Dados Incompletos
05|07|07 • Toca o telefone. Torço o nariz, contrariada pelo atraso naquelas meditações diárias a que estamos todos submetidos, desde o nascimento.
Traço o caminho reverso com passos lentos, na esperança de que de que a música pausada e repetitiva se interrompa.
Atendo no quarto toque.
- Oi?
- Bom dia. Aqui é da Casa Bela, atendente Graça falando. Com quem estou falando?
- Onde? Quem? Quem você está procurando?
- Graça, da Casa Bela. Bom dia. Estou procurando a Elida.
- Não sei se ela está, pode me adiantar o assunto?
- Pois não. É que ela preencheu um cadastro na nossa loja mas a ficha voltou. A Sra pode me dizer qual o horário em que ela se encontra?
- Ficha? Casa Bela? Que ficha é essa, menina?
- Eu posso falar com a Elida?
- Elida de que? Tem duas Elidas nesta casa.
- Elida Tal.
- É ela mas já vou te adiantando que não posso te ajudar em nada. Não faço a menor idéia do que se trata.
- A senhora esteve em nossa loja, preencheu uma ficha mas a ficha voltou por estar com os dados incompletos.
- Menina...
- Graça.
- Graça, eu não sei que ficha é essa. Não preenchi nada em lugar algum.
- Peraí um minutinho que vou puxar seus dados aqui na minha tela para esclarecê-la melhor.
- Tá.
- Pronto, Dona Elida. A senhora esteve aqui no dia 12 de março para....
- Ah tá. Isso.
- Lembrou?
- Lembrei mas agora que vocês ligam? O que ficou faltando?
- O cargo, Dona Elida. Vejo aqui que a senhora preencheu a profissão como escritora mas se esqueceu de preencher qual o cargo que a senhora exerce.
Achei que não havia entendido direito. Eu só podia estar bêbada!...
- Cargo? Você quer um cargo para "escritora"?
- É, Dona Elida. A senhora não preencheu o cargo.
- Um minuinho só.
- Pois não.
Pego o dicionário, aquele preto e gordão do MEC. Começo a folhear.... A... B.... Passo uma espessura maior de folhas, chego na metade da letra D. Mais algumas e chega o E. Começo a folhear mais devagar. Achei! "Escritor = indivíduo que escreve..."
Não li tudo, eu só queria confirmar se todos os brasileiros alfabetizados estavam errados ou não. Retorno ao telefone.
- Qual seu nome mesmo? Graça, né?
- Sim, senhora.
- Graça, vou ler o que o Ministério da Educação e Cultura diz sobre minha profissão - achei melhor não usar a palavra "dicionário", eu ainda estava na dúvida se era eu ou ela que estava bêbada.
A moça do outro lado, meio insegura, responde:
- Pois não.
Leio a definição completa da palavra escritor pra ela que, educadamente, permanece em silêncio respeitoso mas impaciente a julgar pelo barulho acentuado que passara a fazer ao mascar o chiclete.
Ao terminar a leitura, pergunto:
- Foi o suficiente pra você?
- A senhora ainda não me disse seu cargo.
Penso em fundar uma organização ultra-super-secreta para contratar todos os marginais do mundo para enviá-los numa missão mais ultra-super-secreta ainda: Detonar todas as escolas, já que de nada estão adiantando. Respiro fundo, compro mais uns créditos de paciência com o Moço lá em cima e respiro fundo, antes de sugerir alguma coisa que seja ao menos lógica para a tal da Graça.
- Ponha escritor.
- Não posso, escritor está em sua profissão, preciso do cargo ou função. Qual cargo a senhora exerce?
- Ponha autônomo.
- Não posso, escritor não é autônomo.
Respiro fundo mais uma vez, tentando adivinhar se os créditos de paciência que comprei seriam suficientes.
- Tira escritor, ponha autônoma. Em cargo, ponha camelô.
- Não posso, senhora.
- Porque?
- Camelô não é função.
Queria ouvir essa mulher dizer isso aos 70% de cidadãos economicamente ativos da Cidade Maravilhosa...
- "Querida" (eu, apelando...), vamos por partes. Escritor escreve. Quer uma função para "escritor"? Então ponha "escrevente", que é a mais adequada.
- Não posso colocar escrevente porque aqui diz escritor.
- Porque não posso ser "escrevente"?
- A senhora já disse que era escritora.
Compro uns crédiros de ironia com o Homem. A paciência não é a mais adequada para esse caso. Depois de cheirar algumas doses de ironia e injetar uns sarcasmos na veia, lembro que a moça ainda espera uma resposta satisfatória de minha parte.
- Olha, Graça - solto um suspiro de "vencida" - Você realmente me pegou dessa vez. Eu estava com vergonha de falar a verdade mas estou vendo que não tem outro jeito. Sou cafetina da Praça Mauá. Minha área é a cobrança. Cobro 27% de comissão das minhas... digamos assim... funcionárias.
A atendente está completamente muda do outro lado. Não escuto mais o tamborilar do teclado nem o som do chiclete sendo sovado pelos dentes da moça. Retorno à carga:
- Anotou aí? Cuida direitinho de como você vai preencher isso pra não pegar mal pra minha imagem, sacou? - tenho que rebaixar o vocabulário, né?
Faço uma voz discreta antes de continuar:
- É.. Porque eu tenho um negócio a zelar.
Troco para uma voz macia e sexy:
- Falando nisso, você tem uma voz bem bonita, quantos anos você tem?
Pequena pausa do outro lado.
- Ãhn... Dona Elida, obrigada pelo elogio. Eu estava aqui pensando em como a senhora tem razão. Escritor escreve. Vou preencher "escrevente" na sua função e ver se sua ficha passa.
Puxo a respiração para dar maior entonação à minha fala:
- Você me faria um grande favor, não sei como te agradecer.
- De nada, Dona Elida. Desculpe ocupar seu tempo.
- Por nada, você só está cumprindo seu trabalho...
- A Casa Bela agradece e lhe deseja um bom dia.
Ela nem esperou eu desejar-lhe um dia igualmente bom.
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