É o Pan
30|05|07 • Tem coisas que são esquisitas simplesmente pelo fato de serem normais. Os experts em listar exemplos disso são os motoristas e pilotos que trafegam pelas vias cariocas nessa feira de "obras pro Pan".
Numa época de economia de água, gasolina, tempo e desgastes vem nossa Secretaria de Tráfego andar pela contramão, justo ela que deveria ter carteira de habilitação com tarja dourada. O Pan 2007 transformou nossos caminhos em misteriosos labirintos onde ficou mais fácil chegar aonde não temos a menor noção de onde estamos indo.
Os desvios estão muito bem sinalizados e as empresas de ônibus foram incansavelmente alertadas, provavelmente apenas nos sonhos dos funcionários responsáveis. O fato de a dois dias atrás eu ter pego um ônibus para chegar na Avenida Dom Helder Câmara e ter parado na Rua Dias da Cruz em sentido contrário, foi um mero incidente de percurso. Aquela viagem da minha amiga que saiu de Cascadura para uma hora depois estar de volta a Cascadura quando já deveria estar na Usina também foi uma coisinha de nada.
No outro dia, de novo sem moto, me vi na obrigação de fazer um pequeno sacrifício e pegar um ônibus. Num dos desvios criados, fomos parar dentro de um shopping center, o Shopping Nova America para ser mais exata. Pensei em aproveitar a carona meio fora de hora pra fazer umas comprinhas, mas estava cansada e doida para chegar em casa, tomar um banho e um grande balde de café.
Chegamos ao Shopping meio sem saber como, já que o trajeto daquela linha não passa nem perto daquele bairro – estávamos a kilômetros de distância do trajeto normal. O problema agora não era achar o caminho de volta mas sim, conseguir sair dali. Se déssemos ré pegaríamos a Linha Amarela; não podíamos seguir em frente porque o portal não dava altura suficiente para que o ônibus passasse. De qualquer forma a circulação de ônibus urbanos pelo estacionamento do shopping era proibido. Estávamos presos e perdidos.
Alguns passageiros ficaram nervosos, irritados, soltando xingamentos e ofensas ao motorista. Apenas uma senhora pedia calma para não piorar nossa situação. Um rapaz jovem (ah, os jovens!) tentava encontrar uma saída dando várias soluções tão simples quanto fantasiosas – pelo menos ele tentava e merecia o crédito pelo esforço. Adivinha o que eu estava fazendo? Pois é, eu estava tentando manter o riso num tom discreto, achando tudo aquilo incrível. Pensava em meu filho, que adoraria estar vivenciando aquela situação. Com certeza ele se uniria ao jovem rapaz tentando listar as inúmeras saídas para aquele quebra-cabeça onde as peças éramos nós.
O segurança do shopping, depois de algum tempo mandando nosso motorista sair dali, resolveu seguir o manual de instruções e chamou o chefe pelo rádio. Ouvimos ele contar que estava com um ônibus entalado naquela entrada. O chefe respondeu com uma bronca no funcionário por estar inventando "lorices" (foi a primeira vez que ouvi essa palavra – ai ai... a primeira vez a gente nunca esquece!), que brincadeira idiota era aquela, que não adiantava inventar histórias porque ninguém ia sair mais cedo e outras coisas mais que saíram acompanhadas de algumas palavras até que bonitinhas, mas que figuravam na lista de palavras marginais.
O segurança insistiu, nosso motorista resolveu gritar um socorro perto do rádio e o chefe ficou em silêncio do outro lado. Devia estar avaliando a possibilidade da situação estar realmente ocorrendo ou tentando descobrir se os funcionários do shopping estavam lhe pregando alguma lorota.
Veio o chefe, de moto (ai que inveja!). Coçou a cabeça, quis ouvir de nosso motorista como viemos parar ali, blá-blá-blá pra cá, blá-blá-blá pra lá até que resolve deixar nosso ônibus atravessar pelo estacionamento do shopping para retornar ao caminho de origem. Nessa altura do campeonato a maioria dos passageiros tinha descido, talvez com a mesma intenção que eu tivera antes. Sobraram eu, o rapaz cheio de soluções, uma moça que assistia a tudo quietinha ouvindo seu mp3 (acho que ela nem tinha percebido a situação, tão distraída que estava com o som) e mais um passageiro do grupo estressadinho-agressivo. O restante já devia estar cheio de sacolas, assinando as notinhas que consumiriam o próximo salário. O problema agora se resumia em como o chefe nos tiraria dali.
Ele chamou um outro pelo rádio que apareceu cheio de chaves. Este deu uma virada com uma delas na caixa eletrônica do segurança-porteiro e um dos três portais começou a subir. O motorista perdido deu uma pequena marcha-ré para sair do portal que estava e pegar o portal ao lado. Fizemos uma pequena parada para aguardar o chefe montar na moto pra nos guiar em segurança pra bem longe dali.
Não sei por conta de qual milagre, depois do segurança da moto nos deixar, conseguimos fazer o motorista do ônibus pegar o caminho certo para retornar ao trajeto original – mas foi por pouco que não entrávamos em outra aventura.
Nessa brincadeira perdemos uma hora e meia mais ou menos. Mas não se preocupem – tudo para o bem do cidadão. O desvio que inventaram lá atrás foi apenas para evitar o desperdício de nosso tempo com as obras do Estádio João Havelange. Vocês viram que a solução nos fez economizar tempo, gasolina e até testamos os limites das leis de tráfego.
Este foi mais um serviço prestado pelo Pan 2007 – aquele que testa a sua pan-ciência!
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