Simplesmente Thogun!
por Francci Lunguinho
Thogun é o boa-praça, morador da Zona Norte do Rio, que despontou para o sucesso através do filme “Fala Tu”, de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery. Um ex-vendedor ambulante, de voz marcante, apaixonado por jornalismo, que agarrou a chance de sair do anonimato e conquistar espaço e respeito com o rap. Nesta entrevista exclusiva, via e-mail, ele conta um pouco dessa trajetória.
Crônicas: Você foi um dos quatro cariocas participantes do documentário “Fala Tu” (de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery), que mostra o dia-a-dia dos rappers e seus sonhos de ganhar a vida cantando. Como você avalia a sua vida após o filme?
Thogun: Ganhar a vida cantando, ainda não enxerguei essa possibilidade, mas reconheço que se não fosse o mano Thales, o produtor do filme e companheiro de militância, há mais de 20 anos no movimento hip-hop carioca, não teria conseguido.
Crônicas: Foi na mesma época em que você filmou com João Moreira Salles “Notícias de uma Guerra Particular”. O que esses dois filmes têm em comum?
Thogun: Cara, eu assisti o filme em 94 e daí soube como pensava o João. Se a influência do “Fala Tu” tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João.
Crônicas: Em “Fala Tu” os personagens são carregados de peculiaridades. O Macarrão por exemplo - outro rapper que participou do filme -, perdeu a mulher vítima de eclâmpsia durante as filmagens. Você ficou sabendo desse episódio? Isso o afetou de alguma forma?
Thogun: É forte, e isso ocorre com as mães de baixa renda em todo território nacional. Uma vergonha. Fico muito puto somente em pensar nisso, uma covardia muito cruel com mulheres guerreiras como a Mônica, esposa do Macarrão.
Crônicas: Você continua vivendo no subúrbio?
Thogun: Sim, mas quero implantar projetos em Cavalcante, e sair pelo mundo sem esquecer minhas raízes e minha base. Sou da Zona Norte até morrer (risos). Esse cheiro não tem que sair da minha alma.
Crônicas: Você filmou para “Fala Tu” no hospital onde seu pai estava internado devido ao câncer, que faleceu antes do filme ser lançado. Vocês chegaram a conviver um tempo juntos? Deu para recuperar os anos que ficaram longe um do outro?
Thogun: Deu para alcançar o perdão, o meu de filho e o dele de pai.
Crônicas: Como surgiu o convite para participar da série da HBO, “Filhos do Carnaval” (O canal agora está reprisando a série aos domingos)?
Thogun: Cara, a roteirista Helena Soares obrigou os diretores a assistirem o “Fala Tu”. Os diretores Cal Hambúrguer e Cézar Rodrigues viram, com certeza, que eu preenchia o perfil do personagem e me fizeram dois testes, e eu passei.
Crônicas: Nela você é Nilo, filho bastardo e segurança do bicheiro Gebarão (Jece Valadão), mas também é o personagem que narra toda a trama. Por que você acha que foi escolhido para viver esse papel de destaque?
Thogun: Força de expressão: finalmente eu vi como é bom ser rapper, pois, até “Filhos do Carnaval” eu não era ator.
Crônicas: Como foi trabalhar ao lado de feras como Felipe Camargo e Henrique Diaz, e o próprio Jace Valadão?
Thogun: Senti-me premiado, e estes caras não mediram esforços para me ajudar. Foi maneiro, em especial, o Sr Jorge Coutinho, que viveu o Joel, meu pai postiço. Ele é foda!!! Muito bom ator.
Crônicas: Como é sua vida hoje? Você continua fazendo músicas?
Thogun: Sim, montei minha empresa e coordeno uma ONG, chamada qmovimenta do Brasil, que atua no Morro do Pinto.
Crônicas: Como é o convívio com outros rappers do Rio?
Thogun: O melhor, pois o rap é extremamente democrático, vale a postura de cada um.
Crônicas: Já tem novos convites para participar de outros projetos como ator?
Thogun: Sim, mas quando forem confirmados, te falo.
Crônicas: Já conseguiu realizar o sonho de se tornar jornalista?
Thogun: As facus que me prometeram bolsas “cagaram o pau”, mas semestre que vem ninguém me segura!
Crônicas: Você acompanha a política brasileira?
Thogun: Faço política desde que acordo. Não adianta fechar os olhos para as realidades do nosso país.
Crônicas: O que espera que mude no Brasil a partir das eleições?
Thogun: Que o povo pare de acreditar em novela, participe realmente com verdade deste processo de mudança, e aprenda a lutar por seus interesses.
Crônicas: O que você diria para a molecada das favelas que pretende viver da arte e o que fazer para não cair na rede do tráfico?
Thogun: A arte é um trampolim, e nem todos vão estar a frente das câmeras e dos holofotes, mas podem fortalecer os bastidores e serem protagonistas das suas realidades; vencer e potencializar para que outros vençam.
Assim, a molecada vai ficar longe do tráfico quando souber verdadeiramente se valorizar, deixando de se ver como massa de manobra de governantes, capitalistas e traficantes, pois realmente existe a opção de estar vivo, e vale a pena lutar pela vida. Valeu! Paz!!! Saudações quilombolas!
...........................................................................................................................................................
*Francci Lunguinho é editor do CrônicasCariocas
Voltar | Capa |