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francci.lunguinho@gmail.com

» Rio de Janeiro, 5 de agosto de 2006

Um pouco de felicidade

Particularmente, eu adoro a Praça Mauá. Passo lá quase todos os dias, vindo ou voltando do trabalho. É estressante, o trânsito é infernal e as pessoas não olham umas às outras. Mas eu gosto disso. De manhã, o corre-corre assusta: gente que passa apressado, carros e seus motoristas mal-educados, afinal, ali é o início da Avenida Rio Branco, a mais movimentada do centro do Rio de Janeiro. Mas, mesmo assim, eu gosto disso! Gosto de saber que ali ainda existe um pouco da boemia e solidariedade. À noite, o local vira às avessas: as pessoas são outras, a agitação é grande, e é paradoxalmente mais lento.

Às vezes, sem mais nem menos, sento num banco da praça e fico por horas a fio. Observo o vai-e-vem frenético dos carros e dos transeuntes. E, de tudo, o que mais me chama atenção é o ser humano.

Foi justamente num desses momentos, que eu conheci a família de Zirão. Ele, que diz ter vinte e seis anos, embora aparente mais de 30, cuida para que todos permaneçam sempre unidos. A mulher, bem mais velha, apesar de não saber ao certo a idade, me pareceu ter entre 40 e 45. O filho mais velho, um rapazinho de uns 13 anos, e a caçula de 6, compunham aquela família.

De fato, Zirão é bem mais jovem, mas isso não o tornou submisso. Ele é o líder da família, um sujeito dócil de gestos calmos. É ele que eu vejo organizar os panos que serviram para dormirem na noite anterior e os por numa sacola, enquanto a mulher o espreita com ar de aprovação. Ralha com o filho mais velho por ele ter saído, mais cedo, e ficado “passeando” pela Cinelândia e Praça 15, enquanto afaga a cabeça da menorzinha, choramingueira por não saber onde deixara o único brinquedo que possuía: uma boneca seminua e rabiscada. Pediu calma para a mãe que resmungava impaciente a falta de leite no café, embora ela, não estivesse exatamente ríspida. Mesmo assim, havia naquela família uma felicidade. Uma felicidade que não sei explicar, porque, acho eu, felicidade é algo que não se explica.

Fiquei ali, observando e imaginando que a felicidade deles poderia, magicamente, também ser a minha. Quando me dei conta, já não estava mais só observando-os, mas interferindo, sondando-os e dando-lhes conselhos. Foi aí que fiquei sabendo um pouco de suas histórias. O pai, apesar da pouca idade, já estava em seu terceiro casamento, mas afirmava, quase em confissão, que com aquela família encontrara a paz. Sonhava em ver a filha veterinária, já que ela era chegada a cuidar dos bichinhos. Obedecia às Leis Divinas e esperava não mais sair das ruas e comprar a tão sonhada casa, mas viver mais uns 20 anos e ver os filhos felizes. Ele mesmo fez as contas: 26 anos que tinha mais 20 que esperaria viver, daria para ver esse sonho se realizar, embora acredite que quem vive nas ruas morre cedo.

Volta e meia eu passo na Praça Mauá à procura da família do Zirão. Às vezes vou visitá-lo, levar uma comida ou uma brinquedo para sua filha. Ou, simplesmente, vou vê-los para não esquecer de como a felicidade custa pouco.

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Francci Lunguinho é editor do Crônicas Cariocas.

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