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» Rio de Janeiro, 1 de junho de 2007

Entrevista: Ricardo Brito

por Francci Lunguinho


Ricardo entre as cantoras: Aninha Portal, Ana Costa, Caimla Costa e Dorina

“Essa é maravilhosa / Cidade das mais gostosas / Resistência do samba e do calor / Onde o novo também tem valor / Por isso, vamos abrir / Espaço para ouvir / Um samba cujo tema / É Carioca da gema”. Carioquíssimo esse CD “As Cantoras da Lapa – Encantos do Samba”, produzido pelo poeta e compositor Ricardo Brito. O CD reúne dez encantadoras vozes femininas da cena musical carioca, conhecidas, sobretudo, dos freqüentadores da Lapa. Com Brito no gol, o time se faz com Ana Costa (arrasando logo de cara com “Feitiço do Tempo”), Aninha Portal, Camila Costa (maravilhosa interpretando o samba, cujo trecho da letra abre esse texto); Dorina, Elisa Addor, Magali, Marcia Lima, Telma Tavares, Verônica Ferriani, e completando, Vika Barcellos, com “Coração batuqueiro”.


A Entrevista:

Crônicas Cariocas: Como surgiu a idéia de produzir o CD “As Cantoras da Lapa”?

Ricardo Brito: Venho acompanhando o movimento musical que ocorre na Lapa. O resgate do Rio antigo, com investimentos públicos e privados, a Lapa vem se caracterizando também pelo resgate do samba e do choro. Por coincidência, há um número bem grande de cantoras talentosas surgindo e cantando regularmente na Lapa. Tenho sofrido muita influência desse movimento e como não tenho aspirações como cantor, resolvi convidar essas cantoras para apresentarem meus sambas.

Crônicas: Como se deu a escolha das dez vozes femininas para interpretar este CD?

Ricardo: Inicialmente fiz uma relação com cerca de 20 nomes, também recebi sugestões de meus parceiros e amigos músicos. Essas 20 poderiam ter cantado. Quando comecei a consultá-las, mostrando-lhes meus sambas, para minha surpresa todas toparam. Fechei com as dez primeiras que aceitaram e nem consultei as outras.

Crônicas: Por que só dez músicas?

Ricardo: Só? Rsrsrsrs. Você acha que é fácil juntar 10 cantoras num CD? Rsrsrss. São 10 arranjos, vários músicos e profissionais envolvidos. Todas elas foram fantásticas. Alto nível de competência e profissionalismo. Nota 10. Ficou de bom tamanho.

Crônicas: Há alguma cantora que não participou deste CD e que você gostaria de tê-la convidado?

Ricardo: Várias, inicialmente às 20 da primeira relação. Mas estou muito feliz com as 10 que participaram.

Crônicas: Existe a idéia de um segundo volume deste CD?

Ricardo: Claro que há. Mas primeiro precisamos trabalhar bem esse. Isso é um negócio. Não estamos colecionando troféus. Há muita coisa a ser feita com esse CD ainda.

Crônicas: Suas letras falam de amor e do cotidiano, assim como do carioca e da boemia. Como é o seu processo de criação?

Ricardo: Tem temas que me interessam mais. Gosto de tocar em detalhes do amor e do cotidiano expressando meu sentimento. Sou o que sou.

Crônicas: Sua mãe é pianista e organista e, como você já declarou outras vezes, foi a grande incentivadora de sua carreira musical. Como era sua vida com sua mãe e qual influência você carrega dela?

Ricardo: Mamãe faleceu em dezembro de 96. Ela trabalhava para a ONU, cuidando de refugiados políticos e nas horas vagas se dedicava à música. Fundou a associação carioca de organistas e criou, junto com Felipe Radicetti e outros, um movimento de concertos em igrejas, que atualmente ainda existe. Nos últimos anos de sua vida ela estudava improviso com Luisinho Eça e Harmonia com Tomás Improtta. Com isso ela de vez em quando criava melodias e me pedia para escrever letras ou me pedia letras para musicar. Ela achava que eu devia me dedicar mais a escrever letras. O que só aconteceu efetivamente após a sua morte. De certa forma, ela está presente em cada letra que escrevo.

Crônicas: Você é um entusiasta do samba, e já compôs mais de cem letras, embora tenha começado a partir de certa idade. O que o levou a produzir tanto e em tão pouco tempo?

Ricardo: Certa idade? Prefiro a idade certa.  As coisas acontecem quando tem que acontecer. Meus parceiros são meus grandes incentivadores. Volta e meia recebo uma linda melodia para letrar. Aí vira compromisso e trabalho. Escrever pra mim é um exercício contínuo. Tento escrever um pouco todos os dias.

Crônicas: Você é um típico carioca da gema e apaixonado pela Lapa. Produziu um CD que é um grito de amor e resgate ao bom-gosto musical. Você acredita que conseguiu atingir seus objetivos neste trabalho?

Ricardo: Com certeza, graças ao apoio de profissionais com a qualidade de Alceu Maia e Fernando Carvalho, responsáveis pelos arranjos e a qualidade das músicas que ambos fizeram, além das lindas melodias de Ito Moreno e Alberto Rosenblit. Isso sem falar das encantadoras: Ana Costa, Aninha Portal, Camila Costa, Dorina, Elisa Addor, Magali, Marcia Lima, Telma Tavares, Verônica Ferriani e Vika Barcellos, que “arrasaram” em suas interpretações.

Crônicas: Nos últimos anos, a Lapa vem crescendo demograficamente, o que chamou a atenção de alguns investidores da construção civil. Condomínios residenciais, sobretudo para as classes médias e altas, foram criados. Como você enxerga essa mudança? Você acha que isso, de alguma forma, pode alterar o estilo boêmio que é característico do bairro?

Ricardo: De forma alguma. Isso é uma ação programada. Venho acompanhando esse desenvolvimento e sei do esforço do Secretário Ricardo Macieira, estimulando o crescimento do bairro, além do investimento de empresários como o Thiago Cesário Alvim e o Plínio Fróes. 


A Lapa vem se caracterizando também pelo resgate do samba e do choro. Por coincidência, há um número bem grande de cantoras talentosas surgindo e cantando regularmente


Capa do CD Cantoras da Lapa

Crônicas: Em 1994, a partir do Projeto Coca-Cola de Teatro Infantil, você criou o Projeto Coca-Cola de Teatro Jovem, que foi um grande marco para o teatro nacional. Como você descreve esse período de sua vida?

Ricardo: Foi um período de grandes transformações pessoais. Foi um pulo sem volta para a área cultural.

Crônicas: Você também é escritor. Publicou, em 1994, o livro “O Meu Canto – Um Canto de Poesia”. Você tem se dedicado à literatura ultimamente? Pretendo publicar outros livros?

Ricardo: Não me considero um escritor, apesar de que tenho um romance inacabado. Esse livro é um registro de letras de músicas, na sua maioria letras que fiz para músicas de Ronaldo Mota, primeiro parceiro que me estimulou e com quem desenvolvi mais de 30 parcerias.

Crônicas: Quais as suas influências musicais?

Ricardo: Versátil. Adoro o velho Dorival, as canções de Tavito, os sambas de João Nogueira, as melodias de Tom e de Sueli Costa. As letras de Abel Silva e Paulo César Pinheiro. Tenho grande admiração e respeito por Chico Buarque, Caetano Veloso e Roberto Carlos também. Mas meu ídolo mesmo chama-se Marcus Vinícius de Moraes.

Crônicas: E na literatura?

Ricardo: Jorge Amado, Machado de Assis, dentre outros.  Stella Caymmi é a grande revelação, o livro dela sobre a vida e obra do avô é um espetáculo. Atualmente estou lendo o Almanaque do Samba de André Diniz. Muito bem escrito também.

Crônicas: Como você vê o samba hoje no Brasil? Há espaço para o samba nas rádios cariocas?

Ricardo: Só há. As rádios, com essa questão do Jabá, estão se afastando do público.
É só você ver a quantidade de pessoas que freqüentam a Lapa, que curtem o samba e o choro, que você vai ver que as rádios estão na contramão. Algumas estão começando a acordar. Quem acordar primeiro com força, sai na frente.

Crônicas: O site CrônicasCariocas tem como marca a divulgação da cultura local e nacional.  Em sua opinião, o que a mídia pode oferecer para contribuir com a cultura brasileira?

Ricardo: Espaço e informação honesta. Parece simples, mas na prática não é. É necessário acompanhar os movimentos populares e estar na vanguarda das aspirações da sociedade.

Veja vídeo com a gravação da música Carioca da Gema, interpretada por Camila Costa:
http://www.youtube.com/watch?v=HR4cu4gKuf4

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*Francci Lunguinho é editor do CrônicasCariocas

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