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*Esta autora escreve neste espaço às quartas-feiras
 

O Caminhoneiro

09|05|07 • Fui andando em direção ao ponto de ônibus. Quase ao  chegar à esquina, vi um caminhão estacionado em cima da calçada e um homem, seu motorista, futricando aqui e ali tentando resolver algum problema. Aquele não era um bom local para enguiçar um caminhão daquele porte. A calçada e a rua, de mão única, eram estreitas. No ponto onde o veículo parara, a rua iniciava uma curva de 180 graus. Na outra ponta da curva, ganhava um novo nome.

O caminhão atrapalhava a visibilidade dos motoristas que vinham por aquela rua para pegar a curva. A passagem dos pedestres tornava-se perigosa, sem espaço na calçada, tinham que passar pela rua, junto aos automóveis que ali trafegavam.

Confesso que sou covarde, tenho medo de ser atropelada. Vi um pequeno espaço entre o muro e o homem que tentava consertar o caminhão. Lembrei de meus familiares e um de seus conselhos, que dizia para evitar cantos escuros e apertados. Sorri com a lembrança mas resolvi arriscar. Achava melhor ser molestada do que parar num hospital cheia de costelas quebradas.

Passei tranquila sob o olhar atento e surpreso do caminhoneiro. Depois que passei, ouví-o dizer:

- R$ 0,50 por um beijo de amigo! Por favor!

Permiti-me um sorriso por já estar de costas pra ele. Os homens não tinham jeito! Meu humor não me permitiu entender a oferta como uma ofensa - era só um caminhoneiro de gracinha.

- Hei, Dona! É só um beijo de amigo, na face. Eu fecho os olhos e ponho os braços pra trás. Não vou trapacear.

Mesmo sem querer, eu ri escandalosamente. Sem encontrar o controle para segurar a gargalhada, parei e voltei-lhe os olhos.

- Você é muito abusado.
- Desculpa, Dona. Pedi por favor...
- Já me fez rir. Vou te dar o beijinho de graça.

Ele abriu um sorriso de orelha a orelha, com cara de safado.
- Assim não tem beijinho.
- Assim como, Dona?
- Com esses pensamentos na sua cabeça.
- A senhora é vidente?
- Claro que não. Determinados pensamentos são muito visíveis nos olhos.
- Sem maus pensamentos, Dona. Prometo - ele falou sério.
- Tá bem. Vou te dar um voto de confiança. Mas ponha as mãos pra trás.

Ele riu, colocou as mãos pra trás, fechou os olhos e estufou a bochecha direita voltada pra mim. Dei um beijinho bem estalado, desses bem dados.

- Pronto, teve seu beijinho.
- Poxa, Dona. A senhora é bacana.
- Tá. Agora deixa eu ir sossegada e vê se acaba logo de consertar esse caminhão que está atrapalhando todo mundo.
- É pra já, Dona! Obrigado. Vá com Deus.
- Tchau. Juízo!
Voltei-lhe as costas e retomei meu caminho.
- Ô Dona!
Pensei comigo: "Pronto, vai começar a palhaçada". Virei pra ele meio zangada.
- O que foi agora?
- Nada, Dona. Só queria dizer que a senhora me fez muito bem. Pode acreditar. Eu tava malzão. Desculpa a expressão mas eu tava era puto mesmo. Tá tudo tranquilo agora.
- Tá. Você mereceu seu beijo. Estou atrasada, moço, não dá tempo para mais papo. Agradeço suas palavras, fizeram meu humor aumentar de escala. Tchau!
- Felicidades, Dona!
- Pra você também.

Alguns passos adiante, três homens de braços cruzados que haviam observado a cena, fizeram-me um cumprimento respeitoso com a cabeça. Respondi cada um com um de meus melhores sorrisos e votos de boa tarde.

A lembrança do caminhoneiro foi guardada a sete chaves e ainda hoje me provoca um sorriso cúmplice comigo mesma. Iniciei ali a transgressão a algumas regras. Como pequena rebelde, muitas outras vieram depois mas são outras histórias...

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