CAP.
11 - Ding, Dong!
Nada.
Ding Dong.
Nada.
Diiiing Doooong.
Diiiing Doooong.
“Já vai meu cace@#$%. Gente desesperada não sabe esperar não?”.
Sai Raposo molhado, todo ensaboado de dentro da banheira.
Escorrega no chão, se segura na pia, derruba o perfume, quebra
o vidro, corta o dedo do pé.
“Pu$#%$%¨%&%$, ai meu dedo.”
Se enrola na toalha, sai pingando, atravessa a sala e enfim
chega até a porta, onde uma criatura, provavelmente Matilda,
que esqueceu a chave toca a campainha desesperadamente.
“Bom dia senhor, estaria o senhor disposto a responder nossa
pesquisa do Censo Brasil 2009?”.
“Você deve estar de sacanagem meu querido, saí do banho, quase
quebrei a coluna, cortei meu dedinho, molhei a casa toda e
é somente você? Não tem mais o que fazer não”
“Na verdade senhor, tenho mais 53 pessoas para completar a
pesquisa no dia de hoje. O senhor está disponível?”
“Disponível? E lá eu sou programação de TV pra estar disponível?
Sarta fora daqui antes que te acerte a fuça.”
Neste exato momento entra Matilda.
“Ô Raposo, isso é maneira de falar com o rapaz? Ele está fazendo
o trabalho dele.”
“Que faça o trabalho dele, mas longe daqui, sem em encher
o saco.”
“Querido, pode entrar, ele está disponível sim e fará a pesquisa
pra você, não é Raposo??”
Quem pode resistir aquele olhar tão doce de menina-possuída-em-filme-de-terror-classe-B
de Matilda?
“Claro meu bem, farei a pesquisa pelado e com o maior prazer.”
“Ok, Senhor, então vamos começar:”
“Nome:”
“Raposo Von Shultzer da Silva”
“Pode soletrar o segundo nome?
“Não, isso aqui não é programa do Luciano Huck, se não entendeu
num escreve.”
“Idade:”
“Do tempo que era falta de educação perguntar a idade à alguém.”
“Profissão:”
“Não te interessa.”
“Senhor, preciso de dados claros para a pesquisa.”
“Tá ferrado, aqui em casa só tem dado vermelho e preto.”
“O Senhor é tão engraçado né?”
“Tá me chamando de palhaço? Vou parar por aqui.”
“Não, senhor, me desculpe, continuando. Escolaridade:”
“Minha escola é da idade da pedra.”
“Quero dizer, senhor, o grau de instrução:”
“Zero, assim como a minha tolerância.”
“O senhor é casado?”
“Não, sou viúvo, pois vou matar minha mulher assim que você
sair por te me torrado o saco pra responder esta pesquisa
idiota.”
“Raposoooo”- grita do banheiro Matilda -“Responde o moço direito.”
“Ok Mon amour.”
“Senhor, quantas Tvs o senhor tem em casa?”
“Duas, porque, vai pedir emprestado, perdeu tempo, num empresto.”
“Quantos rádios à pilha?”
“Nenhum, o Zé porteiro me levou todos.”
“Quantas geladeiras?”
“P%%%$%#, uma só né seu mala. Mas num tem lanchinho não”
“Quantos aspiradores de pó?”
“Vem cá, isso é pesquisa, ou vc tá se candidatando a faxineira
aqui pra casa, pra que você quer saber isso?”
“É da pesquisa senhor. Falando nisso, quantas empregadas diaristas.”
“Uma só, a senhora sua mãe vem aqui toda terça feira quando
tem folga lá no galinheiro.”
“O senhor está me ofendendo.”
“Meu filho, você que é um intrometido, quer saber de tudo.
Larga de ser fofoqueiro.”
“OK senhor falta pouco, vou relevar.”
“Relevar não, vc vai é levar essa sua bunda gorda daqui porque
já tô de saco cheio.”
“Quantos carros o senhor possui?”Uma Pesq
“Essa é fácil, um Porche Carrera, uma Ferrari vermelha, um
Lamborghini e um carro de Funerária, que é aonde vou te dar
uma caroninha... Entendeu? Ou quer que desenhe?”
“O senhor tem filhos?”
“Não, mas de vez enquanto aparece um filho da p@#%@%, pra
me encher o saco.”
“Agora chega, quem o senhor pensa que é pra falar assim comigo?”
“E eu lá sei, é você quem tá fazendo a pesquisa, não sou eu.”
“Muito engraçadinho, se eu não estivesse trabalhando enfiava
a mão na sua cara.”
“Enfia, que eu tô doido pra bater num GBO(grande-bobo-e-otário).”
Em um segundo a sala vira um rinque de vale-tudo, roda Raposo
pra lá, roda pesquisador pra cá, toalha num canto, caderno
do Censo no outro e Matilda tomando banho não escuta nada.
Os dois se debatendo mais que pipoca na panela, e a essa altura
o prédio inteiro já ouvia o barraco.
Quando os dois se dão conta, já estão agarrados rolando pelo
hall social e o pior de tudo, Raposo peladão.
A porta do elevador abre e quem aparece?
O Silva e Dona três pontinhos, a sogra.
“Mas o que que é isso Raposo, eu não sabia que tú era dessas
coisas, tantos anos seu amigo e nunca reparei nessa sua preferência.”
“Raposo, trair minha filha até vai, porque ela é uma mala
e merece, agora com esse barbado ai num dá né. Trocou de lado
agora? Que pouca vergonha é essa?”
Raposo, não vê nada nem ninguém, só quer acabar com aquele
folgado e nem escuta a sirene da polícia chegando na porta
do edifício, que o Zé porteiro chamou.
Matilda acaba seu banho tranqüilamente, nada melhor que um
bom banho depois de um dia cansativo.
Uma hora de imersão na banheira, no seu banho de sais e ervas
ouvindo suas preferidas no Ipod e está novinha em folha, pronta
para convidar Raposo para um passeio no shopping, quem sabe
até um teatro?
Coloca seu roupão e suas Havaianas e vai até a sala ver se
Raposo já terminou a pesquisa com o simpático rapaz.
“Raposo, você já terminou? Raposo. Raposo. Cadê você?”
A porta aberta, toalha no chão, tudo revirado na sala parece
não ser uma boa coisa.
Cacos de vidro espalhados pelo chão do Hall Social, quadros
derrubados da parede definitivamente algo estava bem errado
ali.
Corre até a janela onde percebe ouvir um certo reboliço, e
ao chegar e se debruçar depara-se com uma cena um tanto surreal.
O carro da polícia, sua mãe, o Silva, Raposo peladão, algemado
bunda a bunda com o rapaz do censo, e uma multidão de curiosos
gritando:
“Esfola, esfola, esfola. Pega essas bichas velhas, sem-vegonha”
Neste exato momento:
Ding Dong.
Ding Dong.
Diiiiing Dooong.
Raposo acorda suado e assustado no sofá e:
“Ufa! Era tudo um pesadelo, ainda bem.”
Corre até a porta e suspira aliviado, é Matilda.
“Oi meu amor, olha que gentil, subi com esse rapazinho super
simpático no elevador e ele quer fazer uma pesquisa rapidinho
com você, atende ele enquanto eu tomo banho querido.”
“Não, tudo de novo não.....”
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