando com meu subconsciente, antes de qualquer aproximação física. Claro. Talvez tenha sido por isso que ela se entranhara em mim com tanta facilidade. Já tínhamos uma relação estranha e onírica muito antes de que me desse conta.
Na verdade, mesmo depois de estar consciente de sua presença, levou um certo tempo até que eu visse seu rosto. Mas seus ruídos já tinham me chamado a atenção muito antes que Arnaldo, o porteiro da noite, me confidenciasse, excitadíssimo, que um “avião” havia se mudado para o meu andar.
Alguns dias depois, pude ver apenas uma silhueta no corredor. Eu chegava em casa, alta madrugada, e ela estava fechando sua porta. O que me chamou a atenção foi que eu havia acabado de subir sozinho no elevador. Teria ela subido pelas escadas até o quarto andar? Registrei o fato sem dar maior importância. Afinal de contas, naquela época eu tinha mais o que pensar.
Lembrei de um daqueles provérbios moralistas que minha mãe adora. Como era mesmo? Ah, já sei: “a mente ociosa é a oficina do Diabo”. Ou algo assim. Naquela noite, eu desconhecia que logo me tornaria um exemplo vivo não apenas para as frases feitas da minha mãe, mas para vários outros clichês patéticos.
Comecei, pouco a pouco, a ficar instigado com a moradora que sempre via de relance. Como se ela estivesse sempre evitando ser vista. Por outro lado, ela não fazia muita questão de ser silenciosa. Várias vezes, me acordou de madrugada com seus saltos altos.
Com a noite, ela. Já aprendi a identificar os sinais: uma freada - por que cargas d’água os motoristas de táxi sempre param tão bruscamente? - seguida de uma porta abrindo de supetão. Depois, os famosos saltos. Barulhentos, rápidos. Atravessando o piso de cimento da calçada, adentrando o hall mobiliado com móveis de gosto duvidoso, parando para empurrar para um lado a grade do elevador antigo. Rangidos fantasmagóricos enchendo o poço do elevador. A essa altura, geralmente eu já estou dentro da cozinha. Enquanto me abasteço de mais uma xícara do café que a garrafa térmica conserva quente porém insosso, ouço a chave dela entrar na fechadura do apartamento aos fundos do meu. Aliás, entrar não é a palavra certa. Violar seria mais apropriado. Sempre me espantou o fato de uma mulher de compleição tão delicada executar movimentos tão bruscos.
Há um ano esse ritual noturno da vizinha provavelmente não seria nem percebido. Ou, se fosse, seria recebido como um inconveniente a mais da vida em sociedade. Estaria longe de ser fascinante ser acordado altas horas da madrugada por uma puta barulhenta que não tem um mínimo de simancol. Mas as prioridades pessoais mudam. E como mudam!
E as mudanças na minha vida não foram daquelas que chamam a atenção. Ah, não. Não foi como no cinema, com uma música sinistra avisando o que me esperava. A vida real não tem tanto glamour!
Para começo de conversa, o sono me abandonou. Talvez seguindo o exemplo de minha namorada. A adorável, bem-sucedida e bem-humorada Cristiana. Não que ela estivesse desprovida de razões. Imagino que deve ser um inconveniente para alguém como ela ter a reboque um amante tão desprovido de glamour quanto eu.
Mas não foi essa a razão. Para ser franco, eu até que contribuí bastante para ser largado. Não vou ficar fingindo também que era louco de amor por ela. Digamos que era mais sexo do que sentimento. Mas orgulho ferido costuma nos fazer dramáticos.
É claro que nem sempre fui um zero à esquerda. Eu tive meus quinze minutos de fama. Após uma vida de mediocridade, que fique bem claro. Não posso dizer que cheguei a ser um vencedor, mas estive realmente a um passo disso. Mas foi mais por estar no lugar certo na hora certa do que por algum talento especial. Aquela reportagem investigativa me colocou mesmo no topo. De repente, todo mundo queria saber quem era Marcelo Fontes, o jovem jornalista perspicaz que desbaratou para a polícia uma rede de pornografia infantil.
O que todos achariam se soubessem que o mais novo prodígio do jornalismo investigativo estava com um pé no seguro-desemprego quando deu esse golpe de sorte? O jornal passava por cortes e eu sabia ser o membro mais dispensável daquela equipe formada por meninos-prodígio advindos da PUC.
Mas os mauricinhos tiveram mesmo que me engolir. Eu, o pária da redação, de repente era assediado por colegas que nem costumavam me dar bom dia. Convidado para festas. Qualquer um se sentiria com a bola cheia.
Mas eu estava falando da Cristiana. Um caso raro, ela. Uma combinação de raciocínio apurado e magnetismo pessoal, escondido numa embalagem de adorável futilidade. Uma espécie de socialite intelectual. Nos conhecemos numa dessas festas que, de repente, passaram a constar da minha agenda.
Logo percebi que era uma mulher que obtinha o que se propunha a ter, e sem esforço. Era belíssima, espirituosa e uma fera nos negócios. Ao contrário do estereótipo que sempre atribuí aos filhos de gente rica - imagem que meus colegas de trabalho só confirmavam -, Cristiana era uma empreendedora. Os pais resolveram emancipá-la financeiramente e, aos 21 anos, lhe deram parte do patrimônio da família. Ao invés de deitar nos louros do que já possuía, ela espertamente aplicou seu capital numa franquia de academias que acabou caindo no gosto das celebridades instantâneas e deixando-a ainda mais rica do que os abonados pais. Uma pequena fortuna construída em poucos anos. Tenho que admitir que admiro o talento dela para os negócios.
Muita gente se engana pela aparência dela, eu mesmo caí nessa esparrela. Mas a verdade é que Cristiana malha o corpo e os neurônios com a mesma fúria. Tem uma sede de estar por dentro de tudo que é assustadora. E, há um ano, quando nos conhecemos, “estar por dentro de tudo” incluía se aproximar do jornalista que aqui vos fala.
Sabe aquele ditado “quanto maior a árvore maior o tombo”? Pois bem. O noveau famoso Marcelo Fontes achou que tinha cacife para aceitar o convite dessa grande editora. A idéia anda muito na moda ultimamente: reunir um time de autores em torno de um tema em comum. E, por mais estapafúrdio que seja o elo, sempre dá certo. Já fizeram sobre pecados capitais, sobre figuras históricas e até mesmo sobre os dedos das mãos. Lucro líquido e certo, penso eu. Eu estava lisonjeado demais por estar na companhia de ídolos como Rubem Fonseca e Patrícia Melo para dar atenção aos apelos da razão: sim, eu iria escrever um romance noir de encomenda.
Minha experiência literária? Nenhuma. Mas eu era um jornalista. Com uma boa dose de imaginação e, quem sabe, me inspirando no noticiário, iria sair alguma boa idéia. Além do mais, aquele gordo adiantamento foi um verdadeiro bálsamo no meu orçamento limitado. Aquela reportagem me deu prestígio, mas não pagava minhas contas. |