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Rio de Janeiro, 25.01.07 |

Entrevista: NIZO NETO, POR IRLENY FERREIRA*

Nizo Neto mostra a cara no show "Falando Sozinho"

Nizo Neto

Aos 42 anos, Nizo Neto vive um bom momento na carreira. Se diz satisfeito com a vida e com o trabalho. Amante da mágica, já integrou as entidades International Brotherhood of Magicians, International Magicians Society, Society of American Magicians, Academy of Magical Arts & Sciences, Clube Mágico Português. Foi Diretor Social, por dois anos, do Círculo Brasileiro de Ilusionismo. Escreveu uma coluna para a revista portuguesa “O Mágico”, referente ao tema. Apaixonado por cavalos, já nutriu o sonho de ser jóquei, mas o seu peso e altura o fizeram desistir. Desde 1971, quando estreou com o pai na televisão, no programa Chico em Quadrinhos, o ator não parou de produzir. Conhecido pela versatilidade, é também dublador, compositor, e canta em seus shows. Já emprestou a voz para diversos personagens de animação e filmes. Entre os mais comuns, Mickey Mouse (por dois anos), Barney (Flintstones) e Presto (Caverna do Dragão). O comediante está em cartaz com o show Falando Sozinho, no Teatro dos Grandes Atores, no Barra Square, de sexta à domingo, às 23h. O texto é dele, e quem assina a direção é a atriz Cláudia Rodrigues.

A entrevista:

Crônicas - Algumas pessoas ilustres, filhos de outras mais ilustres ainda, já comentaram o lado bom e o ruim de ter um apadrinhamento tão forte. Você acha que ser filho de quem é (Chico Anysio) já o ajudou ou o prejudicou em alguns aspectos?

Nizo Neto - Tudo na vida tem um lado ruim e um lado bom, sem exceção. Ser filho do Chico Anysio não seria diferente. Muitas portas se abrem e algumas se fecham. Acho que ser filho de famoso é legal, mas se paga um preço.

Crônicas - A Maria Rita, filha da Elis Regina, chegou a pedir que não a comparassem a sua mãe. Você acha que essa comparação ofende ou é uma honra?

Nizo Neto - Ligar meu nome ao do meu pai é inevitável. Já me comparar com ele é covardia. Como no caso da Maria Rita, sou filho de uma pessoa de talento anormal, fora do comum. Ser comparado ao Chico Anysio é o equivalente a ser comparado ao Peter Sellers ou Anthony Hopkins. São seres dotados de um dom acima da média e não é à toa que são considerados gênios.

Crônicas - Inclusive, no espetáculo, você faz piada disso. É verdade que você é quase sempre  confundido com o “Seu Boneco”, papel escrito pelo seu pai para seu irmão?

Nizo Neto - Agora não tanto porque a Escolinha está fora do ar faz um tempo. Mas na época do programa confundiam muito. Nem é questão de confundir, é um fenômeno que muitas vezes ocorre quando as pessoas “reconhecem” artistas na rua. Às vezes na hora dá um nó na cabeça delas e elas te confundem com as pessoas mais absurdas.

Crônicas - Você acha que trabalhar em televisão seja primordial para que um artista seja conhecido, pelo menos nacionalmente?

Nizo Neto - Ajuda muito. Esse país é muito grande e, infelizmente, uma grande minoria tem condição de pagar por entretenimento. Por isso a TV é crucial para fazer a pessoa conhecida nacionalmente.

Crônicas - Isso o ajudou na hora de montar o show?

Nizo Neto - Pra vender a coisa, ajuda, com certeza. Não resolve, mas ajuda.

Crônicas - Em Falando Sozinhovocê resolveu “botar a carinha de fora”. Como é isso?

Nizo Neto - As pessoas têm uma imagem muito limitada a meu respeito. Me considero um privilegiado de chegar aonde cheguei, mas ainda não pude dar ao público a chance de ver o meu real talento. Não há lugar melhor do que o palco pra mostrar isso. E eu sozinho, por uma hora e quinze minutos, não tenho pra onde escapar. Sou eu mesmo ali e acabou, tenho que me mostrar por inteiro. Resolvi me mostrar por isso mesmo, para as pessoas me conhecerem melhor. Como artista e como pessoa.

Crônicas - Você tem 42 anos e além de ator é ilusionista, cantor, escritor, dublador, pai, marido etc. Você acha que no Brasil tem que ser versátil para sobreviver?

Nizo Neto - Eu não sou cantor, sou um ator que canta. Acho que seja no Brasil ou em qualquer lugar, versatilidade ajuda em tudo na vida. Quanto mais coisas você souber fazer mais possibilidades você tem. Seja no ramo que for.

Crônicas - Ainda tem algo que lhe falta na vida?

Nizo Neto - Sei lá, viver é uma arte e em arte a gente não pára de crescer e de aprender. Sempre vai faltar alguma coisa na vida, isso é do ser humano. E talvez seja isso que nos mova.

Crônicas - O que gostaria que te acontecesse de novo?

Nizo Neto - A gente sempre gostaria de ter um controle remoto, como naquele filme do Adam Sendler, pra voltar e consertar umas merdinhas que a gente fez na vida. Mas eu acho que não fiz tantas assim a ponto de ter o tal controle. Não me arrependo de nada. Bom, nem sei se foi essa a pergunta...

É um show bem variado, e eu diria que bem honesto

Nizo Neto

Crônicas - A mágica, de certa forma, é lúdica. Como é essa sua ligação entre a mágica que você adota para o show e sua vida profissional?

Nizo Neto - A mágica é considerada a “Rainha das Artes” (pelo menos por nós, mágicos!). Acho isso perfeito porque só pelo simples fato de que na mágica TUDO é possível, já a qualifica para esse título. Por enquanto eu não tenho no meu show o quanto de mágica que eu queria que tivesse, porque colocar mágica em qualquer espetáculo simplesmente complica. Por isso optei por usar a mágica como “ponto de ligação” de alguns números, ou seja, exceto pelo número final, eu não “paro” para fazer mágica. Mas ainda vou montar um show só de mágica. Com muito humor, claro.

Crônicas - Como foi o trabalho de direção de Cláudia Rodrigues (na TV com A Diarista)?

Nizo Neto - Ótimo. Ao contrário do que muitos possam pensar, ela realmente foi lá dirigir e não somente “emprestou” o nome. Quando eu pensei na Claudinha, claro pensei também no nome dela, não vou ser hipócrita, mas sabia que ela poderia contribuir bastante. E contribui. Só o fato de ela ter chamado a Anja Bittencourt para co-dirigir já valeria. Devo muito às duas que acreditaram no projeto e no meu talento com muito carinho e se dedicaram sem esperar nada em troca.

Crônicas - Esta seria uma nova fase de sua carreira ou, de alguma forma, é apenas conseqüência de um trabalho de anos, tanto na TV como no teatro?

Nizo Neto - Os dois. Como poderia ser uma nova fase se não tivesse a fase de trabalho de anos? Com certeza vivo agora uma fase de grande amadurecimento artístico. O fato de ter me definido, diria até mesmo ter assumido ser comediante foi muito importante e com certeza está sendo decisivo na minha carreira. O fato de ter escrito um show solo de humor pra eu fazer e ter corrido atrás pra realizar e de também estar no projeto Riso de Janeiro, que é um show de variedades de humor que eu apresento às segundas-feiras no CCC, Rio, mostra bem isso.

Crônicas - Sites como YouTube e Orkut estão cada vez mais sendo usados por artistas para divulgação de trabalhos. Como você enxerga essas possibilidades?

Nizo Neto - A internet entrou na vida das pessoas como um furacão e está aí pra cada vez mais nos inundar com todo tipo de informação. Acho tudo isso muito bom, assim como as Web TVs, são ótimas formas de se divulgar nossa arte e uma forma de comunicação com uma rapidez absurda em crescimento constante.

Crônicas - Fala um pouco sobre o show Falando Sozinho?

Nizo Neto - Falando Sozinho é um show 90% Stand-Up Comedy, que é aquele humor bem cru criado nos Estados Unidos, onde o comediante entra e, diante do microfone, fala de coisas engraçadas da vida que a gente vive quase todo dia e nem percebe. É um tipo de humor muito atual e, lógico, MUITO engraçado, que, pra quem vê, parece muito simples de se fazer. Mas como eu gosto de várias formas de humor, tem também monólogos onde eu faço personagem (um deles eu contraceno com a voz do Tony Ramos), faço algumas mágicas e canto também. Enfim, um show bem variado, e eu diria que bem honesto, porque, pelo que eu tenho feito por aí, noto que as pessoas, além de saírem bem felizes, saem conhecendo um pouco mais de mim. Isso até complementa a pergunta sobre “botar a carinha de fora”.

Crônicas - Você morou um tempo nos Estados Unidos, onde trabalhou como barman e acabou se profissionalizando. O que essa experiência trouxe pra você no preparo como artista?

Nizo Neto - Tudo que um artista vive na vida pessoal com certeza vai acrescentar  a ele profissionalmente. Foi uma bela experiência atrás do bar, mas o que eu aprendi mesmo como barman é que o bom mesmo é ser artista!

Crônicas - Você brinca o tempo todo com os diversos personagens que povoam o cotidiano carioca. Gente famosa, até seu o pai é citado em suas piadas. O que é mais fácil fazer rir hoje em dia?

Nizo Neto - Nesse tipo de comédia de cotidiano TUDO pode fazer rir. Sendo observador e tendo um bom senso crítico e de humor dá pra se fazer piada de praticamente tudo.

Crônicas - E esse gosto pelos cavalos?

Nizo Neto - Sempre adorei cavalos. Meu pai tinha cavalos no jóquei quando eu era criança e meu sonho era ser jóquei (e de certa forma ainda é...). Com 1,87m e pesando 80 kg, no dia em que inventarem corrida de elefante eu tenho alguma chance. Por causa da minha altura (graças a Deus!!!) tive que optar pelo hipismo, que eu pratiquei por anos. Ainda temos cavalos de corrida e eu acho um esporte muito emocionante e belíssimo.

Crônicas - Fale de sua experiência com dublagem de filmes e desenhos animados. E como é dublar filme pornô?

Nizo Neto - Dublagem é uma grande escola para o ator , ela substituiu o rádio. Embora como espectador , eu prefira ver filme legendado , tenho profundo respeito pela dublagem e eu considero a brasileira entre as melhores do mundo. Quanto a minha experiência como dublador de filmes pornô , vocês vão ter que assistir Falando Sozinho pra saber como foi....

Crônicas - O ano de 2006 foi excelente pro teatro do Rio, e em 2007 já aconteceram várias estréias de peso. Estamos vivendo um momento bom para o teatro carioca?

Nizo Neto - Acho que sim. Temos excelentes espetáculos em cartaz, mas ainda é muito difícil colocar público nos teatros. O Rio não tem muito essa cultura de teatro, talvez por ser uma cidade praiana. Mas esse ano entrou bonito. O difícil é patrocínio, né? Isso é um mistério!

Crônicas - Quais as peças, além do “Falando Sozinho”, claro, você recomendaria assistir aqui no Rio de Janeiro?

- O Pregoeiro (Espetáculo com o ator e clown Marcio Libar). Sexdta à domingo, 21h, na Casa da Gávea (até domingo 28/01).

- Riso de Janeiro (Show de humor comandado por Marcio Libar e Nizo Neto. Cada semana um show diferente com quatro comediantes convidados). Segunda-férias, às 21h, no Centro Cultural Carioca (Pça. Tiradentes).

- Comédia em Pé (Show de humor comandado por Cláudio Torres Gonzaga). Quarta-férias, às 21h, na Casa de Cultura Laura Alvin (Sala Rogério Cardoso).

- Nada Contra (Espetáculo de Improviso com a Cia. Teatro do Nada). Sextas e sábados, às 21h, no Centro Cultural Suassuna, Barra.

- Toilette (Comédia de Walcyr Carrasco, Dir. Cininha de Paula). Quinta à domingo, no Teatro dos Grandes Atores (Shopping Barra Square).

*IRLENY FERREIRA é Professora com pós-graduação em Literatura
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