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*Esta autora escreve neste espaço às quartas-feiras
 

Mulheres!...

30|05|07 • Aprendi uma coisa importantíssima:

Sou mulher e adoro ser mulher. Adoro comprar coisas de mulher, fazer coisas de mulher, agir e pensar como mulher.

Nada como um bom papo de mulher prá mulher com as amigas mais queridas. Parir, amamentar, cuidar dos filhos e até menstruar.  Beleza, tiro de letra!

Mas, jamais me acostumarei com algumas horas passadas num cabeleireiro. Não sei como as mulheres agüentam.

Preciso de um curso de como não se enjoar nesses locais enaltecidos como o milagre da beleza feminina. Sinto muito mas, se depender de mim, fico feia o resto da vida.

Como entender aquele papo que me parece mais coisa de outro mundo? Meninos, vocês não têm noção, não há ambiente mais pobre de papo como este.

Qualquer empregada analfabeta é capaz de soletrar algumas frases mais inteligíveis, desde que NÃO esteja dentro de um salão.

O boteco mais pé-sujo de uma área, digamos assim, da classe baixa entre as mais baixas, com seus peões e meretrizes das mais vulgares, têm papo mais agradável que qualquer salão mais chique.

As revistas? Pelos meus sacrossantos seios, de onde saem aquelas inteligências gráficas? O que acontece com as mulheres quando transpõem o limite entre o fora e o dentro desse estabelecimento?

É exatamente de um local desses que nasceu a expressão mulher bonita é burra.

Tento integrar-me ao habitat natural de secadores e parafernálias mil.
Não dá, são poucos assuntos:

a) falar mal da amiga:
Graças a Deus não tenho amigas de quem eu queira falar mal. Assumo meu egocentrismo com orgulho nessas horas: todos os meus amigos e minhas amigas são sempre os (as) mais perfeitos (as), até em seus defeitos.
b) a troca de casais em qualquer ambiente presente neste planeta, que inclui das novelas aos segredinhos da família dos maridos, namorados e afins...:
c) novelas:
Não assisto. Aliás, não chego nem perto da TV. Como faz falta uma novelinha nessas horas (eca!).
d) filhas e filhos de qualquer um, sempre são lembrados nos casos mais sórdidos:
Crianças, imaginem eu lá, falando mal de vocês. Não dá! Vocês são gracinhas demais. Aprontem umas diabruras cabeludas de vez em quando para que eu tenha o que falar da próxima vez. Pelo menos isso...
e) os machos.
Ah, os machos! Aqui eu tenho que me prolongar.

Como se falam dos machos. Tudo! Não existe lugar no mundo onde eles estejam mais revelados e pelados, do que dentro de um salão de beleza. Podem estar em casa dormindo ou em outra cidade. Não há escapatória! Seus retratos em preto e branco serão descritos nos mais ínfimos detalhes. Aqui as mulheres seguem à risca, a máxima do cantor Falcão, quanto pior, melhor.

O mais belo e perfeito galã de cinema se transforma num bêbado abandonado, fétido e maltrapilho. Nenhum escapa das línguas afiadas das mulheres de salão. Como elas conseguem isso, eu não sei.

Enquanto as profissionais esculacham com todos os machos do mundo, suas mãos se transformam na mais potente arma de beleza. É dessa energia mundana que, se transforma cabelos sem vida num irretocável complexo de seda em brilho. O resultado do serviço é proporcional ao tamanho e quantidade de maledicências que foram descarregadas.

Por conta disso, descobri que não sou 100% mulher. Meu mundo caiu!

Passarei os próximos vinte anos em terapias de grupo e meditação para buscar minha mulher interior. Tenho que ter alguma.

Pode ser que esse meu pedaço-mulher esteja caído ensangüentado, precisando de algum socorro. Trancafiada talvez, em alguma cela pútrida dentro do meu intestino.

Cadê minha eu salvadora que guarda o pote de papos mais que imbecis? Logo eu, que sempre achei que falava bobagens demais, ser consumida nessa realidade caótica de um mundo de xampus e esmaltes? Mandem os para-médicos, por favor!

Até que eu me recupere vou rebolar mais que atleta em maratona.

Usarei laços e roupas cor de rosa, só falarei de culinária, solarei um oh com lágrimas nos olhos, cada vez que esbarrar com um casal se beijando. Verterei lágrimas de cristal aquoso incontido a cada poema lido. A sensível e apaixonada Florbela Espanca é um bom começo.

Desenvolvi algumas simpatias para seguir à risca, assim que sair de um processo de beleza desses:

1) Coçar descaradamente entre as pernas;
2) Cuspir pro lado o mais distante possível;
3) Parar na banca do jogo do bicho pra pegar o resultado do dia;
4) Imediatamente após, tomar um gole "da Roça";
5) Em caso de sentir fome, só pedir sardinha frita.

Depois de afundar-me dessa maneira no mundo masculino, retornarei ao meu mundo feminino com o mais importante e imprescindível:

6) Atirar-me nos braços de um moreno bem gostoso que me descabele até a alma.

Seguindo passo a passo o meu método, as últimas horas vividas serão riscadas definitivamente de minhas memórias.

Só assim poderei aceitar e conviver com minha realidade nem tão 100% mulher mas 100% feliz!

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