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» RIO DE JANEIRO, 19 DE AGOSTO DE 2006

Amor

Há algo engraçado no amor. Pense em como ninguém nunca conseguiu defini-lo. Dizem muito sobre ele e alguns o fazem de maneira soberba, com versos lindos, de métrica perfeita, plenos de ritmo, alguns com sonoridade heróica, magníficos de fato; mas definição que é bom... nada. Mais engraçado ainda é que quem melhor o diz, provavelmente nunca o sentiu de verdade, faz conjecturas, imagina coisas bonitas, pelas quais vale à pena sofrer... e como sofrem, muitas vezes até com feridas que doem, mas não se sentem. Sofrimento antecipado que não há como entender; sofre-se antes, durante e depois destes amores imaginados ou, até mesmo, idealizados. A impressão que fica é que o amor mata a quem dele vive, que glorifica e engrandece, mas pelo martírio, não pela felicidade. As pessoas geralmente o associam a coisas tristes ou sérias, deixando as alegres e divertidas para a paixão ou o sexo.

O que me causa muita estranheza é o fato de o amor, dito como puro, sofrido e sincero, ter como regulador o sexo, dito como impuro, prazeroso e carnal, e que é a essência deste amor sobre o qual estamos falando, pois sem este, aquele seria o mesmo que o amor entre irmãos, ou pais e filhos. Amor e sexo são coisas independentes e bem diferentes, mas um não sobrevive sem o outro quando se referem às mesmas duas pessoas, o amor não dura para sempre sem o sexo, no máximo vira outro tipo de amor, fraternal, paternal ou maternal, mas nunca o mesmo, e o sexo sem amor é aventura, sobrevive do tesão, que sem sentimento, invariavelmente acaba, embora muitas vezes, para não dizer quase sempre, deixe lembranças e histórias para o resto da vida.

Posso falar sobre ele de forma bonita. O amor é árvore que dá fruto e seiva ao sentimento, raiz que ramifica em dores e lamentos, e hora se transfigura em rosas, em botões, deixando em fogo, em brasa, os corações. Não é original, é um excerto de um poema que li num caderno de poesias da minha avó. É lindo, mas não é uma definição. São metáforas maravilhosas que falam sobre o amor, mas não o definem, não nos dão compreensão.

Quis compreender o amor, quis amar um dia. Amei, ainda amo. Sinto, como sinto. Milhares de sentimentos oriundos deste amor: felicidade, sofrimento, ciúme, desejo, entre tantos outros. Não há nada igual, mas, ainda assim, não o compreendo, pelo menos, não de todo.

Minha experiência deu-me a capacidade de perceber algumas características, como a covardia. Pergunte a qualquer pessoa que ame se ela prefere morrer antes ou depois da pessoa amada; a resposta quase sempre será: antes. Ninguém quer sofrer a perda da pessoa amada, na verdade prefere ir antes, mesmo sabendo que a pessoa que ficou vai sofrer tanto quanto ela sofreria. É ou não é covardia? Sim! O amor é covarde, mas também é corajoso, faz você tomar atitudes impensáveis em nome dele, até mesmo a de se oferecer à morte. Olha a antítese aí de novo.

O amor é incompreensível, posto que é antítese, metáfora e tantas outras figuras, unidas numa miscelânea sem forma ou fórmula exata. Ainda assim, é mola mestra. Não tem definição, mas é exatamente aquilo que nos define.

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Fabrício Mohaupt, Tito, 35 anos, carioca, torcedor do Flamengo, é roteirista, escritor e rato de livrarias e bancas de jornal; também é Editor-adjunto do CrônicasCariocas.

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