Wilmar Silva fala da Literatura em Belo Horizonte
Por Fernando Monteiro Neto
Rio de Janeiro, 30 de maio de 2007

Fotos: Luiz Edmundo Alves
Conheci Wilmar Silva em uma aula da Ana Elisa Ribeiro, de literatura brasileira, na qual ela tentava responder um questionamento de seus alunos: “não tinha escritor vivo, não?”. Tinha. Tem.
Ela levou Wilmar Silva e Luiz Edmundo Alves pra fazerem uma performance e discutir seus textos ali mesmo, na sala de aula. Eu entrei nessa por convite de Ana Elisa. Depois encontrei Wilmar Silva no ônibus e me assustei. Ele não só era poeta vivo como vivia perto de mim. Ele me deu seu livro, “Cachaprego” e então começou uma intensa amizade coletiva (continuamos a nos encontrar pelos ônibus). Quando convidado por Ana Elisa para fazer um texto sobre a literatura em Belo Horizonte para o Jornal do Café com Letras, pensei logo em Wilmar Silva. Ele me respondeu as questões com bom espírito e disposição, mas o jornalismo é feroz (em sua mediocridade?) e surrupiou muito do conteúdo de suas frases em prol da pauta geral da matéria. Aqui vai o que fica para além das pautas e roteirizações prévias: um poeta pensando a si próprio, sua cidade e sua linguagem, talvez todos aspectos de uma mesma faceta, afluentes de um mesmo rio. Sigamos o fluxo, então:
A entrevista:
CRÔNICAS CARIOCAS - Como é fazer literatura em Belo Horizonte?
WILMAR SILVA - Sempre trabalhei com poesia em Belo Horizonte, “Lágrimas & Orgasmos” (1986) a “Estilhaços no Lago de Púrpura” (2006). “Águas Selvagens”, “Dissonâncias”, “Moinho de Flechas”, “Cilada”, “Solo de Colibri”, “Çeiva”, “Pardal de Rapina”, “Anu”, “Arranjos de Pássaros e Flores”, “Cachaprego”. Uma dúzia de nomes, tiragem 1000 exemplares, esgotados. E sempre produzi espetáculos de poesia, com pesquisa de linguagem. “Subida ao Paraíso”, por exemplo, participou do projeto “Cabaré Voltaire” do Centro de Cultura Belo Horizonte. Também “Afrorimbaudelia”. “7 minutos de êxtase no Cachaprego” foi apresentado na 3ª Zona de Ocupação do próprio Centro de Cultura. “Solo a Solo”, encenado em Minas Gerais e Brasília. “Ais”, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A antologia “O Achamento de Portugal” lançada no Brasil em 2004 (Anome Livros/ Consulado de Portugal/ Fundação Calouste Gulbenkian/ Instituto Camões), 40 poetas, é um espelho da poesia contemporânea em Minas Gerais, a sair no México (português/espanhol). O projeto “Terças Poéticas”, 05 de julho de 2005 a 12 de dezembro de 2006, Palácio das Artes, parceria Suplemento Literário de Minas Gerais e Fundação Clóvis Salgado, da Secretaria de Estado de Cultura de MG. Publicado o catálogo “Terças Poéticas: jardins internos” (2006), com a presença de quase todos os poetas que fazem poesia em Minas Gerais, com participações de autores do interior de Minas e também de outros Estados do Brasil, criando um diálogo entre correntes e contracorrentes poéticas. Enfim, Fernando Monteiro, fazer literatura em Belo Horizonte é trabalhar durante toda uma vida e ainda ficar com a impressão do zero infinito.
CRÔNICAS CARIOCAS - Você participou de algumas revistas literárias, qual é o papel de uma revista de literatura em tempos de blogs e tantas outras tecnologias?
WILMAR SILVA - Sim, fui publicado em revistas no Brasil e no exterior, França, Itália e Portugal. Penso que o papel é um espaço incomparável a qualquer moradia da palavra. E falo que sou também apaixonado por florestas virgens além das árvores, porque sempre realizei as mais diferentes experiências de linguagem com o poema em si e a língua da poesia. Mas o papel de uma revista de poesia é produzir a descoberta do silêncio dos olhos nas mãos. Tenho, por exemplo, uma coluna de entrevistas no site www.germinaliteratura.com.br, “wilmar silva ao tríptico”. Escrevi um poema “São Poema” declarando a poesia enquanto signo do corpo e esse amor – para usar uma palavra carpe diem por qualquer ser vivo mesmo sem a língua –, revela que o papel do artista é puxar um labirinto para emocionar seus semelhantes, seres de qualquer espécime.
CRÔNICAS CARIOCAS - Em uma época tão afeita às imagens, quais as formas de se atrair a atenção das pessoas para a palavra escrita?
WILMAR SILVA - Fernando, a poesia é a origem da língua e a palavra é a origem do ser humano enquanto homem, mas a palavra é por natureza o idioma de uma civilização e a língua do individuo enquanto sujeito. Nenhum de nós sem substantivo será nome próprio. Praticar a palavra ou a fala não apenas sendo um verbo, mas aquilo que Heidegger manifesta: “fundação do ser mediante a palavra”, portanto, puxando à memória Ezra Pound “aquilo que amas muito não será tirado de ti”, a palavra é o corpo encarnado da língua. Mas vamos puxar as pessoas ao labirinto das palavras, provocar a fuga de uma ilha ao oceano: a palavra é a origem da minha poesia, mas sou um poeta das imagens porque é impossível abandonar as imaginações. Herberto Helder é.
CRÔNICAS CARIOCAS - Há uma saída para além das leis de incentivo? Quais, se houver?
WILMAR SILVA - Há, Fernando Monteiro Neto. Descobrir que é preciso falar e praticar a verdade. Ser pedra, mas ser também espelho. Quero aprender a partilhar e partilhar é um nó para aqueles que trabalham a “linguagem voltada para a sua própria materialidade”, subvertendo Jakobson.
CRÔNICAS CARIOCAS - Você como escritor, como gostaria que sua obra fosse divulgada? Quais meios você julga mais adequados e/ou eficazes?
WILMAR SILVA - Sou um poeta da terceira e última margem e não um escritor, Monteiro. Que a minha poesia fosse poemas antes de todos os passos de todos os pés de todas as pessoas e poemas depois de todos os passos de todos os pés de todas as pessoas. E seres. Escrevi e publiquei. E aprendi na prática que apenas eu sou a imagem da minha poesia. Sou um Gary Snyder, “Quanto aos Poetas”: As for poets/ The Earth Poets/ Who write small poems,/ Need belp from no man.
CRÔNICAS CARIOCAS - Você acha que é papel do escritor empreender ações no sentido de divulgar sua obra, bem como a literatura em geral?
WILMAR SILVA - Sim, Senhor, a minha prática sempre foi essa, Fernando Monteiro, e jamais pensei que fosse diferente, e hoje menos ainda. Eu sou a poesia e o meu corpo é o meu poema. Sou um Macunaíma intransitivo.
CRÔNICAS CARIOCAS - Você transita em várias linguagens, como a performance, o teatro, o texto escrito, etc. Você acha que há receptividade e espaços em BH para esse tipo de lida com a linguagem poética?
WILMAR SILVA - Há espaços em Belo Horizonte e em qualquer lugar do mundo, porque o poeta é a vida em sua explosão, viva Arthur Rimbaud! E o paraíso perdido de Milton César Pontes.
CRÔNICAS CARIOCAS - Você organiza o “Terças Poéticas” (e o “Terças”, volta? pode ser falha minha, mas não tenho mais visto nada do projeto), como foi e está sendo essa experiência para você?
WILMAR SILVA - Ser curador do projeto de leitura, vivência e memória de poesia “Terças Poéticas” foi uma experiência de fábulas na minha vida, porque sempre fiz projetos para contemplar uma verdade que é a verdade de muitos que fazem poesia nesse “que país é esse”. Imagine, Fernando, entre 05 de julho de 2005 e 12 de dezembro de 2006, 80 poetas vivos se apresentaram lá nos jardins internos do Palácio das Artes, mostrando que é possível realizar as mais diferentes experiências com a poesia em si, com a língua e a voz, o corpo e a poética do ser, a língua portuguesa elevada a um código altamente recomendável. Fernando Monteiro Neto, pense: cinqüenta e seis edições, oitenta poetas vivos, sessenta e oito homenagens a poetas mortos, mais de duzentos artistas habitaram o jardim das delícias do Palácio das Artes. Reticências ao infinito.
CRÔNICAS CARIOCAS - No “Terças” você lida mais com a leitura de poesia, mesmo lidando com novos suportes e tecnologias, você acha então que o ideal é confluir essas formas de existência da poesia: a tecnologia não matando a palavra escrita ou falada, mas convivendo?
WILMAR SILVA - Sim, Fernando, afluência.
CRÔNICAS CARIOCAS - Você organizou uma antologia do “Terças Poéticas”, que é quase que um fidelíssimo radar da produção atual da poesia da cidade, você percebeu alguma tendência, ou o laço unificador contemporâneo é a multiplicidade?
WILMAR SILVA - O catálogo “Terças Poéticas jardins internos” é um radar da poesia contemporânea brasileira em Minas Gerais – “técnica ou equipamento para localizar objetos moveis ou estacionários, medir-lhes a velocidade, determinar-lhes a forma e a natureza, e que utiliza a emissão de microondas e a detecção e análise do pulso refletido pelos objetos”. Sem esquecer em “O Achamento de Portugal” (2004), e para 2007 a antologia “Paranahyba”, com a participação de poetas contemporâneos de Goiás e Minas Gerais.
CRÔNICAS CARIOCAS - Quais são os perigos e vantagens de uma antologia?
WILMAR SILVA - Todos os perigos da vantagem.
CRÔNICAS CARIOCAS - A poesia tem público?
WILMAR SILVA - Made in Terças Poéticas.
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